A nova escravatura II – Tailândia: Corpos descartáveis
Setembro 26, 2007 at 10:48 pm | In cativeiro, denúncia, escravatura, exploração, violência | Leave a CommentKevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)
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Corpos descartáveis
As raparigas são tão baratas que há pouca razão para cuidar delas a longo prazo. Os gastos em cuidados médicos ou em prevenção são raros nos bordéis, dado que a vida trabalho das raparigas escravizadas, por dívida, é bastante curta — entre dois e cinco anos. Depois disso, a maior parte do lucro já foi extraído da rapariga e é mais proveitoso, do ponto de vista dos custos, descartar-se dela e substituí-la por outra fresca. Nenhum bordel quer aceitar a responsabilidade por uma rapariga doente ou moribunda.
As prostitutas escravizadas nos bordéis enfrentam duas grandes ameaças à sua saúde física e às suas vidas: a violência e a doença. A violência — a sua escravização imposta pela violação, os espancamentos ou ameaças — está sempre presente. Essa é a introdução típica ao seu novo estatuto como escravas sexuais. Praticamente todas as raparigas entrevistadas repetiam a mesma história: depois de serem levadas para o bordel ou ao primeiro cliente como virgens, qualquer resistência ou recusa provocava espancamentos e violação. Algumas raparigas dizem terem sido drogadas e depois atacadas; outras dizem terem sido submetidas sob ameaça de arma. A aplicação imediata e vigorosa do terror é o primeiro passo na escravização triunfante. Horas depois de terem sido trazidas para o bordel, as raparigas estão a sofrer e em estado de choque. Como outras vítimas da tortura, elas ficam muitas vezes entorpecidas, paralisadas nos espíritos, se não nos corpos. Para as raparigas mais novas, com pouca compreensão daquilo que lhes está a acontecer, o trauma é arrasador. Quebradas e traídas, em muitos casos têm pouca memória daquilo que lhes aconteceu.
Depois do primeiro ataque, a rapariga fica com pouca resistência, mas a violência não acaba. No bordel, a violência e o terror são os árbitros finais de todas as questões. Não há argumento nem apelo. Um cliente infeliz traz um espancamento, um cliente sádico traz mais dor; para intimidá-las e defraudá-las mais facilmente, o proxeneta faz cair o terror a esmo sobre as prostitutas. As raparigas devem fazer tudo o que ele quer para evitar espancamentos. Fugir é impossível. Uma rapariga contou que quando foi apanhada a tentar fugir, o proxeneta espancou-a e depois levou-a para a sala; com dois ajudantes, espancou-a outra vez diante de todas as raparigas do bordel. Depois disso, ela foi encerrada num quarto durante três dias e três noites sem comida nem água. Quando a soltaram puseram-na imediatamente a trabalhar. Duas outras que tentaram fugir disseram terem sido desnudadas e chicoteadas com cabos de aço pelos proxenetas. Os polícias servem de caçadores de escravos sempre que uma rapariga foge; depois de capturadas, as raparigas são muitas vezes espancadas ou violadas na esquadra da polícia antes de serem devolvidas ao bordel. Para a maioria das raparigas, depressa se torna evidente que nunca conseguirão fugir, que a sua única esperança de libertação é agradarem ao proxeneta e de algum modo liquidarem a sua dívida.
Com o tempo, a confusão e a descrença diluem-se, deixando o pavor, a resignação e um corte da ligação entre a mente e o corpo. Agora a rapariga faz tudo o que seja preciso para reduzir o sofrimento, para se ajustar mentalmente a uma vida que significa ser usada por quinze homens por dia. A reacção a esse abuso assume muitas formas: letargia, agressão, auto-aversão e tentativas de suicídio, confusão, auto-flagelação, depressão, psicoses e alucinações. As raparigas que foram libertadas e colocadas sob protecção sofrem de tudo isso. Os funcionários da recuperação indicam que as raparigas sofrem de instabilidade emocional; são incapazes de confiar ou criar amizades, de se reajustarem ao mundo fora do bordel, ou de aprender e desenvolver-se normalmente. Infelizmente, o aconselhamento psicológico é virtualmente desconhecido na Tailândia, e há uma forte pressão cultural para manter ocultos quaisquer problemas mentais, e pouco trabalho terapêutico se faz com as raparigas libertas dos bordéis. Não se conhece o impacte a longo prazo desta experiência.
É possível traçar um quadro mais nítido das doenças físicas que as raparigas acumulam. Há muitas doenças de transmissão sexual, e as prostitutas contraem a maior parte dessas doenças. As infecções múltiplas reduzem o sistema imunitário e tornam mais fácil a instalação das infecções. Se a doença afecta a sua capacidade para praticar sexo, pode ser tratada, mas as doenças crónicas sérias são muitas vezes deixadas sem tratamento. A contracepção também prejudica muitas vezes as raparigas. Alguns escravocratas administram eles próprios pílulas contraceptivas, continuando sem qualquer interrupção e recusando as pílulas placebo mensais. Assim, as raparigas deixam de ter menstruação e trabalham mais noites por mês. Algumas raparigas recebem três ou quatro pílulas contraceptivas por dia; outras recebem injecções de Depo-Provera, dadas pelo proxeneta ou pelo caixa. A mesma agulha pode ser usada para injectá-las a todas, passando o HIV de uma rapariga para as outras. A maior parte das raparigas que engravidam são mandadas abortar. O aborto é ilegal na Tailândia, por isso será uma operação clandestina, com todos os riscos óbvios. Algumas mulheres são deixadas a trabalhar quando estão grávidas, e alguns homens tailandeses gostam de ter sexo com uma mulher grávida. Quando a criança nasce, pode ser tirada e vendida pelo dono do bordel e a mulher voltar ao trabalho.
O HIV/SIDA é epidémico entre as prostitutas escravizadas, o que não surpreende. A Tailândia tem hoje a mais elevada taxa de infecções com HIV em todo o mundo.
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