Não há estranhos para mim – uma história sobre a escravidão

Janeiro às 8:45 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

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Escravos do século XXI

Setembro às 10:40 am | Publicado em ambição, cativeiro, corrupção, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, fome, miséria, sofrimento, violência | 19 comentários
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National Geographic – Set. 2003

Texto: Andrew Cockburn
Imagem: Jodi Cobb

O título não é uma metáfora. Falamos mesmo de escravos. Não de seres humanos que vivem como escravos, trabalhando por um salário miserável. Não são também os escravos de há 200 anos. Falamos dos 27 milhões de pessoas que, em todo o mundo, incluindo Portugal, são compradas e vendidas, exploradas e brutalizadas para dar lucro. São os escravos do século XXI.

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No Norte da Índia, num quarto mal iluminado e sem ventilação, uma dúzia de crianças debruçadas sobre aquecimentos a gás fabrica pulseiras para vender a 40 cêntimos a dúzia. De idades compreendidas entre os 9 e os 14 anos, estas crianças trabalham dez horas por dia, todos os dias – vendidas pelos pais ao dono da oficina em troca de dinheiro. Em média, as crianças indianas são escravizadas por cerca de 30 euros.

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As dívidas condenam famílias ao CATIVEIRO durante várias gerações. No Sudoeste da Índia, mães e filhas transportam para o forno tijolos feitos à mão, enquanto pais e filhos atiçam o fogo. Os empregadores compram os trabalhadores, emprestando dinheiro para despesas que eles não conseguem pagar. Apesar de trabalharem muitos anos para pagar a dívida, os juros exorbitantes e a contabilidade desonesta perpetuam o fardo, que passa de pais para filhos. Cerca dos dois terços dos trabalhadores cativos de todo o mundo – 15 a 20 milhões – são escravos por dívidas na Índia, no Paquistão, no Bangladesh e no Nepal.

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O corpo de uma mulher pode ser VENDIDO vezes sem conta. Os donos de bordéis israelitas, podem comprar jovens da Ucrânia ou da Moldávia por cerca de 3.500 euros. Mesmo um pequeno negócio com dez prostitutas pode render milhões se euros por ano. Fazendo-se passar por recrutadores de mão-de-obra, os traficantes vão buscar vítimas às cidades pobres da Europa do Leste, atraindo-as com promessas de bons empregos. Quando as mulheres chegam, são entregues a compradores que, por norma, as espancam, violam ou aterrorizam para garantir obediência.

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PROMESSA QUEBRADA

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Os pais do rapaz enviaram-no como aprendiz de mecânico para a capital do Benin. Trabalha o dia todo (em cima), sem descanso nem salário. Não pode sair à rua sem autorização e a desobediência é punida com pancada. Segundo Kevin Bales, director da associação Free The Slaves, a escravatura actual é caracterizada por domínio e exploração económica. O controlo sobre os escravos não se exerce com um regime legal de propriedade, mas através do que Bales chama a “autoridade decisiva da violência”. A escravatura é difícil de detectar: entre os cerca de 60 mil chineses que vivem em Itália, imigrantes legais e ilegais trabalham lado a lado com escravos. As buscas em locais como esta fábrica de peles perto de Florença (em baixo) são dificultadas pela barreira da língua e pelo uso de documentos falsos.

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Em Bombaim, na série de bordéis que ladeiam a rua de Falkland, as raparigas mais jovens e bonitas são exibidas em jaulas ao nível da rua para atrair clientes. Muitas mulheres são despejadas por traficantes nestas colmeias, mas muitas são definitivamente vendidas pelos pais ou pelos maridos. Cerca de 50 mil mulheres – metade das quais despachadas a partir do Nepal através da Índia – trabalham como prostitutas na cidade. A violência, as doenças, a subnutrição e a falta de cuidados médicos reduzem a sua esperança de vida para menos de 40 anos.

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Nasci escrava

O meu nome é Salma. Nasci na Mauritânia em 1956, escrava. Os meus pais eram escravos e os pais deles foram escravos da mesma família. Assim que comecei a andar, fui obrigada a traba¬lhar durante todo o dia, todos os dias. Mesmo quando estava doente, tinha de trabalhar.
Quando ainda era criança, comecei a tomar conta da primeira mulher do chefe da família e dos seus 15 filhos. Mais tarde, se algum dos meus próprios filhos estava doente ou em perigo, não me atrevia a ajudá-lo, porque tinha de tratar dos filhos da mulher do meu patrão. Batiam-me frequentemente. Um dia, bateram na minha mãe e eu não aguentei: tentei impedi-los. O chefe da família ficou muito zangado comigo. Atou-me as mãos, marcou-me com um ferro em brasa e deu-me um estalo. O anel dele fez-me um corte que deixou uma cicatriz.
Não me deixaram ir à escola, nem aprender mais do que alguns versículos e orações do Alcorão. Mas tive sorte, porque o filho mais velho do patrão andou numa escola longe da aldeia e tinha ideias diferentes das do pai. Em segredo, ensinou-me a falar francês e a ler e escrever um pouco. Acho que toda a gente pensou que ele andava a violar-me, mas ele estava a ensinar-me.
Os outros escravos sentiam medo da liberdade: tinham medo de não saberem para onde ir ou o que fazer. Mas eu sempre acreditei que tinha de ser livre e acho que foi isso que me ajudou a fugir. Há cerca de dez anos, tentei escapar: como não sabia a que distância ficava o Senegal, caminhei durante dois dias no sentido errado. Descobriram-me, levaram-me para trás e castigaram-me. Ataram-me os pulsos e os tornozelos, amarraram-me a uma tamareira num terreno da família e deixaram-me lá durante uma semana. O chefe da família cortou-me os pulsos com uma navalha para que eu sangrasse horrivelmente. Ainda tenho as cicatrizes.
Por fim, conheci um homem no mercado que me disse que o Senegal ficava do outro lado do rio. Decidi tentar outra vez. Corri até ao rio onde o dono de um pequeno barco de madeira aceitou levar-me até ao Senegal. Aí, fui até um refúgio administrado por um antigo escravo da Mauritânia. Fiquei no Senegal durante alguns anos, ganhando dinheiro a fazer trabalhos domésticos. Mas nunca me senti segura. Estava sempre com medo que o chefe da família pagasse a alguém para me ir procurar e me levasse de volta à sua casa.
Quando cheguei aos EUA, trabalhei a fazer tranças no cabelo. Da primeira vez que me pagaram por um trabalho, chorei. Nunca tinha visto ninguém ser pago pelo seu trabalho. Foi uma surpresa muito agradável. Uma das coisas mais difíceis foi abandonar os meus filhos, mas sabia que primeiro tinha de fugir. Desde que aqui cheguei, há três anos, tenho trabalhado para libertá-los. Paguei a pessoas que os encontraram e os levaram para o Senegal e agora estou a pagar para que os meus filhos vão à escola.
Levanto-me cedo todas as manhãs, compro um cartão telefónico e falo com eles. Dizem-me que preferem morrer na rua do que voltar à Mauritânia. A minha filha mais velha já está comigo nos EUA. Desejo muito que os meus outros filhos venham ter connosco. Na Mauritânia, nunca tive o direito de tomar decisões em relação aos meus filhos. Aqui é tão diferente.
Na Mauritânia, não me atrevia a ir ter com o governo porque eles não ligavam. As leis não interessam, porque eles não as aplicam. Talvez esteja escrito que não existe escravatura, mas isso não é verdade. Mesmo diante do presidente da Mauritânia, agora posso afirmar em voz alta que existe escravatura na Mauritânia porque já sou tão livre como ele. Quando cheguei aos EUA, tive medo que me mandassem embora. Foi então que conheci o meu advogado, um médico, que me ajudou, e Kevin Bales, da organização Free the Slaves. Conheci também o Programa Bellevue para os Sobreviventes da Tortura. O juiz que julgou o meu pedido de asilo era honesto e cumpriu a sua função. Exigiu provas, mas depois ouviu e prestou atenção.
Um dia, gostaria de ser cidadã dos Estados Unidos e quero que os meus filhos também sejam. Aqui tenho liberdade de expressão. Na Mauritânia, não havia liberdade de expressão. No Senegal, tinha medo de falar abertamente porque era muito próximo da Mauritânia. Então tive de ter cuidado. Tive de ir para muito, muito, muito longe. Aqui, agora, posso falar abertamente.

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Texto de Lyne Warren
Fotografias de Jodi Cobb

Embora custe a acreditar, a escravatura não deixou de existir. Mais incrível ainda é o facto de centenas de milhões de pessoas levarem vidas pouco livres, com um nível de oportunidades pouco superior ao dos escravos. Muitas vezes, os mais pobres sacrificam a sua dignidade, os seus filhos, e até os seus corpos, a um mercado global ávido de LUCRO DESUMANO.

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Este bebé não é um escravo. Porém, como está numa caixa de cartão e cresceu numa barraca de chapa ondulada, a vida deste rapaz da Guatemala começa com escassas probabilidades pela frente. Pode ser roubado ou vendido e depois adoptado ilegalmente, no âmbito de um processo internacional transformado em negócio rendível para alguns advogados guatemaltecos que agem como intermediários. Também pode tornar-se numa das 44% de crianças guatemaltecas que crescem padecendo de subnutrição; ou uma das 80% que vivem em habitações sem lavabos, nem sistemas de recolha de lixo; ou das 40% que chegam à idade adulta sem saber ler ou escrever.
A pobreza que aflige a maioria das famílias da Guatemala é a regra, não a excepção. Três mil milhões de pessoas – quase metade da população mundial – lutam pela sobrevivência com menos de dois euros por dia.
Terríveis provações podem levar os mais pobres a vender os seus bens, os seus corpos ou o dos seus filhos.

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Nos países em desenvolvimento, dezenas de milhares de mulheres transformaram-se em produtos do comércio de sexo. Devido a usos tradicionais das suas comunidades, outras jovens não têm direito a fazer opções elementares, relativamente ao casamento e à gravidez.
Embora os casamentos à força sejam denunciados pela Organização das Nações Unidas como forma de escravatura e quase todos os países tenham estabelecido idades legais mínimas para o casamento, os costumes locais continuam a desafiar a lei. No povoado de Bembe, no Benin, todas as mulheres e crianças comparecem perante o chefe da aldeia (em cima). “São poucas as raparigas da aldeia que chegam aos 18 anos sem se casar”, afirma Hector Gnonlonfin, fundador do Tomorrow Children, um abrigo para crianças exploradas. “Encontrámos uma aluna de 10 anos que já tinha marido.”
Para a família da noiva, o preço a pagar por um noivo mais velho pode representar a diferença entre morrer à fome e sobreviver.

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Para a saúde de uma rapariga, as consequências de um casamento precoce podem ser fatais: segundo a Organização Mundial de Saúde, as raparigas com menos de 15 anos têm cinco vezes mais probabilidades de morrer devido a complicações de gravidez do que mulheres com mais de 20 anos.
Por vezes o sacrifício físico apresenta-se num acto único: estas mulheres de Villivakkam (em cima), na Índia, cuja alcunha é “aldeia dos rins”, trocaram um rim por dinheiro. Com cerca de 20 anos na época em que aceitaram fazê-lo, ansiosas por pagar as sufocantes dívidas familiares, elas foram alvos fáceis para os agentes de transplantes que prometeram cerca de 880 euros por cada órgão. Embora recebessem metade do dinheiro adiantado, não recebera o resto da quantia. A Índia proibiu o comércio de órgãos humanos, mas isso não fez para o tráfico. Para estas mulheres, a dor não cessou: três foram abandonadas pelos maridos, que as consideraram bens danificados. Nas suas palavras, só lhes restam as cicatrizes.

A escola do mundo às avessas

Setembro às 7:12 pm | Publicado em violência | 1 Comentário

Eduardo Galeano
De pernas para o ar – A escola do mundo às avessas
Lisboa, Editorial Caminho, 2002

Excertos

A escola do mundo às avessas

Mensagem aos pais

Hoje em dia, as pessoas já não respeitam nada. Dantes, punham-se num pedestal a virtude, a honra, a verdade e a lei… A corrupção campeia na vida americana dos nossos dias. Onde não se obedece a outra lei, a corrupção é a única lei. A corrupção está a minar este país. A virtude, a honra e a lei esfumaram-se das nossas vidas.

(Declarações de Al Capone ao jornalista Cornelius Vanderbilt Jr.

Entrevista publicada na revista Liberty a 17 de Outubro

de 1931, alguns dias antes de Al Capone ser preso.)

Educando pelo exemplo

A escola do inundo às avessas é a mais democrática das instituições educativas. Não exige exame de admissão, não cobra matrícula e ministra os seus cursos gratuitamente, a todos e em qualquer lugar, assim na terra como no céu: por alguma razão é filha do sistema que conquistou, pela primeira vez em toda a história da Humanidade, o poder universal.

Na escola do mundo às avessas, o chumbo aprende a flutuar e a cortiça a afundar-se. As víboras aprendem a voar e as nuvens aprendem a rastejar pelos caminhos.

Os modelos do êxito

O mundo às avessas premeia às avessas: despreza a honestidade, pune o trabalho, recompensa a falta de escrúpulos e alimenta o canibalismo.

As possibilidades de um banqueiro que esvazia um banco possa desfrutar, em paz, dos frutos do seu trabalho são directamente proporcionais às possibilidades de que um ladrão rouba um banco vá parar à prisão ou ao cemitério.

Quando um delinquente mata por alguma dívida por pagar, a execução chama-se ajuste de contas; chama-se plano de ajustamento a execução de um país endividado, quando a tecnocracia internacional decide liquidá-lo. A malfeitoria financeira sequestra os países e limpa-os se não pagarem o resgate; quando comparados, qualquer bandido se revela mais inofensivo do que Drácula debaixo do sol. A economia mundial é a mais eficiente expressão do crime organizado. Os organismos internacionais que controlam a moeda, o comércio e o crédito praticam o terrorismo contra os países pobres, e contra todos os pobres de todos os países, com uma frieza profissional e uma impunidade que humilham o melhor dos bombistas.

A arte de enganar o próximo, que os vigaristas praticam caçando desprevenidos pelas ruas, chega ao sublime quando alguns políticos de êxito exercitam o seu talento. Nos subúrbios do mundo, os chefes de Estado vendem os restos de colecção e os retalhos dos seus países a preço de liquidação de final de temporada, tal como nos subúrbios das cidades os delinquentes vendem, a preço vil, o produto dos seus assaltos. Os pistoleiros que são contratados para matar realizam, em pequena escala, o mesmo serviço que cumprem, em grande escala, os generais condecorados por crimes que são elevados à categoria de glórias militares. Os assaltantes, à coca nas esquinas, desferem golpes que são a versão artesanal dos golpes de sorte assestados pelos grandes especuladores que espoliam multidões a golpes de computador. Os violadores que mais ferozmente violam a Natureza e os direitos humanos nunca são presos. Têm as chaves das cadeias. No mundo tal como está, o inundo às avessas, os países que custeiam a paz universal são aqueles que mais armas fabricam e os que mais armas vendem aos restantes países; os bancos mais prestigiados são os que mais narcodólares lavam e os que mais dinheiro roubado guardam; as indústrias mais florescentes são as que mais envenenam o planeta; e a salvação do meio ambiente é o mais brilhante negócio das empresas que o aniquilam. São dignos de impunidade e felicitações os que matam mais gente em menos tempo, os que ganham mais dinheiro com menos trabalho e os que destroem a maior quantidade de Natureza com menos custos. Caminhar é um perigo e respirar é uma façanha nas grandes cidades do mundo às avessas. Quem não é prisioneiro da necessidade é prisioneiro do medo: uns não dormem pela ansiedade de ter as coisas que não têm e outros não dormem pelo pânico de perderem as coisas que têm. O mundo às avessas treina-nos para ver o próximo como uma ameaça e não como uma promessa, reduz-nos à solidão e consola-nos com drogas químicas e com amigos cibernéticos. Estamos condenados a morrer de tédio, se uma bala perdida não nos abreviar a existência.

Será esta liberdade, a liberdade de escolher entre estas ameaças de desgraça, a nossa única liberdade possível? O mundo às avessas ensina-nos a padecer a realidade em vez de a mudar, a esquecer o passado em vez de o ouvir e a aceitar o futuro em vez de o imaginar: assim age o crime e assim o recomenda. Na sua escola, a escola do crime, são obrigatórias as aulas de impotência, amnésia e resignação. Mas está visto que não há desgraça sem graça, nem medalha que não tenha reverso, nem tempestade que não traga bonança, nem desânimo que não procure ânimo. Também não há escola que não encontre a sua contra-escola.

