A nova escravatura III – Brasil: A vida à beira do precipício

Setembro 26, 2007 at 7:18 pm | In cativeiro, denúncia, escravatura, exploração, miséria, sofrimento, violência | Leave a Comment

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001

(excertos)

Brasil: A vida à beira do precipício

A nova escravatura floresce onde as antigas regras, os antigos modos de vida são destruídos. A tão publicitada destruição da floresta tropical e o resto do denso interior do Brasil cria o caos também para as pessoas que vivem e trabalham naquela região. Grande parte da escravatura no Brasil nasce desse caos social. Pensemos na maneira como uma grave inundação ou um tremor de terra podem destruir o saneamento e espalhar as doenças. Mesmo nos países mais modernos, quando um desastre natural ou de origem humana destrói o sistema de abastecimento de água e os esgotos, doenças mortais como a disenteria ou a cólera podem alastrar e afectar a população. Do mesmo modo, a destruição do meio ambiente e o desastre económico podem levar uma sociedade ao colapso — e a doença da escravatura pode crescer sobre os seus destroços.

Mas a destruição nunca é estável; nenhum lugar ou povo desliza para o caos para lá ficar para sempre. A destruição determinada pela economia está a alastrar como uma vaga de maré através do Brasil. À sua frente estão as densas florestas do cerrado ou as florestas tropicais da Amazónia; para trás estão as plantações de eucaliptos e as novas fazendas de gado, semeadas de ervas vindas do exterior, esvaziadas de animais nativos, e que fornecem carne para os mercados das cidades. Até onde a vaga alcança há desordem. O espaço entre as florestas antigas e a «civilização» é uma zona de batalha onde as velhas regras morreram e as novas regras ainda estão por entrar em vigor. À medida que o ecossistema nativo e as pessoas são extirpadas, os trabalhadores deslocados, mesmo os desempregados urbanos, ficam vulneráveis à escravização. As pessoas agarradas e forçadas a levar a cabo a destruição das florestas vivem sem electricidade, sem água corrente e sem comunicações com o mundo exterior. Estão completamente debaixo do controlo dos seus senhores. A vaga transporta consigo a escravidão. A terra que está pela frente ainda é explorável, a que fica para trás está nua e, quando toda a terra ficar nua, os escravos serão abandonados.

Temos tendência para descrever a destruição ambiental como enormes bulldozers a abrir caminho através das florestas primitivas, esmagando a vida sob o seu rasto de aço, destruindo a natureza para cobrir a terra de cimento. Na realidade, o processo é mais insidioso. Neste caso, as pessoas que vivem na floresta e dependem dela são geralmente aquelas que são forçadas a destruí-la. Árvore a árvore, as mãos dos escravos arrancam a vida da sua própria terra e preparam-na para um novo tipo de exploração. A escravidão do Brasil é uma escravidão temporária porque a destruição ambiental é temporária: uma floresta só pode ser arruinada uma vez, e não leva assim tanto tempo.

Por vezes a floresta é destruída quando dela se tira alguma coisa de valor; outras vezes a destruição não produz nada de valor. No Mato Grosso do Sul, ambas as coisas aconteceram. Há vinte e cinco anos, quando o cerrado foi limpo para dar lugar ao eucalipto, a madeira foi simplesmente empilhada e queimada. Hoje, quando a vaga final de destruição alastra pelo Mato Grosso, o cerrado e agora o eucalipto estão a ser de novo queimados — mas agora estão a ser transformados em dinheiro. A madeira é transformada em carvão, como aquele que nós usamos nos nossos churrascos. Este é um tipo especial de carvão, porque é feito manualmente, por escravos. Mas talvez não seja assim tão especial, afinal de contas — a escravatura tem uma longa história no Brasil.

«Um peito de ferro…»

Já vimos como a corrupção governamental anda de mãos dadas com a escravatura. No Brasil ela fomenta também a destruição ambiental. O advento das plantações de eucaliptos referidas no início deste capítulo era parte de um imenso esquema de fuga fiscal cozinhado nos anos 1970 pelo governo militar e pelas companhias multinacionais. As origens exactas do esquema perderam-se, mas a sua substância era clara: o governo permitia às grandes companhias e às corporações multinacionais a compra de terra federal, a um preço muito baixo, em parcelas de centenas de milhares de hectares. Se as companhias cortassem depois as florestas nativas e plantassem eucaliptos, o governo permitia-lhes que deduzissem o custo da terra e da replantação aos impostos :das corporações. Finalmente, os eucaliptos deviam ser cortados para alimentar uma fábrica de papel que o governo prometeu construir. Recebendo grandes extensões de terra numa bandeja, as grandes companhias — incluindo gigantes internacionais como a Nestlé e a Volkswagen — receberam depois mais de 175 milhões de dólares como isenção fiscal (Alison Sutton, Slavery in Brazil: A Link in the Chain of Modernisation (London: Anti-Slavery International, 1994), p. 34.).

Na década de 1990, a fábrica de papel continuava por construir, e muitos dos proprietários começaram a contratar firmas locais para limpar a terra e fazer carvão.

Quando um geólogo estudou as terras a norte do Rio de Janeiro no princípio do século XIX, disse que o país tinha «peito de ferro e coração de ouro». Esta região de ricos depósitos minerais tornou-se o estado de Minas Gerais. Hoje o estado é um centro mineiro e industrial que produz grandes quantidades de ferro e aço. Para fazer aço é preciso carvão. E as modernas indústrias do Brasil, quer fabriquem automóveis ou móveis, usam o aço produzido com o trabalho dos escravos. Muitas das fábricas e fundições são eficientes e modernas, mas o carvão que usam ainda vem das florestas derrubadas e das mãos dos escravos.

Depois de cortadas as florestas de Minas Gerais e do estado vizinho da Baía, foi preciso encontrar novas fontes de carvão; assim voltamos ao estado ocidental de Mato Grosso do Sul, a mais de mil e seiscentos quilómetros das siderurgias de Minas Gerais. À medida que a fronteira mudava para oeste, as estradas penetravam no cerrado, fornecendo caminho para acartar o carvão. E com milhões de hectares de bosque nativo ou de eucaliptos, fazer carvão é simultaneamente uma maneira rápida de espremer mais dinheiro da terra e de limpá-la para a criação de gado. O único ingrediente que falta nesta zona remota são os trabalhadores.

Há uma arte de fazer carvão; é uma habilidade que tem de ser aprendida e praticada para conseguir produzir carvão de boa qualidade. Com o desaparecimento das florestas nos seus estados natais, os trabalhadores do carvão concentraram-se nas cidades esperando encontrar trabalho. Descobriram, como milhões de outros trabalhadores deslocados no Brasil, que não havia trabalho. Famílias inteiras nas cidades do oeste oscilam à beira da fome: algumas vivem nas lixeiras rebuscando pedaços de metal para vender, outras pedem esmola e outras começaram a vender drogas. Essas famílias estão amarradas e dispostas a fazer tudo para dar comida aos filhos. Quando os recrutadores chegam às cidades de Minas Gerais prometendo bom trabalho com bom salário, elas pulam de contentes.

Segue: “Eles chegam com as suas belas palavras…”

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