A igualização e a desigualdade

A ditadura da sociedade de consumo exerce um totalitarismo simétrico ao da sua irmã gémea, a ditadura da organização desigual do mundo.

A máquina da igualização compulsiva age contra a mais bela energia do género humano, que se reconhece nas suas diferenças e nelas se vincula. O melhor que o mundo tem está nos muitos mundos que o mundo contém, nas diferentes músicas da vida, nas suas dores e cores: as mil e uma maneiras de viver e dizer, crer e criar, comer, trabalhar, dançar, brincar, amar, sofrer e celebrar, que temos vindo a descobrir ao longo de milhares e milhares de anos.

A igualização, que nos uniformiza e nos entontece, não pode ser medida. Não há computador capaz de registar os crimes quotidianos que a indústria da cultura de massas comete contra o arco-íris humano e o humano direito à identidade. Mas os seus progressos demolidores corrompem os olhos. O tempo vai-se esvaziando de História e o espaço já não reconhece a assombrosa diversidade das suas partes. Através dos meios de comunicação de massas, os donos do mundo comunicam-nos a obrigação que todos temos de nos contemplarmos num espelho único, que reflecte os valores da cultura de consumo.

Quem não tem não é: quem não tem carro, quem não usa calçado de marca ou perfumes importados, finge existir. Economia de importação, cultura de impostação: no reino da tolice, todos estamos obrigados a embarcar no cruzeiro do consumo, que sulca as agitadas águas do mercado. A maioria dos nave­gantes está condenada ao naufrágio, mas a dívida externa paga, à conta de todos, os bilhetes dos que podem viajar. Os empréstimos, que permitem atafulhar com novas coisas inúteis a maioria consumidora, agem em favor da boa-pinta das nossas classes médias e da mania de copiar das nossas classes altas; e a televisão encarrega-se de transformar em necessidades reais, aos olhos de todos, as procuras artificiais que o Norte do mundo inventa incessantemente e, com êxito, projecta sobre o Sul. (Norte e Sul, diga-se de passagem, são termos que, neste livro, designam a repartição do bolo mundial e nem sempre coincidem com a Geografia.)

O que acontece com os milhões e milhões de crianças latino-americanas que serão jovens condenados ao desemprego ou a salários de miséria? A publicidade estimula a procura ou, pelo contrário, promove a violência? A televisão oferece o serviço completo: não só ensina a confundir a qualidade de vida com a quantidade de coisas como, além disso, também oferece cursos audiovisuais quotidianos de violência, que os videojogos complementam. Bate antes que te batam a ti, aconselham os mestres electrónicos dos videojogos. Estás só, apenas contas contigo próprio. Carros que voam, gente que rebenta: Tu também podes matar. E, entretanto, crescem as cidades, as cidades latino-americanas são já as maiores do mundo. E com as cidades, ao ritmo do pânico, cresce o crime.

A economia mundial exige mercados de consumo em perpétua expansão, para dar saída à sua produção crescente e para não caírem as suas margens de lucro, mas, por seu turno, exige braços e matérias-primas a preços irrisórios, para baixar os custos de produção. O mesmo sistema que precisa de vender cada vez mais precisa de pagar cada vez menos. Este paradoxo gera outro paradoxo: o Norte do mundo dita ordens de consumo cada vez mais imperiosas, dirigidas ao Sul e ao Leste, para multiplicar os consumidores, mas multiplica, em muito maior medida, os delinquentes. Ao apoderar-se dos fetiches que oferecem existência real às pessoas, cada assaltante quer ter o que a vítima tem, para ser o que a vítima é. Armai-vos uns aos outros: hoje em dia, no manicómio das ruas, qualquer um pode morrer vítima de uma bala: o que nasceu para morrer de fome e também o que nasceu para morrer de indigestão.

Contra a cultura do silêncio

Setembro às 7:01 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, miséria, sofrimento, violência | 1 Comentário
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Além-mar
Junho 2007

Renato Kizito Sesana

Contra a cultura do silêncio

Na zona do Quénia que produz uma boa parte das flores que estão à venda na Europa, o crime sexual tornou-se uma praga. Mas uma mulher decidiu combatê-la. E afirma que será possível erradicá-la se se vencer a cultura do silêncio.

Uma mulher iniciou uma campanha para educar os quenianos sobre a necessidade de denunciar ofensas sexuais. As notícias dos jornais ilustram bem a sua oportunidade: “Um homem desonrou a sua filha menor”; “Menor desonrado por um vizinho”; “Uma menina de oito anos violada por um gangue no caminho da escola.” Estes são alguns dos cabeçalhos sobre Naivasha, uma pequena cidade nas margens do lago do mesmo nome, 100 quilómetros a noroeste de Nairobi, no Quénia, que ganhou notoriedade no passado recente devido à escalada de casos de violação, de atentados ao pudor e de incesto. Mal passa uma semana sem que ocorra um incidente.

Mas os esforços de uma só mulher estão agora a render dividendos. Rahab Wairuru é directora do Grupo de Apoio aos Desfavorecidos de Naivasha (NADISGO na sigla inglesa), que foi criado em 2003. o grupo tem estado envolvido no apoio às vítimas e na sensibilização dos habitantes para a importância de denunciar as ofensas sexuais. “Educamos os habitantes sobre a importância de quebrar o silêncio quando alguém é ofendido”, diz Wairuri. Diz também que o número de ofensas sexuais tem estado a aumentar, que, graças ao NAGADISGO, o número de casos que estão a ser denunciados são mesmo mais elevados do que os que antes eram conhecidos.

Vencer o medo

“Quando o NAGADISGO foi criado, dirigimos então a nossa atenção para o “Children’s Act”, que tinha acabado de ser decretado em 2001, e informámos o público acerca dos seus benefícios”, afirma Wairuri. Foi enquanto o divulgavam que perceberam que mulheres e crianças sofriam em silêncio: “As mães não sabiam o que fazer depois de encontrarem os maridos a desflorar as suas filhas.” As mulheres, acrescenta, tinham receio de denunciar os seus maridos e tentavam conservar os casamentos. Outras achavam a situação demasiado vergonhosa: ao denunciarem os maridos, tornar-se-iam assunto de todas as conversas. Algumas vítimas temiam também denunciar os criminosos, porque sabiam que estes acabariam por ser libertados. “Por ignorância, quando alguém era detido, levado a tribunal e lhe era concedida caução, era absolvido da acusação. E as vítimas mantinham-se em silêncio para não serem atacadas outra vez pelo mesmo indivíduo.”

Não ajudava nada que, depois, alguns dos criminosos se fossem vangloriar da sua liberdade, o que fazia que outras vítimas se assustassem e optassem pelo silêncio. “Compreendi então que as pessoas do grupo de apoio precisavam de fazer as vítimas ultrapassar o medo que sentiam quando eram alvo de abusos sexuais.”

Prevenir a sida

Em 2004, o NADISGO mudou de estratégia e começou a informar as mulheres sobre questões como a violação ou o atentado ao pudor. Wairuri e as suas colegas começaram a divulgar numa escola o que a lei diz acerca de ofensas sexuais e as respectivas penas, a alertar para a importância de denunciar esses casos. Foram também as barazas (reuniões comunitárias, na língua suaíli) organizadas por chefes, e logo as pessoas começaram a aparecer. As pessoas também não sabiam como era importante procurar ajuda nas 72 horas após a violação. “Se uma vítima é violada ou molestada, pode iniciar o tratamento que ajudará a impedir que contraia o HIV/sida. Mas essa janela de esperança fecha-se no espaço de três dias”, explica.

De igual modo, as pessoas desconheciam o procedimento a seguir para denunciar os autores dos abusos. O ministério da Educação deu uma ajuda, permitindo aos membros do Grupo de Apoio falar com os alunos sobre os crimes sexuais e o que fazer se fossem vítimas de abusos. As pessoas aprenderam a ultrapassar o silêncio e começaram logo a procurar a ajuda da polícia. O NADISGO também se dedicou à tarefa de ajudar as vítimas a denunciar os abusos à polícia e levá-las ao hospital para exames e tratamentos. “Também seguimos os casos quando são levados a tribunal, e por vezes ajudamos as vítimas a irem a tribunal, pois a maioria desconhece os procedimentos legais”, diz.

Wairuri diz que, só no ano passado, 180 atentados ao pudor, 90 violações e 16 casos de sodomia foram denunciados nos escritórios da NADISGO. Está contente por ter ajudado a quebrar a política do silêncio. As pessoas estão agora informadas e, em algumas áreas, as comunidades já estão a ajudar as vítimas a procurar apoio. “Se uma família se mantém em silêncio num caso de incesto, há que procurar vizinhos que intervenham e denunciem o caso à polícia. Mesmo nas escolas, os alunos estão conscientes das ofensas sexuais e denunciam-nas, quer sejam elas as vítimas ou os seus amigos”, afirma ela.

Condições inumanas

As pessoas falam agora abertamente sobre ofensas sexuais e isto ajudou a diluir o estigma que inicialmente lhes estava associado. “As meninas aprenderam a denunciar pais ou irmãos”, diz uma mulher de 38 anos, mãe de duas filhas.

Mas esta luta não tem estado isenta de oposição. Wairuri recorda um incidente que ocorreu no ano passado, quando um polícia local e representantes provinciais da administração se aproximaram de um grupo e lhe pediram para terem cuidado nas suas campanhas, porque estavam a afugentar os investidores. Naivasha é o principal centro de floricultura no Quénia e o político não estava contente coma publicidade negativa que a cidade começava a ter. “Disse-lhes que não pararíamos. A luta contra a violação e os abusos é mais importante do que os negócios”, diz ela.

Wairuri acredita que esta guerra pode ser ganha no Quénia se a cultura do silêncio for vencida. “Se as pessoas deixarem de ficar caladas quando são violadas ou vítimas de qualquer outra forma de abuso sexual, podemos ganhar”, assegura.

Wairuri é uma mulher rechonchuda com um sorriso fácil, o oposto do estereótipo da feminista furiosa. Acredita na bondade natural dos seres humanos, e que tais crimes são alimentados pelas condições de vida inumanas das pessoas que trabalham nas estufas de floricultura. “Esta é uma caminhada de mil milhas e tem de começar com um passo. Com a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e com uma consciência tanto da sua dignidade como da dos seus filhos. Num futuro próximo, o crime sexual desaparecerá por completo e as mulheres e as raparigas viverão sem medo.”

A nova escravatura II – Tailândia: Corpos descartáveis

Setembro às 10:48 pm | Publicado em cativeiro, denúncia, escravatura, exploração, violência | Deixe um comentário

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)

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Corpos descartáveis

As raparigas são tão baratas que há pouca razão para cuidar delas a longo prazo. Os gastos em cuidados médicos ou em prevenção são raros nos bordéis, dado que a vida trabalho das raparigas escravizadas, por dívida, é bastante curta — entre dois e cinco anos. Depois disso, a maior parte do lucro já foi extraído da rapariga e é mais proveitoso, do ponto de vista dos custos, descartar-se dela e substituí-la por outra fresca. Nenhum bordel quer aceitar a responsabilidade por uma rapariga doente ou moribunda.
As prostitutas escravizadas nos bordéis enfrentam duas grandes ameaças à sua saúde física e às suas vidas: a violência e a doença. A violência — a sua escravização imposta pela violação, os espancamentos ou ameaças — está sempre presente. Essa é a introdução típica ao seu novo estatuto como escravas sexuais. Praticamente todas as raparigas entrevistadas repetiam a mesma história: depois de serem levadas para o bordel ou ao primeiro cliente como virgens, qualquer resistência ou recusa provocava espancamentos e violação. Algumas raparigas dizem terem sido drogadas e depois atacadas; outras dizem terem sido submetidas sob ameaça de arma. A aplicação imediata e vigorosa do terror é o primeiro passo na escravização triunfante. Horas depois de terem sido trazidas para o bordel, as raparigas estão a sofrer e em estado de choque. Como outras vítimas da tortura, elas ficam muitas vezes entorpecidas, paralisadas nos espíritos, se não nos corpos. Para as raparigas mais novas, com pouca compreensão daqui­lo que lhes está a acontecer, o trauma é arrasador. Quebradas e traídas, em muitos casos têm pouca memória daquilo que lhes aconteceu.
Depois do primeiro ataque, a rapariga fica com pouca resistência, mas a violência não acaba. No bordel, a violência e o terror são os árbitros finais de todas as questões. Não há argumento nem apelo. Um cliente infeliz traz um espancamento, um cliente sádico traz mais dor; para intimidá-las e defraudá-las mais facilmente, o proxeneta faz cair o terror a esmo sobre as prostitutas. As raparigas devem fazer tudo o que ele quer para evitar espancamentos. Fugir é impossível. Uma rapariga contou que quando foi apanhada a tentar fugir, o proxeneta espancou-a e depois levou-a para a sala; com dois ajudantes, espancou-a outra vez diante de todas as raparigas do bordel. Depois disso, ela foi encerrada num quarto durante três dias e três noites sem comida nem água. Quando a soltaram puseram-na imediatamente a trabalhar. Duas outras que tentaram fugir disseram terem sido desnudadas e chicoteadas com cabos de aço pelos proxenetas. Os polícias servem de caçadores de escravos sempre que uma rapariga foge; depois de capturadas, as raparigas são muitas vezes espancadas ou violadas na esquadra da polícia antes de serem devolvidas ao bordel. Para a maioria das raparigas, depressa se torna evidente que nunca conseguirão fugir, que a sua única esperança de libertação é agradarem ao proxeneta e de algum modo liquidarem a sua dívida.
Com o tempo, a confusão e a descrença diluem-se, deixando o pavor, a resignação e um corte da ligação entre a mente e o corpo. Agora a rapariga faz tudo o que seja preciso para reduzir o sofrimento, para se ajustar mentalmente a uma vida que significa ser usada por quinze homens por dia. A reacção a esse abuso assume muitas formas: letargia, agressão, auto-aversão e tentativas de suicídio, confusão, auto-flagelação, depressão, psicoses e alucinações. As raparigas que foram libertadas e colocadas sob protecção sofrem de tudo isso. Os funcionários da recuperação indicam que as raparigas sofrem de instabilidade emocional; são incapazes de confiar ou criar amizades, de se reajustarem ao mundo fora do bordel, ou de aprender e desenvolver-se normalmente. Infelizmente, o aconselhamento psicológico é virtualmente desconhecido na Tailândia, e há uma forte pressão cultural para manter ocultos quaisquer problemas mentais, e pouco trabalho terapêutico se faz com as raparigas libertas dos bordéis. Não se conhece o impacte a longo prazo desta experiência.
É possível traçar um quadro mais nítido das doenças físicas que as raparigas acumulam. Há muitas doenças de transmissão sexual, e as prostitutas contraem a maior parte dessas doenças. As infecções múltiplas reduzem o sistema imunitário e tornam mais fácil a instalação das infecções. Se a doença afecta a sua capacidade para praticar sexo, pode ser tratada, mas as doenças crónicas sérias são muitas vezes deixadas sem tratamento. A contracepção também prejudica muitas vezes as raparigas. Alguns escravocratas administram eles próprios pílulas contraceptivas, continuando sem qualquer interrupção e recusando as pílulas placebo mensais. Assim, as raparigas deixam de ter menstruação e trabalham mais noites por mês. Algumas raparigas recebem três ou quatro pílulas contraceptivas por dia; outras recebem injecções de Depo-Provera, dadas pelo proxeneta ou pelo caixa. A mesma agulha pode ser usada para injectá-las a todas, passando o HIV de uma rapariga para as outras. A maior parte das raparigas que engravidam são mandadas abortar. O aborto é ilegal na Tailândia, por isso será uma operação clandestina, com todos os riscos óbvios. Algumas mulheres são deixadas a trabalhar quando estão grávidas, e alguns homens tailandeses gostam de ter sexo com uma mulher grávida. Quando a criança nasce, pode ser tirada e vendida pelo dono do bordel e a mulher voltar ao trabalho.
O HIV/SIDA é epidémico entre as prostitutas escravizadas, o que não surpreende. A Tailândia tem hoje a mais elevada taxa de infecções com HIV em todo o mundo.

A nova escravatura II – Tailândia: uma rapariga vale um televisor

Setembro às 10:44 pm | Publicado em ambição, cativeiro, corrupção, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, violência | 2 comentários

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)

Anterior: Porque ela parece uma criança

Uma rapariga vale um televisor

O boom económico dos últimos vinte anos (que falhou em 1997) teve um impacte dramático nas aldeias do Norte. Enquanto o centro do país, em volta de Banguecoque, se industrializou rapidamente, o norte foi deixado para trás. Os preços da alimentação, da terra, dos instrumentos, tudo subiu à medida que a economia crescia, mas a remuneração pelo cultivo do arroz e outras actividades agrícolas estagnaram, mantendo-se baixos pelas políticas do governo que garantiam alimentação barata para os operários de Banguecoque. É visível por toda a parte no Norte uma onda da bens de consumo — frigoríficos, televisores, automóveis e camiões, fogões, aparelhos de ar condicionado —, todos extremamente tentadores. A procura desses bens é grande, porque as famílias querem juntar-se às fileiras dos prósperos. Acontece que o custo de participar nesse boom consumista pode alcançar-se através de uma velha fonte, uma que já se tornou muito mais lucrativa: a venda dos filhos.
No passado, as filhas eram vendidas para responder a uma séria crise financeira da família. Sob a ameaça de perderem os seus campos de arroz hipotecados e para fazer face ao desamparo, uma família podia vender uma filha para redimir a sua dívida, mas a maior parte das filhas valiam mais ou menos tanto em casa como trabalhadoras, como renderiam quando vendidas. A modernização e o crescimento económico alteraram tudo isso. Hoje os pais sentem uma grande pressão para comprar bens de consumo que eram desconhecidos ainda há vinte anos; a venda de uma filha pode facilmente financiar a compra de um novo televisor. Um estudo recente nas províncias do Norte descobriu que, das famílias que venderam as suas filhas, dois terços podiam não o ter feito, mas «preferiram comprar televisores a cores e equipamento vídeo». E da perspectiva dos pais que desejam vender os filhos, nunca houve melhor mercado.
A procura de prostitutas pelos bordéis cresce rapidamente. O mesmo boom económico que alimenta a procura do consumo guarnece os bolsos dos agricultores e operários da planície central. Os migrantes pobres dos campos de arroz trabalham agora na construção ou em novas fábricas, ganhando muito mais do que ganhavam na terra. Talvez pela primeira vez nas suas vidas, esses lavradores podem fazer aquilo que os homens tai mais abastados sempre fizeram: ir a um bordel. O poder de compra desse crescente número de utilizadores dos bordéis reforça a procura de raparigas do Norte e sustenta um crescente negócio de proxenetismo e tráfico de raparigas.
A história de Siri era típica. Uma intermediária, ela própria mulher de uma aldeia do Norte, abordava as famílias na aldeia de Siri com garantias de trabalho bem pago para as suas filhas. Os pais de Siri provavelmente compreenderam que o trabalho seria como prostituta — pois sabiam que outras raparigas da aldeia tinham ido para bordéis no sul. Após algumas negociações receberam 50 000 baht (2000 dólares) por Siri, soma muito importante para esta família de cultivadores de arroz. Esta troca iniciou o processo de servidão por dívida usado para escravizar as raparigas. O acordo contratual entre a intermediária e os pais exige que esse dinheiro seja reembolsado pelo trabalho da filha antes que ela fique livre para partir ou lhe seja permitido enviar dinheiro para casa. Por vezes o dinheiro é considerado como um empréstimo aos pais, sendo a rapariga simultaneamente a garantia e o meio de reembolso. Em alguns casos, o juro exorbitante cobrado pelo empréstimo significa que há poucas hipóteses de que a escravidão sexual de uma rapariga consiga alguma vez pagar a dívida.
A dívida de 50 000 baht de Siri aumentou rapidamente. Levada para o sul pela intermediária, Siri foi vendida por 100 000 baht ao bordel onde agora trabalha. Depois da violação e do espancamento, Siri foi informada de que a dívida que tinha de pagar, agora ao bordel, era de 200 000 baht. Além disso, Siri ficou a saber de outros pagamentos que tinha de fazer, incluindo a renda do quarto a 30 000 baht por mês, bem como os gastos em comida e bebidas, taxas para medicamentos e multas se não trabalhasse o suficiente ou desagradasse a um cliente.
A dívida total é virtualmente impossível de pagar, mesmo à elevada taxa de 400 baht de Siri. Cerca de 100 baht de cada cliente deviam ser creditados a Siri para reduzir a sua dívida e pagar a renda e outras despesas; 200 vão para o proxeneta e os restantes 100 para o bordel. Por estes cálculos, dever praticar sexo com 300 homens por mês só para pagar a renda, e aquilo que sobra depois das outras despesas mal dá para reduzir a sua dívida inicial. Para as raparigas que só podem cobrar entre 100 e 200 baht por cliente, a dívida cresce ainda mais depressa. Esta servidão por dívida mantém as raparigas sob o completo controlo durante tanto tempo quanto o bordel e o proxeneta acham que vale a pena tê-las. A violência reforça o controlo, e qualquer resistência vale um espancamento e um aumento da dívida. Com o tempo, se a rapariga se torna uma boa e colaborante prostituta, o proxeneta pode dizer-lhe que pagou a sua dívida e autorizá-la a enviar pequenas somas para casa. Esta «remissão» da dívida não tem em geral nada a ver uma real contagem das receitas, mas é declarada à discrição do proxeneta, como forma de aumentar os lucros a obter, tornando a rapariga mais dócil. Juntamente com as raras visitas a casa, o dinheiro enviado à família serve para mantê-la no seu trabalho.
Segundo a minha própria estimativa moderada, há talvez umas 35 000 raparigas como Siri escravizadas na Tailândia. E este número é apenas uma pequena proporção de todas as prostitutas. O número real de prostitutas, embora desconhecido, é certamente muito mais elevado. O governo afirma que há 81 384 prostitutas na Tailândia — mas este número oficial é calculado a partir do número de bordéis (embora ainda ilegais), salões de massagens e estabelecimentos sexuais registados. Nenhum dos bordéis, bares ou salões de massagens que visitámos na Tailândia estava registado, e ninguém que trabalhe com prostitutas acredita nos números do governo. No outro extremo do espectro estão as estimativas apresentadas pelas organizações de activistas como o Centro para Protecção dos Direitos das Crianças. Esses grupos afirmam que existem no país mais de dois milhões de prostitutas. Suspeito de que este número é demasiado elevado numa população de 60 milhões. O meu próprio cálculo, baseado em informação recolhida pelos activistas da SIDA em diferentes cidades, é que existem entre meio milhão e um milhão de prostitutas.
Para a maioria dos homens tailandeses, o sexo comercial é uma forma legítima de entretenimento e de alívio sexual. Não é apenas aceitável: é uma clara afirmação de estatuto e de poder económico. As mulheres na Tailândia são coisas, instrumentos num jogo masculino de estatuto e de prestígio. Não é pois de surpreender que algumas mulheres sejam tratadas como gado — raptadas, vítimas de abusos, mantidas como animais, compradas e vendidas, e largadas quando deixam de ser úteis. Quando este tratamento habitual se combina com a inexorável busca do lucro da nova economia, o resultado é horrível para as mulheres. É preciso encontrar mais uns milhares para alimentar as necessidades de estatuto dos homens, mais uns milhares devem ser presas na escravatura sexual para alimentar os lucros dos investidores. E que estão a fazer a polícia, o governo, e as autoridades locais quanto à escravatura? Cada caso de escravatura sexual envolve muitos crimes — fraude, rapto, assalto, violação, por vezes assassínio. Esses crimes não são raros nem ocasionais; são sistemáticos e repetidos nos bordéis centenas de vezes por mês. Mas aqueles que detêm o poder para acabar com esse horror ajudam-no, pelo contrário, a crescer cada vez mais no muito lucrativo mundo do escravocrata moderno.

Segue: Corpos descartáveis

Escravatura Global II

Setembro às 10:12 pm | Publicado em denúncia, escravatura, exploração, miséria, violência | Deixe um comentário
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Além-Mar
Abril, 2003
 Anterior: Escravatura global

Gente barata

Os cálculos da Anti-Slavery International falam por si: por volta de 1850, nas plantações do Sul dos actuais EUA, um escravo custava em média o equivalente a 40 mil euros; hoje, em contrapartida, a sua cotação no mercado mundial ronda os 90 euros. O embaratecimento tem um efeito perverso: «Os escravos já não são um grande investimento, que valha a pena cuidar e manter. Se adoecem, deixam de ser úteis, ficam estropiados ou dão demasiado trabalho ao escravocrata, este limita-se a descartar-se deles ou a matá-los.»
Explica esta organização de defesa de direitos humanos (a mais antiga do mundo, precisamente porque foi criada para pugnar pela abolição da antiga escravatura): “Em 1850, os escravos do Alabama rendiam aos seus senhores cerca de 5 por cento ao ano, en¬quanto nos dias de hoje as margens de lucro do trabalho escravo chegam a atingir os 800 por cento (…). Quando a menina tailandesa forçada a prostituir-se contrai HIV, é abandonada à sua sorte; o brasileiro acorrentado à produção de carvão em fornos gigantescos e em condições desumanas é recambiado, mal a floresta que os alimenta é arrasada; o menino indiano que passa os seus dias a enrolar cigarros é devolvido à família se deixa de poder cumprir a sua “missão”, e depressa outro vem ocupar o seu lugar; em Londres, um trabalhador doméstico escravizado foi abandonado na rua porque a família para quem trabalhava se mudou para outro país (…). Os escravos modernos são descartáveis como canetas ou copos de plástico: usa-se e deita-se fora.”
Segundo a organização, o tráfico de pessoas não conhece fronteiras e ultrapassa a barreira dos continentes, de tal modo que se tornou uma das actividades preferidas dos cartéis internacionais do crime organizado: “O lucro do comércio da desgraça humana só é ultrapassado pelo do tráfico de drogas e de armas. Segundo a Administração norte-americana, todos os anos são “contrabandeadas” para os EUA 50 mil pessoas. O seu destino: prostituição não remunerada, serviço doméstico ou actividades que exploram o estatuto precário dos imigrantes clandestinos.”
Portugal não escapa ao fenómeno. Ainda há dias, um especialista da Polícia Judiciária considerava o tráfico de pessoas o crime da década em que vivemos. Também entre nós há os imigrantes que caem nas malhas das máfias, e sobretudo mulheres, africanas, brasileiras, macaenses ou dos países de Leste, forçadas a prostituírem-se. Segundo Inês Fontinha, directora de O Ninho – a associação católica que há anos luta por restituir a dignidade às prostitutas – só por Lisboa passarão milhares de potenciais “escravas sexuais”. São tantas, que o “preço de compra” pode descer até aos 50 contos.
Os lucros dos “donos” e dos “comerciantes” são incalculáveis. De acordo com a Interpol, uma destas mulheres forçadas a prostituir-se tem entre 15 a 30 clientes por dia e, da receita diária, deverá entregar ao proxeneta entre 457 e 914 euros, isto se não quiser ser maltratada. O “mercado” português não é o único alvo: o País tor¬nou-se uma plataforma no acesso ao “mercado comunitário”.

Um bom investimento

Há escravos em Lisboa, Londres, Paris ou Nova Iorque. Ou seja, um pouco por todo o mundo. Mas esta forma extrema de exploração é particularmente aguda, generalizada e gritante no Sueste da Ásia, no subcontinente indiano, em África e nos países árabes. As razões são mais ou menos evidentes: para além da explosão demográfica e da persistência de formas tradicionais de escravatura, a rápida mudança social e económica registada nos países em desenvolvimento.
Argumenta Kevin Bales: “As sociedades tradicionais, embora sendo por vezes opressivas, assentavam geralmente em laços de responsabilidade e de afinidade que podiam ajudar as pessoas a enfrentar uma crise, como a morte do ganha-pão, uma doença grave ou uma má colheita. A modernização e a globalização da economia mundial quebrou essas famílias tradicionais e a pequena agricultura de subsistência que as mantinha. A mudança forçada da agricultura de subsistência para a agricultura comercial, a perda das terras comunitárias e as políticas governamentais que suprimem as receitas agrícolas a favor da comida barata para as cidades, tudo ajudou a arruinar milhões de camponeses e a expulsá-los das suas terras – por vezes para a escravidão.”
Por obra e graça da globalização, mesmo os que pensam que não têm nada a ver com este comércio abjecto acabam por, indirectamente, colher-lhe os frutos. E não só através dos preços baixíssimos dos produtos que nos chegam das regiões em que se recorre à mão-de-obra escrava.

Uma nova epidemia

A escravatura é uma realidade difusa, escondida, difícil de captar. Mas, mesmo assim, Kevin Bales consegue estimar o lucro total anual gerado pelos 27 milhões de escravos – um número que o próprio considera ser uma aproximação, mas «modesta» – existentes à escala mundial: cerca de 13 mil milhões de euros, a verba que a Holanda gasta em turismo ou “substancialmente menos que a fortuna pessoal do fundador da Microsoft, Bill Gates.”
Parece uma verba pequena, mas trata-se apenas do valor directo, porque o valor indirecto do trabalho escravo na economia mundial é muito maior: “Por exemplo, o carvão produzido pelo trabalho escravo é fundamental para produzir aço no Brasil. Muito desse aço é depois transformado em automóveis, peças de automóveis, e outros artigos de metal que constituem um quarto das exportações do Brasil. Só a Grã-Bretanha importa anualmente 1,6 mil milhões de dólares em artigos do Brasil; os Estados Unidos significativamente mais. A escravidão faz baixar os custos de produção da fábrica; essas poupanças podem ser transmitidas em sentido ascendente na corrente económica, atingindo finalmente as lojas da Europa e da América do Norte como preços mais baixos ou lucros mais altos para os retalhistas (…). Temos de encarar os factos: ao procurar sempre o melhor negócio, podemos estar a escolher bens produzidos por escravos sem saber o que estamos a comprar. Os trabalhadores que produzem peças de computadores ou de televisores na Índia podem ser pagos com salários baixos, em parte porque os alimentos produzidos por trabalho escravo são tão baratos. Isto faz baixar o custo dos artigos que eles produzem, e as fábricas que não conseguem competir com os seus preços encerram as portas na América do Norte e na Europa. O trabalho escravo em qualquer parte ameaça o emprego real em toda a parte.”
À laia de conclusão, o especialista alerta: “A nova escravatura é como uma nova doença para a qual não existe vacina. E esta doença está a espalhar-se.”

A guerra contra as crianças VI

Setembro às 9:42 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, miséria, sofrimento, violência | 1 Comentário
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Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

Anterior: Refugiados e deslocados

A criança treinada para matar


O auge deste circo de horrores é precisamente atingido pelo recrutamento de crianças-soldado. Quantos “soldados” de seis, oito e doze anos existirão por esse mundo fora? A última estimativa credível remonta ao ano de 1988. Nessa altura, atingia já o número pungente de duzentos milhares de crianças. Mas isto foi antes dos conflitos do Ruanda, do Burundi, da Libéria, da Serra Leoa, antes da explosão do conflito na Jugoslávia, antes ou mesmo durante a guerra entre o Irão e o Iraque, mas em todo o caso, antes de serem tornadas públicas as atrocidades que tiveram lugar neste último conflito.
Esta estimativa encontra-se assim claramente desactualizada, e neste momento é impossível proceder a um novo estudo. Mas todos os que se deslocaram recentemente aos campos de batalha, principalmente em África, são testemunhas da notória juventude de alguns “combatentes”. Tivemos oportunidade de ver com os nossos próprios olhos grupos de “soldados”, no Ruanda, em que os mais velhos nem sequer doze anos tinham. No Camboja, as facções que ainda hoje continuam a assassinar-se pelo poder mantiveram certos hábitos do tempo de Pol Pot e continuam a recrutar soldados pré-adolescentes.
A história recente põe à nossa disposição um leque enorme de exemplos desta tendência, sendo que o mais abjecto de todos será o de obrigar crianças com apenas dez anos a matar e a torturar, às vezes os próprios pais, fazendo-lhes literalmente uma lavagem ao cérebro. Foi o que aconteceu ou ainda acontece em Moçambique, no Uganda, na Libéria e na Serra Leoa. No Afeganistão, na Nicarágua e em El Salvador, foram raptadas dezenas de milhares de crianças para irem engrossar as fileiras dos guerrilheiros e para as obrigar a cometer atrocidades a que os próprios soldados adultos às vezes se recusavam.
Por vezes, para chegar a este ponto, a violência ou a coacção não são suficientes. É necessário um doutrinamento, uma fanatização cuidadosamente organizados. Esta foi a política adoptada pelo Irão durante a guerra com o Iraque. Por deliberação dos dirigentes, não se podiam perder muitos homens válidos nos campos de minas. Para desminar, as crianças serviam muito bem. Então, explicava-se-lhes no meio de reuniões “religiosas” que elas iriam servir o seu país, e mais tarde, alcançar directamente o paraíso. Para tal, foram instruídos actores encarregados de lhes mostrarem o caminho e que, a dado momento, davam o sinal de partida. E foi assim que vimos milhares de crianças precipitando-se sobre campos de minas, levando ao pescoço chaves de plástico, as chaves do paraíso, e gritando antes da mina explodir a seus pés: “Allah Akbar!” Pensa-se que cerca de cinquenta mil crianças iranianas terão morrido assim em nome de Deus. Menos sorte tiveram as sobreviventes, enclausuradas durante anos nas prisões iraquianas, mortificadas por terem sobrevivido, aterrorizadas com a ideia de voltar ao seu país, envergonhadas por ainda estarem vivas.
Mas em certas ocasiões, o recurso à religião não basta. É nesse caso que intervém uma técnica que consiste em fazer com que a criança cometa repetidamente atrocidades, de preferência sobre a sua própria família. Este método foi abundantemente utilizado em Moçambique pela Renamo, guerrilha nessa altura financiada pela África do Sul, e mais recentemente pelas facções em conflito na Libéria e na Serra Leoa. Os “meninos-lobos”, como eram apelidados em Moçambique, eram obrigados a matar, a matar os parentes, de maneira a destruírem quaisquer laços afectivos que os ligassem à sua família, ficando assim completamente dependentes da guerrilha que os tinha raptado. Obrigadas a assassinar os pais, os camponeses e as pessoas mais próximas, as crianças tornar-se-iam dóceis; qualquer tentativa de voltar atrás seria impedida. A dado momento, a Renamo dispunha de pelo menos dez mil dessas crianças-soldado, as mais jovens das quais mal tinham completado os seis anos de idade. Em Angola, de acordo com um inquérito levado a cabo em 1995 , 36% do total de crianças do país tinham “acompanhado” ou ajudado os soldados.
Mas há situações que requerem algo mais, além da religião, do doutrinamento e da coacção. E é aqui que surge a droga. “Davam-nos marijuana e comprimidos” – conta-nos uma criança liberiana “desmobilizada” – “Quando se toma essas coisas, não se sente mais nada, não se pensa em mais nada que não seja matar.”
Porque razão alguns exércitos e algumas guerrilhas se interessam tanto pelas crianças- soldado que, a priori, se poderiam considerar inexperientes e pouco eficazes? Antes de mais há que ter em conta a escassez de soldados adultos – há alturas em que os exércitos precisam de mais mãos para trabalhar e, por isso vão-se buscar crianças para integrarem contingentes suplementares, como no caso da decisão tomada pelo exército nazi em 1944, de incorporar soldados de dezasseis anos.
Mas isto não é tudo. Segundo o raciocínio dos recrutadores, uma criança é infinitamente mais maleável, mais facilmente manipulável e condicionável do que um adulto; é menos propensa à revolta e mais sensível aos métodos de terror infligidos.
Não exige soldo nem qualquer gratificação especial, a não ser a sensação de pertencer a um grupo de recrutas, a um grupo onde seja reconhecida. Neste raciocínio entra também a ideia de que uma criança pode não se aperceber do que lhe estão realmente a pedir; de que a fronteira entre o bem e o mal ainda é indistinta para ela. Tendo em conta tudo isto, porque não aproveitar um recurso tão valioso, que abunda em excesso nos campos de refugiados, nos orfanatos, nas cidades e nas escolas?
Raptam-se então os rapazes, tal como pudemos assistir muito recentemente em vários cenários de conflitos armados, mas também se raptam meninas, situação que está a decorrer neste preciso momento a Norte do Uganda. O destino dessas meninas é o “casamento” com um soldado, a sujeição a relações sexuais, e a fazer tudo o que é necessário a um exército em movimento: cozinhar, limpar, etc. Várias centenas destas meninas ugandesas, raptadas pelo “Exército de Resistência do Senhor”, foram libertadas recentemente e estão actualmente em fase de tratamento. Mas existirá alguma forma de as resgatar verdadeiramente da guerra? Qual será a ajuda que lhes poderemos oferecer quando aquilo por que elas passaram está muito além da nossa imaginação? Também elas foram obrigadas a cometer atrocidades, a beber sangue humano, a sujeitarem-se a todos os delírios dos soldados. Quando isto acontece a uma criança de oito, nove anos de idade, o que fazer para que ela se reconcilie de novo com a vida?
Para algumas destas crianças, o condicionamento e a solidão são de tal maneira extremos que o exército se torna, paradoxalmente, no seu único refúgio, no único lugar com que se conseguem identificar, uma espécie de substituto da família que perderam. Em Maio de 1993, o governo da Serra Leoa ordenou a desmobilização de todos os soldados com menos de quinze anos. A “desmobilização” foi, no entanto, mais problemática do que se previa inicialmente. É absolutamente indispensável um trabalho de equipa que as consiga dissociar da nova “família” que pensavam ter encontrado, sem que se sintam órfãs uma segunda vez.
O progresso tecnológico do armamento militar também faz com que o recrutamento de crianças-soldado se vá tornando cada vez mais fácil, dada a proliferação de armas leves ou de pequeno calibre. Antigamente, as armas eram demasiadamente grandes ou pesadas para elas. Hoje em dia a história é outra. Uma espingarda de assalto de origem soviética AK 47 ou uma M 16 norte-americana são ao mesmo tempo leves, fáceis de montar e desmontar e bastante acessíveis. O “preço corrente” de uma AK 47, por exemplo, é neste momento inferior a dez dólares em África e existem M 16 disponíveis em todo o lado.
Com efeito, os responsáveis por este alistamento maciço de crianças na guerra andam de mãos dadas com aqueles que compram as armas e as colocam à disposição de todos, e aqueles que as vendem. Todos lucram com isso. Lucros militares por um lado, lucros comerciais por outro. O negócio das minas continua de vento em popa, não obstante os esforços meritórios de todos aqueles que lutam para que elas sejam completamente banidas. No entanto, o mercado dos armamentos tradicionais vai proliferando a uma escala bem maior. De resto, os números falam por si, ao revelar que os orçamentos militares de todo o mundo, em francos ou em dólares constantes, se multiplicaram por quinze a partir de 1945, tendo atingido em 1993 os valores alucinantes de 790 biliões de dólares (destes, 121 biliões foram gastos pelo Terceiro Mundo). É verdade que esta quantia revela uma ligeira diminuição em relação ao pico histórico atingido em 1987, o que significa que pelo menos neste aspecto, o desmoronamento do Império Soviético teve a sua utilidade. Mas os números continuam a ser impressionantes, sobretudo se os compararmos com os orçamentos destinados em todo o mundo às áreas da educação e da saúde e os que se referem à totalidade dos serviços destinados às crianças, em que as quantias envolvidas são cerca de cem vezes inferiores.
No entanto, não apontemos o dedo acusador aos progressos tecnológicos nem aos interesses económicos. O culpado é ainda, e sempre, o mais profundo desprezo em relação à criança. Recrutar crianças, manipulá-las, obrigá-las a matar ou a torturar, são ideias que à partida não decorrem de estratégias financeiras, embora os traficantes de armas acabem por beneficiar largamente desta situação. Elas são uma opção deliberada de estrategas em ponto pequeno que arrancam as crianças das escolas e forçam a guerra a entrar nas suas vidas e para sempre. Essa escolha é uma escolha racional, deliberada, calculada. O mundo saturado de imagens e de horrores em que vivemos ainda não conseguiu avaliar bem a amplitude dessa abjecção. De que é que estará à espera?

A guerra contra as crianças V

Setembro às 9:35 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, miséria, sofrimento, violência | Deixe um comentário
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 Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

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Refugiados e “deslocados”


Outra consequência inevitável da guerra é a imensidão das deslocações de população e dos agrupamentos de refugiados, nos quais as crianças acabam por ser as primeiras vítimas da escassez de provisões e dos êxodos precipitados impostos pelas peripécias político-militares, como pudemos observar a partir de 1994 na região Oriental da República Democrática do Congo.
Hoje em dia existem por todo o mundo vinte e oito milhões de “refugiados” – aqueles que atravessaram uma fronteira – e de “deslocados”, que são aqueles que permaneceram no seu país. Distinção teórica que pouca diferença faz na vida dos interessados. Do ponto de vista do Direito, só os refugiados podem reivindicar uma protecção jurídica especial, porque se viram forçados a abandonar o seu país, enquanto que os “deslocados” são, na realidade, refugiados no seu próprio país. Na prática, esta distinção não faz muito sentido – os “deslocados” do Sudão, que fugiram de uma guerra devastadora no sul do país, estão numa situação a todos os títulos comparável à dos seus compatriotas refugiados nos países vizinhos. Quanto à protecção jurídica de que os refugiados deveriam beneficiar, esta de nada valeu aos ruandeses massacrados desde o início de 1997 na região noroeste da República Democrática do Congo. Massacrados pelas armas e pela fome.
Quer se trate de “refugiados” quer de “deslocados”, mais de três quartos e, por vezes, mesmo nove décimos de entre eles, são compostos por mulheres e crianças. Imensas concentrações desumanas onde a vida gravita em torno da distribuição de víveres, e onde as crianças deambulam sem objectivo, de um acampamento para outro; campos enormes onde reinam a insegurança, a promiscuidade e a violência; onde circulam armas, onde os mais jovens se deixam levar pelos agentes recrutadores, onde os adolescentes são agredidos. Centenas de milhares de crianças nascem e sobrevivem nesses campos sem escolarização – em todo o mundo, apenas têm acesso à escola menos de 15% das crianças destes campos. Por outro lado, muitas destas crianças são privadas da sua nacionalidade, logo, de um sentimento de identidade nacional que provavelmente permanecerá ausente durante toda a vida. A idade permanecerá em muitos casos uma incógnita nas suas vidas e, para aqueles que se perderam dos pais, o próprio nome também. Podemos citar como exemplo o caso dos trezentos e cinquenta mil refugiados cambojanos imobilizados na fronteira khmero-tailandesa, com a Tailândia e o Camboja a “atirarem a batata quente” de um lado para o outro, a primeira negando-lhes a nacionalidade tailandesa e o segundo recusando-lhes a nacionalidade khmer, porque eles tinham fugido do país na altura sob a mão de ferro dos Khmers Vermelhos. Como sobreviver no mundo actual sem identidade, sem nacionalidade e sem saber a idade nem o próprio nome?
Para além disso, as condições de vida nos campos são cada vez mais precárias. Nos últimos quinze anos, o número de refugiados e deslocados tem vindo a dilatar-se desmesuradamente em consequência dos conflitos mais recentes – as guerras na América Central, no Afeganistão, em Moçambique, no Ruanda, etc., mas os recursos que a comunidade internacional põe à sua disposição não sofreram praticamente qualquer alteração. Muito pelo contrário, as rações alimentares foram diminuindo ao longo dos anos e a malnutrição existente nos campos tem aumentado. Aumenta ainda mais quando estes campos servem de base a soldados perdidos que não mostram qualquer escrúpulo em se servirem primeiro dos produtos alimentares, para eventualmente os revenderem e comprarem armas. Verifica-se, assim, que a malnutrição nunca foi tão grave nem tão frequente nesses campos como o é agora. Segundo a Unicef, a incidência da emaciação, ou emagrecimento muito acentuado, atinge nas crianças a tremenda percentagem de 40% em Angola, na Libéria e no Sudão.
Ninguém duvida que viver nesses campos deve ser semelhante a viver um autêntico pesadelo, mas este é um pesadelo que pode vir a durar quinze ou mais anos, como vimos no caso dos três milhões de refugiados afegãos fixados no Irão e no Paquistão, dos eritreus instalados no Sudão, dos moçambicanos no Malávi, dos cambojanos na Tailândia, etc. Em casos como estes, em que se tornarão as crianças? Adolescentes para quem o regresso ao país natal aparece como uma ideia abstracta, um país que eles nem sequer conhecem, ao mesmo tempo que vêem impedida a sua integração no país de “acolhimento”. Presas fáceis dos agentes de recrutamento e dos proxenetas que infestam os campos de refugiados.

 Segue: A criança treinada para matar

A guerra contra as crianças IV

Setembro às 9:20 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, sofrimento, violência | Deixe um comentário
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Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

Anterior:Abatidas, refugiadas no silêncio

O efeito perverso dos embargos

Porém, podem surgir outros obstáculos no caminho deste penoso regresso à normalidade, desta vez sob a forma de obstáculos políticos. Quando um país, já de si vítima de uma guerra ou de conflitos civis violentos tem, como se não bastasse, “atitudes politicamente incorrectas”, pode abater-se sobre ele, mais precisamente sobre a população civil e sobretudo sobre as crianças, uma nova forma de calamidade – as sanções económicas. Assim, para “punir” Saddam Hussein por ter tentado anexar o Kuwait, o Conselho de Segurança das Nações Unidas decidiu proibi-lo de exportar o seu petróleo para o mercado mundial, ou, por outras palavras, decidiu asfixiá-lo financeiramente. Para estrangular o sistema, foi proibido ao Iraque não só exportar a sua única produção, mas também importar aquilo de que necessitava para alimentar, tratar e educar a sua população. A interdição afectava produtos como a farinha, o azeite, os medicamentos e as vacinas, assim como cadernos, borrachas e lápis.
Os resultados não foram imediatamente visíveis, porque o Iraque não era um país pobre e dispunha de algumas reservas. O seu sistema de saúde, de distribuição de alimentos e de educação figurava mesmo entre os mais desenvolvidos do Médio Oriente. Mas os efeitos do embargo acabaram por aparecer com toda a clareza. Embora os benefícios políticos obtidos pela comunidade internacional ainda não estejam completamente demonstrados, o impacto das sanções sobre a população civil não podia ser mais claro. A taxa de mortalidade de crianças com menos de cinco anos duplicou no país desde o fim da guerra do Golfo e é actualmente superior à de países como o Brasil, o Peru ou o Egipto. Calcula-se que tenham já morrido quinhentas mil crianças em consequência do embargo. A malnutrição generalizou-se e os sistemas de abastecimento de medicamentos e de água potável desmoronaram-se. O sistema escolar teve idêntica sorte – as crianças que continuam a ir à escola sentam-se no chão e trabalham com materiais obsoletos que não podem ser substituídos. A taxa de abandono escolar subiu em flecha, sobretudo no que se refere às meninas entre os dez e os doze anos, que são obrigadas a procurar trabalho para completar os rendimentos da família no fim do mês. O abrandamento do embargo, acordado desde o início de 1997, irá permitir ao Iraque regressar à sua situação anterior? Dificilmente o fará, já que os efeitos de uma tal derrocada irão certamente persistir durante muito tempo.
Os efeitos do embargo foram semelhantes no Haiti, podendo, no entanto, ser mais graves tendo em conta o nível de pobreza inicial do país. Aí, as sanções económicas foram aplicadas durante três anos, depois do golpe de estado militar de 1991. Entre essa data e o final de 1993, a taxa de malnutrição que se verificou entre crianças com menos de cinco anos examinadas nas instituições de apoio da ilha subiu de 27% para mais de 50%. O impacto das sanções foi desastroso para o conjunto dos já escassos sistemas de saúde e educação em todo o país.
O último exemplo é o do Burundi, um país à mercê de intensas tensões políticas, de um genocídio encapotado e cujos vizinhos decidiram que precisava de ser “punido”. Punido porquê? Pelo facto de possuir um chefe de Estado auto proclamado, como se toda a região circundante não padecesse também de um défice democrático generalizado. As consequências não se fizeram esperar – as tensões internas ficaram ao rubro, começaram a suceder-se massacres atrás de massacres e as organizações humanitárias estão a deparar-se com imensos obstáculos na sua tarefa de ajudar a população.
Todas estas sanções, cujo impacto na vida dos civis pudemos observar também na Sérvia, parecem repetir-se falhando sistematicamente o alvo – impotentes para atingir o corpo político visado, geralmente um chefe de Estado muito pouco preocupado com o bem-estar da população civil, elas castigam, na realidade, sobretudo aqueles cujo poder político é praticamente inexistente – as crianças. Sistema absurdo este, cujo impacto no futuro dos países “sancionados” está ainda longe de se conseguir determinar, e em que o tirano, virtuosamente denunciado, acaba por não ser atingido. Se por sancionar, se subentende na realidade eliminar o chefe de Estado incriminado, então a solução não passará certamente por aí e deveriam ser levantadas algumas restrições, deixando passar, por exemplo, bens de primeira necessidade indispensáveis para as crianças. Nunca ninguém tentou iniciar uma acção capaz de penalizar realmente os políticos responsáveis pelos infortúnios daqueles que são governados. O que podemos observar, pelo contrário, são os antigos ditadores a gozar as suas reformas tranquilas e principescas, graças ao dinheiro que conseguiram roubar ao seu povo, uns na Côte d’Azur, como Baby Doc do Haiti, e outros em residências rurais no Zimbabué, como o sanguinário coronel Mengistu. Os exemplos vão-se acumulando. Quanto àqueles que ainda estão no poder, é do conhecimento geral que não estão propriamente nas ruas da amargura, seja em Bagdade, em Belgrado ou em qualquer outra parte do mundo.

( N.T. -O conteúdo global desta obra, e nomeadamente este excerto, deve ser lido atendendo ao facto de a sua edição original datar do ano de 1997.)

Segue: Refugiados e “deslocados”

A guerra contra as crianças III

Setembro às 9:16 pm | Publicado em denúncia, exploração, miséria, sofrimento, violência | 2 comentários
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 Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

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Abatidas, refugiadas no silêncio

Mas a história não acaba aqui. A guerra não afecta só o bem-estar das crianças por intermédio de bombas, granadas e minas. Ela mata muito mais eficazmente quando interrompe todos os circuitos da produção agrícola, quando bloqueia todas as redes de comunicação e quando impede o fornecimento de géneros alimentares ou de medicamentos. A guerra destrói os sistemas de alimentares ou inunda-os de feridos, impede a medicina preventiva, as campanhas de vacinação e favorece o aparecimento de surtos de epidemias, da fome e da pilhagem da ajuda externa.
Na Somália, estima-se que a guerra tenha feito desaparecer entre metade e três quartos das crianças com menos de cinco anos. Mas só um pequeno número terá sido vítima dos efeitos directos dos combates, dos tiros da artilharia e dos bombardeamentos. Quase todas morreram de fome e da completa e total desorganização da vida económica e social em que o país se encontra.
O mesmo esquema repete-se um pouco por todo o lado. Na Etiópia, durante a grande fome dos anos 1984-1985, a esmagadora maioria das vítimas sucumbiu mais rapidamente à malnutrição e às epidemias do que à guerra propriamente dita. No Camboja, durante o regime dos Khmers Vermelhos, não foram as execuções sumárias, a tortura ou os massacres que provocaram o maior número de mortos (se bem que ainda não se saiba a que escala foram praticados), mas a deportação maciça, os trabalhos forçados e a malnutrição.
A desorganização da vida económica nem sempre é um subproduto espontâneo da guerra. De facto, raramente o é. Muito frequentemente, resulta de uma deliberada política de terra queimada, levada a cabo pelas facções em conflito que destroem pontes, estradas e vias ferroviárias e regam a napalm ou a produtos tóxicos o território inimigo. Ou então, como foi o caso do Camboja, assiste-se a uma tentativa demente de “reorganização” do país, com base em teorias perfeitamente disparatadas.
A guerra destrói, então, tudo o que as crianças necessitam para viver e para se desenvolverem. Ela priva-as, em primeiro lugar, dos próprios pais, umas vezes fisicamente em consequência dos combates e massacres, e outras por causa do caos geral que instaura. Foi assim que no fim do Verão de 1994, mais de cento e dez mil crianças ruandesas foram recolhidas pelas organizações humanitárias, não só porque um grande número de adultos tinha desaparecido devido aos assassinatos ou à cólera, mas também porque, no pânico da fuga para a fronteira Este com a República Democrática do Congo, muitas crianças se perderam, afastando-se inexoravelmente das familias.
O que acontecerá a estas crianças que, depois de terem assistido a massacres, se vêem sós, paradoxalmente sós no meio de milhares de outras, nessas enormes instituições, nesses orfanatos onde, apesar de uma imensa boa-vontade se torna praticamente impossível realizar qualquer tratamento individual ou recriar laços reais, esses laços sem os quais uma criança é incapaz de se projectar no futuro? As sequelas psicológicas das guerras “modernas” são muitas vezes tão graves quanto as sequelas físicas com as quais as crianças têm de viver. Algumas saltam imediatamente à vista – crianças abatidas, refugiadas no silêncio, por vezes até incapazes de chorar, ou de contar o que sofreram; crianças violentas, agressivas, ou, pelo contrário, apáticas, passivas. Crianças desapossadas de si próprias, desprovidas dos seus objectos de afeição, de identificação. Crianças que se mutilam, que se culpam por estarem vivas quando tantas outras estão mortas. Outras vezes, as feridas psicológicas não são aparentes e a criança parece relativamente insensível face ao que lhe aconteceu. Mas essas feridas irão irromper mais tarde, na adolescência ou na idade adulta, quando a “cicatrização” já se tiver tornado irremediavelmente impossível.
Uma das melhores curas e uma das únicas formas de se conseguir ajudar estas crianças a regressar à vida passa pela reactivação das escolas. Mas as escolas também sofreram as consequências da guerra, e quase nunca por acaso. É desta forma que em Moçambique, quando a guerra chegou ao fim em 1993, dois terços das crianças já não tinham qualquer acesso ao ensino primário. No Camboja, os Khmers Vermelhos eliminaram, arrasaram, toda e qualquer forma de sistema escolar, símbolo de uma cultura maldita. Na Etiópia e na Somália, com as escolas destruídas e os professores enviados para a frente de batalha, já nada resta do antigo sistema de educação, já de si deficitário, nas províncias do norte e do este. Quanto às crianças ruandesas refugiadas na República Democrática do Congo, não tiveram qualquer acompanhamento escolar durante três anos.
No entanto, sabemos que uma das primeiras medidas a ser levada a cabo no fim dos conflitos não passa apenas por retirar as crianças das imensas instituições onde foram colocadas de urgência para as devolver aos familiares, mesmo afastados, ou a famílias de acolhimento; tampouco se limita a oferecer-lhes alimentação e cuidados adequados. Consiste também em recriar condições para uma escolarização, mesmo que rudimentar, para que elas possam reaver ao menos um vislumbre de uma vida de criança; para que lhes sejam restituídos os objectos de investimento que a guerra lhes roubou por completo. Tem-se tentado pôr em prática diversas estratégias, embora ainda não seja possível avaliar o seu impacto: psicoterapias de grupo, terapias através do jogo e do teatro, cerimónias de luto colectivas, rituais tradicionais. Todas estas estratégias, por mais necessárias que sejam, podem parecer insignificantes face aos dramas insondáveis que estas crianças viveram. Sem a reconstituição de autênticos laços interpessoais, sem a libertação da palavra que exteriorize os dramas inscritos na memória, corre-se o enorme risco de o trauma se instalar, talvez para sempre. E por vezes também, o risco do aparecimento da violência como único meio possível de expressão. Violência que é dirigida aos outros, mas também a si própria.

 

Segue: O efeito perverso dos embargos 

A guerra contra as crianças II

Setembro às 9:14 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, violência | 1 Comentário
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Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

Anterior: A guerra contra as crianças

A “criança-alvo”


Que significa esta evolução? Que as crianças não são protegidas em parte alguma como o deveriam ser, enquanto membros mais frágeis de uma sociedade. A expressão “Mulheres e crianças primeiro!”, utilizada na ocorrência de naufrágios, já não é levada a sério. No entanto, ela fazia todo o sentido, um sentido muito preciso – em caso de fatalidade, não se trata apenas de proteger os mais fracos, trata-se também de garantir o futuro.
Actualmente, muito pelo contrário, os conflitos fazem das mulheres e mais ainda das crianças, os seus alvos privilegiados. Assassinar crianças, feri-las ou violentá-las é aplicar um duro golpe no grupo humano que se pretende exterminar ou subjugar. Foi assim que se pôde ouvir a Radio Mille Collines inundar o Ruanda com este slogan em 1994 – “Para eliminar os ratos maiores, temos de matar os mais pequenos.” Ou seja, as crianças tutsis. E foi assim que mulheres grávidas foram esventradas para eliminar futuros tutsis e adolescentes violadas aos milhares para que ficassem marcadas com um ferro impossível de apagar. Uma atitude idêntica esteve sempre bem presente durante todo o conflito jugoslavo. Quando os atiradores furtivos visavam sem erro as crianças, nos passeios das ruas de Sarajevo, estavam a seguir obviamente a mesma lógica. Quando as granadas, cuidadosamente dirigidas, se abatiam sobre uma padaria ou sobre o mercado central da capital bósnia, também aqui, e mais uma vez, se seguia a mesma linha desta nova “estratégia”.
As crianças são cada vez mais assassinadas, feridas e massacradas nestas guerras “modernas” que se multiplicaram desde 1945 e cuja amplitude não pára de crescer perante os nossos olhos. Da América Central ao Camboja, do Líbano à República Democrática do Congo, surgem conflitos em todos os pontos do planeta que se abatem sobre as crianças, incluindo as mais jovens, como se todo o cuidado em protegê-las não só fosse aniquilado, apesar de todos os esforços dos partidários do Direito Humanitário Internacional, mas mesmo literalmente subvertido.
A evolução do armamento enquadra-se perfeitamente nesta óptica. Os aperfeiçoamentos técnicos não tornaram só os bombardeamentos (nucleares, químicos ou convencionais) muito mais eficazes. Tornaram igualmente a indústria das minas perfeitamente adaptada a esta nova concepção da guerra. É indispensável transformar o território do inimigo num campo de minas. Desta forma, será aplicado um rude golpe na moral dos civis e na sua capacidade de sobreviver ao conflito, de uma forma extremamente eficaz.
E é assim que hoje em dia, um certo número de países, que aliás se encontram entre os mais pobres do mundo, foram transformados efectivamente em imensos campos de minas – o Afeganistão, o Camboja e Angola são os países mais minados do mundo; segundo os peritos, o Afeganistão, por si só, tem enterradas no seu solo entre dez e quinze milhões de minas. O Camboja conta com oito milhões, ou seja, uma mina por habitante, e é o país que actualmente possui o maior número de mutilados do mundo. Mas o continente africano não lhe fica nada atrás, com um sem-número de campos de batalha, de Angola a Moçambique e do Ruanda à Somália. No total, em todo o mundo, encontram-se cerca de cento e dez milhões de minas espalhadas no solo de sessenta e quatro países. Não só “no solo”, aliás, porque graças aos progressos científicos, existem também minas aquáticas, adaptadas aos arrozais, por exemplo, e minas para as árvores. Há também a mina “saltitante”, concebida para explodir a um metro do solo, para melhor incapacitar ou assassinar, a mina “borboleta”, com o aspecto de um brinquedo colorido, a mina camuflada dentro de bonecas… a imaginação dos fabricantes não tem limites.
Ora estas minas, que destroem literalmente a vida civil de comunidades inteiras, são particularmente perigosas para as crianças. As crianças constituem, por si só, metade das seiscentas mil vítimas de minas (assassinadas ou mutiladas) nos últimos vinte anos. Os riscos que elas correm são ainda mais graves do que os que ameaçam um adulto. O corpo de uma criança, mais pequeno, não protege tão bem os órgãos vitais como o de um adulto e a sua resistência face à perda de sangue é menor. O ponto de impacto da explosão acontecerá a uma distância menor dos órgãos vitais, da face, dos olhos, e em consequência, muitas ficarão cegas. As crianças também são um alvo fácil porque têm tendência para explorar os: espaços desconhecidos para procurar (levadas pela curiosidade natural infantil) novas brincadeiras e construir brinquedos com os explosivos que encontram. As minas borboleta, tão tentadoras para os petizes, já assassinaram milhares de crianças no Afeganistão.
Por fim, quem é que vai buscar a lenha, a água, guardar o rebanho, atravessar os campos para chegar à escola, senão as próprias crianças? Depois da deflagração da mina e da descoberta da criança inanimada (quando é descoberta) é necessário amputá-la ou, no melhor dos casos, colocar-lhe uma prótese. Mas uma prótese – quando existe – é muito cara no Camboja, no Afeganistão ou em Angola. Dá-se então prioridade aos adultos porque estes são mais rentáveis para a sociedade. Por outro lado, uma criança está a crescer e irá precisar de duas, três, ou quatro próteses. É demasiado caro. Demasiado complicado. Muitas vezes, o que se seguirá será a rejeição da criança amputada e inválida pelo grupo social, sobretudo se a mutilação for vista como uma condenação divina, uma maldição sobrenatural, como acontece no Camboja.

 

Segue: Abatidas, refugiadas no silêncio

Escravatura Global – Manuel Giraldes

Setembro às 7:53 pm | Publicado em denúncia, escravatura, exploração | 2 comentários

Além-Mar
Abril, 2003

Há 145 anos, uma lei anunciava a abolição da escravatura em todo o Império português. Em 1948, a Carta Internacional dos Direitos do Homem consagrava a escravidão como um atentado à dignidade da pessoa humana. Em 2003, calcula-se que, um pouco por todo o mundo, 27 milhões de escravos contribuem com a sua desgraça para a opulência da economia global. Infelizmente, às vezes parece que o tempo anda para trás.
É comum pensar-se, com um arrepio de indignação e alívio, que a escravatura é um bárbaro crime contra a humanidade arrumado algures nos poeirentos arquivos do passado. Navios cheios de negros acorrentados? Ah, até vi num filme histórico do Spielberg. Homens, mulheres e crianças a trabalharem nos campos, de sol a sol, sob a mira das armas? Ufa! É certamente coisa de romance antigo, tipo “A Cabana do Pai Tomás”. Infelizmente, não é assim. Mudaram os transportes, as grilhetas, os tipos de coacção, mas a escravatura é um fenómeno dos nossos dias. Que não só tende a aumentar como a adquirir formas – se é possível cometer o anacronismo de comparar épocas e estilos de vida tão díspares – cada vez mais graves.
Calcula-se que, neste preciso momento, um pouco por todo o mundo, 27 milhões de pessoas se encontrem acorrentadas a tão desumana sorte. As correntes que as prendem não são de ferro, mas podem ser até mais fortes e mais penosas. Porque, dantes, o escravo era um «bem» caro e raro, e por isso mesmo merecedor de certos cuidados. Mas, nos tempos que correm, a própria lei da oferta e da procura se encarregou de embaratecer e de desvalorizar o “produto”: com a explosão demográfica, o aumento da pobreza e da exclusão social geradas pelo sempre crescente alargamento do fosso que separa ricos e pobres, o torrencial fluxo de imigrantes que se sujeitam a tudo para tentarem encontrar na metade abastada do mundo um modo qualquer de subsistência, “matéria-prima” não falta. E se o escravo moderno enfraquece ou adoece, deita-se fora e arranja-se outro. Que as prateleiras dos armazéns globais estão cheias de gente desesperada.
Nos escaparates, como sempre, pode escolher-se entre homens, mulheres e crianças. Estas são particularmente apreciadas, porque são mais dóceis, comem e protestam menos, dormem em qualquer canto e, como é necessário menos força para obrigá-las a trabalhar, dão menos dores de cabeça a capatazes e vigilantes. Meninos escravos propriamente ditos haverá no mundo cerca de 8 milhões. Não muito longe desta condição, encontram-se os 111 milhões de menores de 15 anos que executam tarefas impróprias, perigosas ou demasiado árduas para a idade.

A moral do lucro

Mas não. Não se confunda. Quando se diz: “O miúdo trabalha que nem um escravo”, não quer dizer que o seja. Para sê-lo, realmente, é preciso que exista – na definição do especialista Kevin Bales – “o controlo total de uma pessoa sobre outra, com fins de exploração económica”. Dantes, tal controlo passava pela compra ou pela posse. Hoje, não só não é preciso, como até é “anti-económico”.
Explica Bales, um professor da Universidade inglesa do Surrey, que correu o mundo a estudar a escravatura moderna: “Hoje, quando as pessoas compram escravos, não pedem um recibo nem títulos de propriedade, mas adquirem o controlo – e usam a violência para manter esse controlo. Os escravocratas têm todos os benefícios da propriedade sem as responsabilidades legais. Na verdade, para os escravocratas, não ter a posse legal é uma melhoria, porque obtêm o controlo total sem qualquer responsabilidade por aquilo que possuem (…). A escravidão é uma obscenidade. Não se trata apenas de roubar o trabalho de alguém; trata-se do roubo de toda uma vida. Está mais estreitamente relacionada com o campo de concentração do que com questões de más condições de trabalho.”
Em Gente Descartável. A Nova Escravatura na Economia Mundial (de Kevin Bales – Editorial Caminho, Nosso Mundo, Lisboa, 2001), o especialista estabelece bem a diferença entre as trágicas imagens que nos foram legadas pelo passado e a talvez ainda mais trágica realidade actual: “Na nova escravidão, a raça tem pouco significado. No passado, as diferenças étnicas e raciais eram usadas para explicar e desculpar a escravatura. Essas diferenças permitiam aos escravocratas inventar razões que tornavam a escravatura aceitável, ou até uma boa coisa para os escravos. A diferença dos escravos tornava mais fácil usar a violência e a crueldade necessárias para o controlo total. Essa diferença podia ser definida quase de um modo qualquer – diferente religião, tribo, cor de pele, língua, costumes ou classe económica (…). Hoje, a moralidade do dinheiro supera todas as outras considerações. A maioria dos escravocratas não sente a necessidade de explicar ou defender o método de recrutamento ou de gestão do trabalho que escolheram. A escravatura é um negócio muito lucrativo, e um bom lucro é justificação bastante.”

Segue: Gente barata

A guerra contra as crianças – Claire Brisset

Setembro às 7:51 pm | Publicado em ambição, cativeiro, corrupção, denúncia, exploração, sofrimento, violência | Deixe um comentário
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Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados


É difícil estabelecer o quadro de honra da violência contra as crianças, visto esta poder assumir um sem-número de formas. Difícil, mas não impossível. À cabeça desta lista encontra-se, sem qualquer margem para dúvidas, a guerra – a guerra contra as crianças.
Em 1989, o mundo inteiro foi tomado por um devaneio, uma ilusão generalizada. Um sistema desabava no Leste da Europa e consigo toda uma ideologia centenária. Na altura pensava-se que a competição político-belicista que acompanhou passo a passo esse desmoronamento se iria desvanecer quase instantaneamente. Todas as guerras e conflitos exportados para todo o mundo por esse confronto em que se digladiavam valores contraditórios iriam finalmente apaziguar-se. Especialmente para aqueles que tinham vivido o período imediatamente anterior à Segunda Guerra Mundial, esta ilusão evocava a célebre frase de Chamberlain quando, ao regressar da Alemanha, bradava, à saída do avião, agitando uma folha de papel com o texto dos acordos de Munique: “Trago-vos a paz para o nosso tempo.” As consequências dessa miragem não se fizeram esperar.
Fim da ilusão. O desmantelamento do Império Soviético não só não deu início a nenhum período de paz, como os conflitos não pararam de se intensificar desde então, tanto a sul como a norte do planeta: Conflitos internacionais e sobretudo conflitos civis, sendo estes tão mortíferos como os primeiros. O envolvimento de civis nestas guerras, e entre eles, de crianças, não pára de crescer.
Os números falam por si. Desde 1945, cento e cinquenta conflitos mancharam de sangue o planeta e, há actualmente oitenta países à mercê da violência e da guerra. Quer sejam guerras de pequena dimensão, quer conflitos de enorme amplitude, pouca é a diferença para a população civil, no seio da qual as vítimas se contam aos milhões. De facto, nos últimos dez anos, as guerras mataram mais de dois milhões de crianças. Feriram ou incapacitaram, muitas vezes definitivamente, mais de cinco milhões e traumatizaram psicologicamente perto de doze milhões. O número de órfãos, de crianças separadas da família, arrancadas ao seu lar e à sua terra, é ainda maior. Por último, e derradeira consequência desta violência, as forças armadas recrutam hoje em dia crianças-soldados na ordem das centenas de milhar, as mais jovens das quais terão apenas seis anos de idade.
Mas, dir-se-á, o envolvimento de crianças em conflitos armados não é nenhuma novidade. Nas guerras de outros tempos, perde-se a conta do número de cidades incendiadas ou de civis exilados. Basta recordar que a Cruzada das Crianças, em 1212, lançou para as ruas de toda a Europa cerca de 30 000 crianças mobilizadas para a libertação da Terra Santa. E que Condé ou Turenne, com pouco mais de quinze anos, já comandavam regimentos inteiros de crianças. Frederico o Grande e, posteriormente, Napoleão, tampouco hesitavam em recrutar soldados muito jovens. Por fim, Hitler, a meio da Segunda Guerra Mundial, mandou recrutar para o exército alemão batalhões inteiros de adolescentes.
Tudo isto é certo, está provado e constitui um facto histórico. Por outro lado, a palavra “infantaria”, já nos diz tudo. In-fans, aquele que não fala, é a criança de tenra idade. A expressão acabou por designar a tropa, a tropa terrestre, “a rainha das batalhas”, como dizia Napoleão. Mas esses exércitos dos tempos passados também inventaram a farda militar, cuja única função consistia em distinguir os civis dos militares. E ao longo dos séculos, fomos começando a acreditar num progresso da consciência moral: pouco a pouco, as sociedades estavam a começar a aprender a proteger os civis nos conflitos, em particular as crianças. Em pleno campo de batalha da guerra da Crimeia, Henry Dunant concebeu o que viria a ser a Cruz Vermelha Internacional, um conjunto de fundamentos segundo os quais os civis devem ser poupados e os feridos tratados, independentemente da facção a que pertencem, algo que viria a contribuir para “humanizar” as guerras. Henri Dunant chegou mesmo a receber o Prémio Nobel da Paz por este feito.
“Humanizar” a guerra, poupar os civis… O que se verificou foi exactamente o contrário. Os conflitos do século XX, qual deles o pior, foram um espelho disso. A Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil de Espanha e sobretudo a Segunda Guerra Mundial fizeram com que as crianças entrassem em massa nos conflitos como actores, mas principalmente como vítimas, vítimas da violência cega dos campos de concentração e dos bombardeamentos que se abatem indiscriminadamente sobre as populações civis. E quem paga hoje em dia o preço desta evolução são as crianças, um preço cujo impacto é difícil de calcular.
Depois da Guerra Civil de Espanha e sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, foram-se aperfeiçoando as técnicas para atingir não só as forças de combate, mas também as suas bases na retaguarda, a sua economia e as suas infra-estruturas, mas também os seus suportes psicológicos e afectivos, ou seja, acima de tudo, as mulheres e crianças. Quando o exército alemão bombardeou Guernica e, mais tarde, Coventry, quando os Aliados arrasaram Dresden e os americanos largaram a primeira bomba atómica sobre Hiroshima, a ideia era obviamente aplicar um golpe fatal não tanto às forças de combate, mas à população em geral. Tanto pior, ou mesmo tanto melhor, se entre os alvos atingidos figurasse a mesma quantidade de objectivos civis do que a de pontos estratégicos militares. Graças às armas modernas e aos bombardeamentos aéreos, a guerra entrou numa nova era. Que se cruzou, na mesma altura, com a concepção industrial da limpeza étnica – foi devido a técnicas avançadíssimas que se pôde aspirar à extinção total de grupos humanos considerados indesejáveis, como os judeus ou os ciganos, não fazendo qualquer distinção entre homens, mulheres e crianças. Todos nós assistimos, pelo desenrolar dos acontecimentos, ao sucesso florescente desta concepção da guerra.

Segue: A “criança-alvo”

A nova escravatura I – Kevin Bales

Setembro às 7:44 pm | Publicado em ambição, cativeiro, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, violência | 2 comentários

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)

A nova escravatura

No Verão, os campos franceses vivem à altura da sua reputação. Se nos sentamos na rua de uma pequena aldeia a uma centena de quilómetros de Paris, a brisa traz-nos o aroma de maçãs do pomar ao lado. Vim aqui para conhecer Seba, (os foram mudados) uma escrava recentemente liberta. É uma jovem de vinte e dois anos, bonita e animada, mas enquanto me conta a sua história retrai-se em si mesma, fumando furiosamente, tremendo, e depois vêm as lágrimas.

Fui criada pela minha avó no Mali, e quando em ainda menina uma mulher que a minha família conhecia chegou e perguntou-lhe se podia levar-me para Paris para cuidar dos filhos dela. Ela disse à minha avó que me punha na escola e que eu aprenderia francês. Mas quando cheguei a Paris não fui mandada para a escola, tive que trabalhar todos os dias. Fazia todo o trabalho na casa deles; fazia as limpezas, cozinhava as refeições, cuidava das crianças, e lavava e alimentava o bebé. Todos os dias começava antes da 7 horas da manhã e acabava às 11 da noite; nunca tive um dia de folga. A minha patroa não fazia nada; dormia até tarde e depois via televisão ou saía.
Um dia eu disse-lhe que queria ir à escola. Respondeu que não me tinha trazido para França para ir à escola mas para cuidar dos filhos dela. Eu estava cansada e esgotada. Tinha problemas com os dentes; por vezes a cara inchava-me e a dor era horrível. Por vezes tinha dores de estômago, mas quando estava doente tinha que trabalhar na mesma. Às vezes, quando tinha dores, chorava, mas a minha patroa gritava comigo.
Eu dormia no chão num dos quartos das crianças; a minha comida eram os restos deles. Não podia tirar comida do frigorífico como as crianças. Se eu tirasse comida, ela batia-me. Balia-me muitas vezes. Estava sempre a dar-me bofetadas. Batia-me com a vassoura, com os instrumentos de cozinha, ou chicoteava-me com cabos eléctricos. Às vezes eu sangrava; ainda tenho marcas no corpo.
Uma vez, em 1992, atrasei-me a ir buscar as crianças à escola; a minha patroa e o marido ficaram furiosos comigo e bateram-me e depois empurraram-me para a rua. Eu não tinha para onde ir; não compreendia nada, e andei pelas ruas. Ao fim de algum tempo o marido encontrou-me e levou-me outra vez para casa deles. Ali despiram-me toda, ataram-me as mãos atrás das costas, e começaram a chicotear-me com um arame amarrado a um pau de vassoura. Batiam-me os dois ao mesmo tempo. Eu sangrava muito e gritava, mas eles continuavam a bater-me. Depois ela esfregou malaguetas nas minhas feridas e enfiou-mas na vagina. Perdi os sentidos.
Algum tempo depois, uma das crianças desatou-me. Fiquei deitada no chão, onde me deixaram vários dias. As dores eram horríveis mas ninguém tratou as minhas feridas. Quando me consegui levantar tive que trabalhar outra vez, mas depois disso fiquei sempre fechada em casa. Eles continuaram a bater-me.

Seba foi finalmente libertada quando um vizinho, depois de ouvir os sons dos insultos e espancamentos, conseguiu falar com ela. Vendo-lhe as cicatrizes e as feridas, o vizinho chamou a polícia e o Comité Francês contra a Escravatura Moderna (CCEM), que abriram um processo e tomaram Seba a seu cuidado. Os exames médicos confirmaram que ela tinha sido torturada.
Hoje Seba está bem tratada, vive com uma família de acolhimento. Está a receber assistência e a aprender a ler e a escrever. A recuperação demorará anos, mas ela é uma jovem notavelmente forte. O que me impressionou foi a distância que Seba ainda tem que percorrer. Enquanto falávamos, compreendi que, embora ela tivesse vinte e dois anos e fosse inteligente, a sua compreensão do mundo era menos desenvolvida que a média das crianças de cinco anos. Por exemplo, até ser libertada tinha pouca noção do tempo — sem conhecimento das semanas, meses ou anos. Para Seba havia apenas a interminável roda do trabalho e do sono. Sabia que havia dias quentes e dias frios, mas nunca aprendeu que as estações seguem um padrão. Se alguma vez soube o dia do seu aniversário tinha-o esquecido, e não sabia a sua idade. Fica desorientada com a ideia de «escolha». A sua família de acolhimento tenta ajudá-la a fazer opções, mas ela ainda não consegue entender isso.
Se o caso de Seba fosse único, seria bastante chocante; mas Seba é uma de entre talvez 3000 escravos domésticos em Paris. Essa escravatura não existe também só em Paris. Em Londres, Nova Iorque, Zurique, Los Angeles, e pelo mundo fora, as crianças são brutalizadas como escravos domésticos. E são apenas um pequeno grupo dos escravos do mundo.
A escravatura não é um horror definitivamente arrumado no passado; ela continua a existir em todo o mundo, mesmo em países desenvolvidos como a França e os Estados Unidos. Por todo o mundo os escravos trabalham e suam e constroem e sofrem. Os escravos no Paquistão podem ter fabricado os sapatos que nós calçamos e o tapete que pisamos. Os escravos das Caraíbas podem ter posto o açúcar na nossa cozinha e os brinquedos nas mãos dos nossos filhos. Na Índia, eles podem ter cosido a camisa que vestimos e polido o anel do nosso dedo. E não lhes pagam nada.
Os escravos tocam também indirectamente as nossas vidas. Eles fizeram os tijolos para a fábrica que produziu o aparelho de TV que nós vemos. No Brasil, os escravos produziram o carvão que temperou o aço que fez as molas do nosso carro e a lâmina do cortador de relva. Os escravos cultivaram o arroz que alimentou as mulheres que teceram o belo pano que você usa nos cortinados. A sua carteira de investimentos e o seu fundo mútuo de pensões possuem títulos de empresas que utilizam trabalho escravo no mundo em vias de desenvolvimento. Os escravos mantêm baixos os seus custos e altos os lucros dos seus investimentos.
A escravatura é um negócio em ascensão e o número de escravos está a crescer. Há pessoas que enriquecem usando escravos. E quando já não precisam dos seus escravos, limitam-se a pôr essas pessoas de parte. Esta é a nova escravatura, que se centra nos grandes lucros e nas vidas baratas. Não se trata de possuir pessoas no sentido tradicional da antiga escravatura, mas de controlá-las completamente. As pessoas tornam-se instrumentos completamente descartáveis para fazer dinheiro.
Mais de dez vezes ao acordar de manhã cedo descobri o corpo de uma jovem flutuando na água ao pé da lancha. Ninguém se preocupava em enterrar as raparigas. Lançavam simplesmente os corpos ao rio para serem comidos pelos peixes.

Este era o destino das jovens escravizadas como prostitutas nas cidades mineiras da Amazónia, explicou Antónia Pinto, que ali trabalhou como cozinheira e alcoviteira. Ao mesmo tempo, o mundo desenvolvido deplora a destruição das florestas tropicais, poucas pessoas compreendem que o trabalho escravo é utilizado para as destruir. Os homens são atraídos para a região com promessas de riqueza em pó de ouro, e raparigas de apenas onze anos recebem ofertas de emprego nos escritórios e restaurantes que servem as minas. Quando chegam às longínquas regiões mineiras, os homens são aprisionados e forçados a trabalhar nas minas; as raparigas são espancadas, violadas, e postas a trabalhar como prostitutas. Os seus «agentes de recrutamento» recebem uma pequena soma por cada uma delas, talvez uns 150 dólares. As «recrutas» tornaram-se escravas — não através da posse legal, mas através da autoridade decisiva da violência. A polícia local actua como reforço para controlar os escravos. Como uma jovem explicava: «Aqui os donos de bordéis mandam a polícia bater-nos… se fugimos, eles perseguem-nos, se nos acham matam-nos, ou se não nos matam batem-nos todo o caminho de volta ao bordel.»
Os bordéis são incrivelmente lucrativos. A rapariga que «custa» 150 dólares pode ser vendida para sexo até dez vezes por noite e render 10 000 dólares por mês. As únicas despesas são os pagamentos à polícia e uma bagatela para comida. Se uma rapariga causa problemas, foge ou adoece, é fácil livrar-se dela e substituí-la. Antónia Pinto descreveu o que aconteceu a uma menina de onze anos que se recusou a fazer sexo com um mineiro: «Depois de decapitá-la com o machete, o mineiro circulou na sua lancha rápida, exibindo-a para os outros mineiros, que aplaudiam e gritavam aprovadoramente.»
Como a história destas raparigas mostra, a escravatura, ao contrário do que a maioria de nós foi levada a crer, não acabou. Certamente, a palavra escravatura continua a ser usada para significar toda a espécie de coisas, e demasiadas vezes tem sido aplicada como uma metáfora fácil. Ter dinheiro apenas para sobreviver, receber salários que mal dão para viver, pode chamar-se um salário de escravo, mas não é escravatura. Os meeiros têm uma vida difícil, mas não são escravos. O trabalho infantil é horrível, mas não é necessariamente escravatura.
Podíamos pensar que a escravatura é uma questão de posse, mas isso depende daquilo que entendemos por posse. No passado, a escravatura implicava que uma pessoa possuía legalmente outra pessoa, mas a escravatura moderna é diferente. Hoje, a escravatura é ilegal em toda a parte, e já não há posse legal de seres humanos. Quando as pessoas compram escravos hoje não pedem um recibo nem títulos de propriedade, mas adquirem o controlo — e usam a violência para manter esse controlo. Os escravocratas («Slaveholder» no original. (N. do E.) têm todos os benefícios da propriedade sem as responsabilidades legais. Na verdade, para os escravocratas, não ter a posse legal é uma melhoria, porque obtêm o controlo total sem qualquer responsabilidade por aquilo que possuem.
A despeito desta diferença entre a velha e a nova escravatura, penso que toda a gente concordaria em que aquilo de que falo é escravatura: o controlo total de uma pessoa por outra com fins de exploração económica. A escravatura moderna esconde-se por trás de diferentes máscaras, usando advogados espertos e cortinas de fumo legais, mas quando se arrancam as mentiras, descobrimos alguém controlado pela violência, e a quem é negada toda a liberdade pessoal, para fazer dinheiro para outra pessoa. Ao viajar pelo mundo para estudar a nova escravatura, olhei para lá das máscaras legais e vi pessoas acorrentadas. É claro, muitas pessoas pensam que já não existe uma coisa como a escravatura, e eu era uma dessas pessoas ainda há poucos anos.

A nova escravatura II – Tailândia: Porque ela parece uma criança

Setembro às 7:31 pm | Publicado em cativeiro, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, sofrimento, violência | 1 Comentário

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)

Tailândia
Porque ela parece uma criança

Quando Siri acorda é perto do meio-dia
No momento em que acorda, ela sabe exactamente quem e o quê passou a ser. Como me explicou, a dor nos genitais fá-la recordar os quinze homens com quem teve sexo na noite anterior. Siri (os nomes foram mudados) tem quinze anos. Vendida pelos pais um ano antes, a sua resistência e o seu desejo de fugir do bordel estão a fraquejar, substituídas pela aceitação e a resignação.
Na cidade provincial de Ubon Ratchitani, no Nordeste da Tailândia, Siri trabalha e vive num bordel. Cerca de dez bordéis e bares, edifícios degradados e sujos, alinham-se ao longo da rua, mesmo ao virar da esquina de uma alameda comercial de estilo ocidental. Há vendedores de comida espalhados entre os bordéis. A mulher que está por trás das tendas de talharim fora do bordel onde Siri trabalha é também espia, carcereira, cão de guarda, alcoviteira, para Siri e para as outras vinte e quatro raparigas e mulheres do bordel.
O bordel está rodeado por um muro com portões de ferro para a rua. Dentro do muro há um pátio poeirento, uma mesa de piquenique em cimento, e a ubíqua casa do espírito, pequeno templo no exterior de todos os edifícios tailandeses. Uma porta baixa leva a uma sala de cimento sem janelas, impregnada do cheiro a tabaco, cerveja choca e suor. É a sala de «selecção» (hong du). A um lado da sala há cabinas e mesas enferrujadas; no outro lado há uma estreita plataforma elevada com um banco a todo o comprimento da sala. Focos de luz apontam para o banco, e à noite as raparigas e as mulheres sentam-se ali sob o clarão, enquanto os homens sentados às mesas bebem e escolhem aquela que querem.
Passando por uma porta, no extremo do banco, o homem segue a rapariga até à janela onde um caixeiro recebe o dinheiro e regista qual a rapariga que ele leva. Dali é conduzido ao quarto da rapariga. Por trás da sala dianteira de cimento, o bordel degenera ainda mais num barracão dividido em minúsculos cubículos onde as raparigas vivem e trabalham. Uma escada improvisada sobe para aquilo que pode ter sido em tempos um celeiro. O nível mais alto está agora guarnecido de portas, afastadas cerca de cinco pés umas das outras, que abrem para quartos de cerca de metro e meio por dois metros e vinte, onde cabe uma cama e pouco mais. Pedaços de madeira e de cartão separam os quartos uns dos outros, e Siri forrou as suas paredes com quadros e cartazes de jovens estrelas pop recortadas de revistas. Por cima da sua cama, como na maior parte dos quartos, está também pendurado o retrato do rei da Tailândia; uma simples lâmpada pende do tecto. Ao lado da cama há uma grande lata com água; há um gancho ao lado para roupas e toalhas. Aos pés da cama, junto à porta, há algumas roupas dobradas sobre uma saliência. As paredes são muito finas e houve-se tudo dos quartos vizinhos: um grito do guarda-livros ecoa por todos eles, estejam as portas abertas ou fechadas.
Depois de se levantar ao meio-dia, Siri lava-se com água fria da única tina de cimento que serve as vinte e cinco mulheres do bordel. Depois, vestindo uma t-shirt e uma saia, vai à tenda de talharim para a sopa quente, que é o pequeno-almoço tailandês.
Por volta das cinco horas, Siri e as outras raparigas são mandadas vestir, pintarem-se e prepararem-se para o trabalho da noite. Por volta das sete os homens começam a entrar, a comprar bebidas e a escolher raparigas, e Siri terá sido escolhida por um ou dois dos dez até dezoito homens que a comprarão nessa noite. Muitos homens escolhem Siri porque ela parece muito mais nova do que os seus quinze anos. Franzina e de rosto arredondado, vestida para acentuar a sua juventude, poderia ler onze ou doze anos. Porque parece uma criança, pode ser vendida como uma «nova» rapariga e a um preço mais alto, cerca de 15 dólares, o que é mais do dobro do cobrado pelas outras.
Siri tem muito medo de apanhar sida. Muito antes de compreender a prostituição, ela já sabia do HIV, pois muitas raparigas da sua aldeia voltavam para casa para morrer de sida depois de terem sido vendidas para bordéis. Todos os dias ela reza a Buda, tentando ganhar o mérito que a preserve da doença. Tenta também insistir com os clientes para que usem preservativos, e em muitos casos consegue-o porque o proxeneta a apoia. Mas quando os polícias se servem dela, ou o próprio proxeneta, fazem como lhes apetece; se ela tenta insistir, é espancada e violada. Receia também a gravidez, e tal como as outras raparigas apanha injecções da droga contraceptiva Depo-Provera. Uma vez por mês faz um teste de HIV, e até agora tem sido negativo. Sabe que se o teste for positivo será expulsa do bordel para morrer à fome.
Embora tenha apenas quinze anos, Siri está resignada a ser prostituta. Depois de ter sido vendida e levada para o bordel, descobriu que o trabalho não era aquilo que ela pensava que fosse. Como muitos tailandeses rurais, Siri teve uma infância protegida e ignorava o que seria trabalhar num bordel. O primeiro cliente magoou-a, e ela na primeira oportunidade fugiu. Na rua, sem dinheiro, foi rapidamente apanhada, arrastada, espancada e violada. Nessa noite foi forçada a receber uma cadeia de clientes até de madrugada. Os espancamentos e o trabalho continuavam noite após noite até que ela quebrou. Agora tem a certeza de que é uma má pessoa, muito má, para ter merecido aquilo que lhe aconteceu. Quando eu lhe disse como era bonita numa fotografia, como uma estrela pop, respondeu «não sou uma estrela; sou apenas uma puta, e mais nada». Faz o melhor que pode. Tem orgulho no seu preço mais elevado, e no grande número de homens que a escolhem. E a adaptação ao campo de concentração, um esforço para dar sentido ao horror. A prostituição é ilegal na Tailândia, mas raparigas como Siri são vendidas para a escravatura sexual aos milhares. Os bordéis que têm estas raparigas são apenas uma pequena parte de uma indústria do sexo muito mais vasta. Como pode este comércio grossista de raparigas continuar? O que é que o mantém em funcionamento? A resposta é mais complexa do que se poderia pensar; o boom económico da Tailândia, a sua cultura machista, e a sua aceitação social da prostituição, tudo contribui para isso. Dinheiro, cultura e sociedade misturam-se de modos poderosos para escravizar raparigas como Siri.

Segue: Uma rapariga vale um televisor

A nova escravatura III – Brasil: «Eles chegam com as suas belas palavras…»

Setembro às 7:30 pm | Publicado em cativeiro, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, miséria, sofrimento, violência | Deixe um comentário

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)

Anterior: A vida à beira do precipício

«Eles chegam com as suas belas palavras…»

A partir do princípio da década de 1980, quando a vaga de desenvolvimento alastrou para Mato Grosso do Sul, os recrutadores começaram a aparecer nos bairros de lata de Minas Gerais em busca de trabalhadores com alguma experiência de fazer carvão. Esses recrutadores são chamados gatos e desempenham um papel-chave no processo de escravização. Quando eles entram nas favelas com os seus camiões de gado e anunciam que estão a contratar homens ou mesmo famílias inteiras, os residentes desesperados respondem imediatamente. Os gatos vão de porta em porta ou usam altifalantes para chamar as pessoas à ma. Por vezes os políticos locais, e até as igrejas locais, deixam-nos usar os edifícios públicos e ajudam-nos a recrutar trabalhadores. Os gatos explicam que precisam de trabalhadores nos ranchos e nas florestas do Mato Grosso. Como bons vendedores, expõem as muitas vantagens do trabalho regular e das boas condições. Oferecem-se para fornecer transporte para Mato Grosso, boa comida no local, um salário regular, ferramentas e viagens gratuitas a casa para visitar a família. Para uma família faminta, isto parece uma oferta milagrosa de um novo começo. Num campo de carvão do Mato Grosso falei com um homem chamado Ronaldo (nome não verdadeiro), que descreveu o seu recrutamento: Os meus pais viviam numa zona rural muito seca e quando cresci não havia lá trabalho, nenhum trabalho. Por isso decidi ir para a cidade. Fui para São Paulo, mas lá era ainda pior; não havia trabalho e tudo era muito caro, e o lugar era perigoso — havia muito crime! Por isso depois fui para Minas Gerais porque ouvi dizer que lá havia trabalho. Não sei se havia ou não, mas um dia veio um gato e começou a recrutar pessoas para trabalhar aqui no Mato Grosso. O gato disse que nos dariam boa comida todos os dias e que além disso teríamos bom salários. Prometeu que todos os meses o seu camião levaria as pessoas a Minas Gerais para poderem visitar as famílias e levar-lhes os salários. Até deu dinheiro a alguns homens para darem às famílias antes de partirem e comprarem comida para levarem consigo na viagem. Conseguiu encher facilmente o camião de trabalhadores e partimos na viagem para oeste. Durante o caminho, quando parávamos para meter combustível, o gato dizia: «Vão ao café e comam o que quiserem, que eu pago.» Tínhamos passado fome durante muito tempo, por isso pode imaginar como comemos! Quando chegámos a Mato Grosso, continuámos a avançar cada vez mais para o interior do país. Este campo fica a uns setenta quilómetros de tudo; é só cerrado durante mais de setenta quilómetros, até encontrar nem que seja uma fazenda, e só há uma estrada. Quando chegámos ao acampamento pudemos ver que era horrível: as condições não eram boas nem para animais. De pé à volta do acampamento havia homens armados. E então o gato disse: «Cada um de vocês deve-me muito dinheiro: há o preço da viagem, e da comida que vocês comeram, e o dinheiro que lhes dei para as vossas famílias — por isso nem pensem em sair daqui.»

Ronaldo estava num beco sem saída. Como os outros trabalhadores, descobriu que não podia partir do acampamento e não podia dizer nada sobre o trabalho que lhe davam para fazer. Ao fim de dois meses, quando os trabalhadores perguntaram sobre a ida a casa para uma visita, disseram-lhes que ainda estavam demasiado endividados para que os deixassem partir.
Uma mãe de três filhos que mais tarde fugiu do trabalho forçado, explicou: «Quando as coisas estão mal aqui [nas favelas], é como se os gatos adivinhassem que as pessoas estão num tal aperto, e então chegam e enganam os pobres… Vêm com as suas bonitas palavras e prometem o braço, mas quando lá chegamos eles não nos dão nem a pontinha do dedo.» (A mulher citada foi entrevistada por Alison Sutton no Piauí, em Abril de 1992; ver Sutton, Slavery in Brazil, p. 34.)
Quando os trabalhadores iniciam a viagem, os gatos pedem-lhes dois documentos: o bilhete de identidade e a carteira de «trabalho». Estes são essenciais à vida no Brasil. O bilhete de identidade é essencial para qualquer relação com a polícia ou com o governo e prova da cidadania; a carteira de trabalho é a chave para o emprego legal. Ao assinar o verso da carteira de trabalho de uma pessoa, um patrão cria um contrato vinculativo e coloca o emprego sob as leis do trabalho do governo, como as regras do salário mínimo. Sem uma carteira de trabalho, os trabalhadores têm dificuldade em obter os seus direitos. Os gatos dizem que precisam dos documentos para actualizar os seus registos, mas na realidade essa pode ser a última vez que os trabalhadores os vêem. Conservando esses documentos, adquirem um domínio poderoso sobre os trabalhadores. Por muito má que seja a sua situação, os trabalhadores hesitam em partir sem os seus documentos. Entretanto, visto que as carteiras de trabalho não foram assinadas, não há prova de emprego e pouca protecção legal. Como afirmou um investigador brasileiro: «A partir desse momento, o trabalhador está morto como cidadão, e nasce como escravo.» (José de Souza Martins, «Escravidão Hoje no Brasil», Folha de São Paulo, 13 de Maio de 1986, p. 7.)
Para os gatos, o seu método de recrutamento a longa distância tem grandes vantagens. Levados para longe das suas casas, os trabalhadores desconhecem os campos em redor e estão separados dos seus amigos ou da família que os poderiam ajudar. Mesmo que consigam fugir, não têm dinheiro e estão endividados. Não têm como pagar a viagem de regresso ao seu próprio estado. Muitas vezes continuam a trabalhar nas mais horríveis condições, na esperança de obter algum dinheiro que lhes permita chegar a casa. E se fogem dos campos de carvão, as gentes locais muitas vezes sentem-nos como estranhos e receiam-nos. Sem bilhete de identidade, podem ser presos pela polícia como vadios ou suspeitos como criminosos. Sem as carteiras de trabalho não podem trabalhar; mais do que isso, continuam sem ser registados no seu novo local de trabalho e os inspectores de trabalho governamentais e os organizadores dos sindicatos não sabem que eles existem. Nos campos do carvão, os trabalhadores estão isolados, como as jovens brutalizadas e retidas nos bordéis na Tailândia: podemos ver no Brasil outro exemplo do método de escravização de «campo de concentração». O campo de carvão é o seu próprio mundo. O gato e os seus capangas têm um controlo absoluto e podem usar a violência à sua vontade. O que eles querem é trabalhadores que tenham desistido, que façam tudo o que lhes peçam. Ao mesmo tempo, querem que os seus cativos trabalhem duramente, de modo que lhes prometem constantemente o pagamento e mais comida e melhor tratamento. Equilibrando a esperança e o terror, eles encerram os seus novos escravos no trabalho. Como as jovens forçadas à prostituição, os trabalhadores do carvão não são escravizados para toda a vida; na verdade, a sua permanência nos campos é em geral mais curta do que a das mulheres nos bordéis da Tailândia. Os gatos e os seus patrões não querem possuir aqueles trabalhadores, mas apenas espremer deles o máximo trabalho possível. Os trabalhadores com quem falei foram mantidos em servidão por dívida entre três meses e dois anos, mas raramente mais do que isso. Havia várias razões para a brevidade do seu emprego. Um campo de carvão dura apenas dois ou três anos em qualquer local até à exaustão das florestas em redor, e os trabalhadores raramente são transferidos de um campo para outro. E os trabalhadores adoecem e ficam exaustos ao fim de alguns meses de trabalho nos fornos. Em vez de continuar a manter aqueles que já não trabalham em pleno, é mais eficaz, do ponto de vista dos custos, desfazer-se deles e recrutar outros para os substituir. Visto que em geral não têm dinheiro quando são despedidos dos campos, muitos dos trabalhadores nunca conseguem voltar a suas casas em Minas Gerais. As mais das vezes deambulam pelas cidades de Mato Grosso, e muitos são enviados outra vez para os campos de carvão (chamados baterias).
Um campo de carvão é chamado bateria porque tem uma bateria de fornos. A bateria pode ter desde vinte até mais de cem fornos, com entre oito e quarenta trabalhadores. O calor, o fumo, e a desolação da bateria faz com que aquilo pareça um pedaço do inferno trazido para a floresta. Os fornos de carvão são construções redondas de tijolo e barro com cerca de dois metros de altura e três de largo. São construídos em longas filas direitas, com vinte ou trinta fornos separados por cerca de um metro uns dos outros. Uma pequena abertura no forno com cerca de um metro de altura é a única entrada. Através dessa porta enchem o forno completamente de lenha. A lenha tem de ser empilhada desde o chão até ao tecto arredondado do forno, com muito cuidado e muito apertada, para que arda adequadamente e se transforme em carvão. Depois de empilhada a lenha, a porta é selada com tijolos e barro e acende-se o fogo. O carvão faz-se queimando a lenha com um mínimo de oxigénio. Se entra demasiado ar no forno, a lenha é consumida pelo fogo e só ficam cinzas. Se não houver ar suficiente dentro do forno, produzem-se apenas pedaços de madeira meio queimados e inúteis. Para controlar a entrada de ar, abrem-se e fecham-se pequenos buracos de ventilação nos lados do forno, destapando-os ou tapando-os com barro. A queima dura cerca de dois dias e os trabalhadores têm de vigiar constantemente o forno, dia e noite, para verificar se ele está a arder à temperatura devida. Terminada a queima, deixa-se o forno arrefecer; depois retira-se o carvão.
A toda a volta do campo, numa extensão de uma milha, a terra foi desnudada e rasgada. A terra está vermelha e degradada. Os tocos das árvores, as grandes manchas de ervas e de lenha queimada, as valas e buracos e a omnipresente nuvem de fumo transformam-no num campo de batalha. A destruição da floresta é visível por todo o lado. Cobertos de fuligem negra e cinzas e luzidios do suor, os trabalhadores movem-se como fantasmas para dentro e para fora do fumo à volta dos fornos. Todos os trabalhadores que vi eram apenas músculo, osso e cicatrizes; toda a gordura tinha sido queimada pelo calor e pelo esforço. O fumo esmagador e sufocante dá a cor e o sabor a tudo. O fumo do eucalipto, carregado dos óleos ácidos que a árvore produz, é cáustico e arde nos olhos, no nariz e na garganta. Todos os trabalhadores do carvão tossem constantemente, cuspindo e tentando limpar os pulmões sempre cheios de fumo, de cinza, de calor e de pó de carvão. Se viverem o bastante, sofrerão de doenças pulmonares.
A maioria dos fornos vertem e cospem fumo, e o calor é tremendo. Mal entramos na bateria somos dominados pelo calor. Esta parte do Brasil já é quente e húmida; retire-se qualquer protecção que as árvores poderiam oferecer contra o sol e acrescente-se o calor de trinta fomos, e o resultado é um inferno de assar. Para os trabalhadores que têm de entrar nos fornos ainda escaldantes e retirar o carvão o calor é inimaginável. Quando entrei num forno com um homem que retirava o carvão com uma pá, a pressão do calor deixou-me a cabeça à roda em minutos, o suor encharcou-me as roupas, e o chão de carvões escaldantes queimava-me os pés através das grossas botas. O tecto pontiagudo concentrava o calor e passados momentos eu estava aturdido, em pânico e mole. Os trabalhadores estão permanentemente à beira da insolação e da desidratação. Por vezes as suas conversas eram confusas, como se tivessem o cérebro cozido. Os trabalhadores que esvaziam os fornos permanecem quase nus, mas isso expõe a sua pele às queimaduras. Por vezes de pé em cima das pilhas de carvão, eles tropeçam ou o carvão cede e caem no meio dos carvões incandescentes. Todos os trabalhadores do carvão que conheci tinham as mãos, os braços, as pernas cobertos de feias cicatrizes de queimaduras, algumas ainda inchadas e purulentas.
Diante dos fornos há grandes pilhas de lenha cortada com um metro e vinte de comprimento, preparada para encher o forno. Por trás dos fornos há montes de carvão à espera de ser ensacado e transportado para as siderurgias. A fila de fornos é o último passo na destruição das florestas, que desaparecem num círculo cada vez mais largo à volta da bateria. No extremo dos campos arruinados à volta dos fornos, os trabalhadores queimam as plantas rasteiras e derrubam mais árvores, empurrando a orla da floresta cada vez para mais longe. Arrastada para os fornos por tractores, a lenha cortada em breve será transformada em carvão.

A nova escravatura III – Brasil: A vida à beira do precipício

Setembro às 7:18 pm | Publicado em cativeiro, denúncia, escravatura, exploração, miséria, sofrimento, violência | 1 Comentário

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001

(excertos)

Brasil: A vida à beira do precipício

A nova escravatura floresce onde as antigas regras, os antigos modos de vida são destruídos. A tão publicitada destruição da floresta tropical e o resto do denso interior do Brasil cria o caos também para as pessoas que vivem e trabalham naquela região. Grande parte da escravatura no Brasil nasce desse caos social. Pensemos na maneira como uma grave inundação ou um tremor de terra podem destruir o saneamento e espalhar as doenças. Mesmo nos países mais modernos, quando um desastre natural ou de origem humana destrói o sistema de abastecimento de água e os esgotos, doenças mortais como a disenteria ou a cólera podem alastrar e afectar a população. Do mesmo modo, a destruição do meio ambiente e o desastre económico podem levar uma sociedade ao colapso — e a doença da escravatura pode crescer sobre os seus destroços.

Mas a destruição nunca é estável; nenhum lugar ou povo desliza para o caos para lá ficar para sempre. A destruição determinada pela economia está a alastrar como uma vaga de maré através do Brasil. À sua frente estão as densas florestas do cerrado ou as florestas tropicais da Amazónia; para trás estão as plantações de eucaliptos e as novas fazendas de gado, semeadas de ervas vindas do exterior, esvaziadas de animais nativos, e que fornecem carne para os mercados das cidades. Até onde a vaga alcança há desordem. O espaço entre as florestas antigas e a «civilização» é uma zona de batalha onde as velhas regras morreram e as novas regras ainda estão por entrar em vigor. À medida que o ecossistema nativo e as pessoas são extirpadas, os trabalhadores deslocados, mesmo os desempregados urbanos, ficam vulneráveis à escravização. As pessoas agarradas e forçadas a levar a cabo a destruição das florestas vivem sem electricidade, sem água corrente e sem comunicações com o mundo exterior. Estão completamente debaixo do controlo dos seus senhores. A vaga transporta consigo a escravidão. A terra que está pela frente ainda é explorável, a que fica para trás está nua e, quando toda a terra ficar nua, os escravos serão abandonados.

Temos tendência para descrever a destruição ambiental como enormes bulldozers a abrir caminho através das florestas primitivas, esmagando a vida sob o seu rasto de aço, destruindo a natureza para cobrir a terra de cimento. Na realidade, o processo é mais insidioso. Neste caso, as pessoas que vivem na floresta e dependem dela são geralmente aquelas que são forçadas a destruí-la. Árvore a árvore, as mãos dos escravos arrancam a vida da sua própria terra e preparam-na para um novo tipo de exploração. A escravidão do Brasil é uma escravidão temporária porque a destruição ambiental é temporária: uma floresta só pode ser arruinada uma vez, e não leva assim tanto tempo.

Por vezes a floresta é destruída quando dela se tira alguma coisa de valor; outras vezes a destruição não produz nada de valor. No Mato Grosso do Sul, ambas as coisas aconteceram. Há vinte e cinco anos, quando o cerrado foi limpo para dar lugar ao eucalipto, a madeira foi simplesmente empilhada e queimada. Hoje, quando a vaga final de destruição alastra pelo Mato Grosso, o cerrado e agora o eucalipto estão a ser de novo queimados — mas agora estão a ser transformados em dinheiro. A madeira é transformada em carvão, como aquele que nós usamos nos nossos churrascos. Este é um tipo especial de carvão, porque é feito manualmente, por escravos. Mas talvez não seja assim tão especial, afinal de contas — a escravatura tem uma longa história no Brasil.

«Um peito de ferro…»

Já vimos como a corrupção governamental anda de mãos dadas com a escravatura. No Brasil ela fomenta também a destruição ambiental. O advento das plantações de eucaliptos referidas no início deste capítulo era parte de um imenso esquema de fuga fiscal cozinhado nos anos 1970 pelo governo militar e pelas companhias multinacionais. As origens exactas do esquema perderam-se, mas a sua substância era clara: o governo permitia às grandes companhias e às corporações multinacionais a compra de terra federal, a um preço muito baixo, em parcelas de centenas de milhares de hectares. Se as companhias cortassem depois as florestas nativas e plantassem eucaliptos, o governo permitia-lhes que deduzissem o custo da terra e da replantação aos impostos :das corporações. Finalmente, os eucaliptos deviam ser cortados para alimentar uma fábrica de papel que o governo prometeu construir. Recebendo grandes extensões de terra numa bandeja, as grandes companhias — incluindo gigantes internacionais como a Nestlé e a Volkswagen — receberam depois mais de 175 milhões de dólares como isenção fiscal (Alison Sutton, Slavery in Brazil: A Link in the Chain of Modernisation (London: Anti-Slavery International, 1994), p. 34.).

Na década de 1990, a fábrica de papel continuava por construir, e muitos dos proprietários começaram a contratar firmas locais para limpar a terra e fazer carvão.

Quando um geólogo estudou as terras a norte do Rio de Janeiro no princípio do século XIX, disse que o país tinha «peito de ferro e coração de ouro». Esta região de ricos depósitos minerais tornou-se o estado de Minas Gerais. Hoje o estado é um centro mineiro e industrial que produz grandes quantidades de ferro e aço. Para fazer aço é preciso carvão. E as modernas indústrias do Brasil, quer fabriquem automóveis ou móveis, usam o aço produzido com o trabalho dos escravos. Muitas das fábricas e fundições são eficientes e modernas, mas o carvão que usam ainda vem das florestas derrubadas e das mãos dos escravos.

Depois de cortadas as florestas de Minas Gerais e do estado vizinho da Baía, foi preciso encontrar novas fontes de carvão; assim voltamos ao estado ocidental de Mato Grosso do Sul, a mais de mil e seiscentos quilómetros das siderurgias de Minas Gerais. À medida que a fronteira mudava para oeste, as estradas penetravam no cerrado, fornecendo caminho para acartar o carvão. E com milhões de hectares de bosque nativo ou de eucaliptos, fazer carvão é simultaneamente uma maneira rápida de espremer mais dinheiro da terra e de limpá-la para a criação de gado. O único ingrediente que falta nesta zona remota são os trabalhadores.

Há uma arte de fazer carvão; é uma habilidade que tem de ser aprendida e praticada para conseguir produzir carvão de boa qualidade. Com o desaparecimento das florestas nos seus estados natais, os trabalhadores do carvão concentraram-se nas cidades esperando encontrar trabalho. Descobriram, como milhões de outros trabalhadores deslocados no Brasil, que não havia trabalho. Famílias inteiras nas cidades do oeste oscilam à beira da fome: algumas vivem nas lixeiras rebuscando pedaços de metal para vender, outras pedem esmola e outras começaram a vender drogas. Essas famílias estão amarradas e dispostas a fazer tudo para dar comida aos filhos. Quando os recrutadores chegam às cidades de Minas Gerais prometendo bom trabalho com bom salário, elas pulam de contentes.

Segue: “Eles chegam com as suas belas palavras…”

A nova escravatura IV – Paquistão: Quando é que um escravo não é escravo?

Setembro às 7:08 pm | Publicado em ambição, cativeiro, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, fome, miséria, sofrimento, violência | Deixe um comentário

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos)

Paquistão
Quando é que um escravo não é escravo?

À luz suave da manhã, num ar ainda denso com o orvalho da noite, as crianças estão a misturar água e terra e a amassá-la em blocos que parecem pães. Tagarelam e riem enquanto trabalham. De momento o trabalho é fácil; o Sol está baixo e o dia ainda fresco. Pouco passa das seis horas da manhã e a família Masih já está a trabalhar há quase duas horas, a fazer tijolos. O trabalho das crianças — dois rapazes, de onze e nove anos, e uma menina, de seis anos — é essencial para a sobrevivência da família. Misturam e preparam o barro que será moldado em tijolos pelos pais. Usando uma enxada para cavar numa barreira na cova onde trabalham, as crianças desfazem depois a terra com as mãos. Felizmente este solo do Punjab não é muito pedregoso nem duro. A menina arrastou uma lata de água do poço, e as crianças misturam a água com a terra, fazendo o barro macio necessário para os tijolos. Quando o barro está misturado, atiram um bloco do tamanho de um pão para a mãe. Esta está agachada junto de uma longa fila de tijolos moldados pelo marido. Ela volta a amassar o bloco e polvilha-o com terra seca. Agora está pronto para o molde e ela empurra-o para o marido, que o agarra e o mete num molde de madeira. Batido dentro do molde, o bocado de barro faz um bloco sólido; o excedente é retirado, e um novo tijolo cru é colocado no chão para secar.
De dez em dez segundos um bocado de barro voa da criança para a mãe, para o pai e para o molde de madeira. A linha de tijolos no chão estende-se à medida que o Sol sobe por cima da cova. De vez em quando, o trabalho abranda, quando começa uma nova fila de tijolos e as crianças têm de esperar por mais água do poço. Ao fim de oitocentos tijolos, a manhã suave tornou-se num dia opressivo, quente e húmido. A temperatura é de 90 graus e o ar na cova é denso. As crianças param de conversar ou de rir; os seus movimentos são cada vez mais indolentes. Começam a ofegar e a suar, e aturdidas pelo calor trabalham como autómatos, cavando e misturando, cavando e misturando. Agora bebem mais da água trazida do poço, e enrolam pedaços de pano à volta da cabeça e dos ombros contra o sol. Quando estão alinhados mil e duzentos tijolos na cova, o sol e a humidade apertam-nos e eles estão a desfalecer de calor e de fome. Mesmo assim trabalham, cavando e misturando, mantendo o fluxo de barro para o pai, enquanto este molda tijolo após tijolo. Finalmente, depois de cerca de mil e quatrocentos tijolos, entre a uma e as duas horas da tarde, param. Agora, no maior calor do dia, o trabalho torna-se impossível, e eles arrastam-se de regresso à única divisão com chão de terra em que vivem, para comer uma refeição rápida e depois dormir. Dormir é a única maneira de suportar o grande calor do dia.
Ao fim de algumas horas o dia refresca um pouco. É tempo para mais duas ou três horas a cavar na barreira da cova, fazer um monte de terra solta e molhá-la para que esteja pronta de manhã. E claro que há também outro trabalho para fazer. A mãe está a preparar a principal refeição da noite, e se não estão a cavar na cova, o pai e os filhos podem estar a acartar, a arrastar ou a empilhar tijolos em volta do forno de tijolo. A família Masih é apenas uma das quinze famílias que fazem tijolos no forno, e por vezes, ao fim da tarde, as crianças das diferentes famílias podem ter tempo para brincar juntas.
As crianças são uma parte importante da força de trabalho num forno de tijolo no Paquistão. Trabalhando com os pais, misturam o barro para os tijolos crus. Outras crianças podem trabalhar com arrastadores, que transportam os tijolos crus das covas para o forno, ou podem ajudar a empilhar os tijolos no forno, um trabalho mais especializado. Se os tijolos não forem bem empilhados, o forno pode ruir, com consequências desastrosas. Mais tarde os tijolos quentes têm de ser tirados do forno e empilhados cá fora; quando são vendidos, devem ser carregados em carroças ou camiões e transportados. Antes que isso aconteça, é preciso transportar o carvão para o alto do forno e deitá-lo com pás para as fornalhas. A temperatura ali é muito superior aos 130 graus e os trabalhadores, incluindo as crianças, usam sandálias com solas de madeira grossas por causa do calor do forno. Por causa do seu calçado pesado, os trabalhadores andam com cuidado, e as crianças têm uma vantagem, porque quando os fogos se acendem no forno em baixo, por vezes o nível superior dos tijolos cede. Quando isso acontece, uma pessoa pode cair por ali adentro. Se os trabalhadores caem completamente no forno não há esperança para eles; a temperatura lá dentro é de mais de 1500 graus, e eles são instantaneamente incinerados. Se metem apenas uma perna ou o pé, pode haver esperança, dependendo da rapidez com que são puxados para cima e para fora. Mas as queimaduras serão graves e estropiantes.
Apesar do risco, as crianças continuam a trabalhar; as famílias precisam da sua ajuda para sobreviver. E muitas famílias, mesmo com os esforços das crianças, não se conseguem amanhar. O valor do seu trabalho significa que, ao visitar muitos fornos de tijolo no estado do Punjab, descobri que apenas uma mão-cheia de crianças iam à escola. Muitas vezes nenhuma criança está a receber escolaridade. Noutros casos, talvez três ou quatro rapazes podiam ir à escola (quando as crianças são mandadas à escola, as raparigas raramente estão incluídas). Em alguns fornos vinha um homem uma vez por semana para iniciar as crianças no Alcorão, mas eram apenas as crianças muçulmanas e excluíam as muitas crianças cristãs que também trabalhavam ali. Para as crianças dos fornos de tijolo, o trabalho é longo e duro, mas o trabalho duro e a diligência não garantem o sucesso.
Se as condições de trabalho não fossem suficientemente más, o sistema de trabalho nos fornos de tijolo apresenta outros perigos e sofrimentos. Virtualmente todas as famílias que fazem tijolos trabalham por uma dívida para com o dono do forno. Essas dívidas apresentam um perigo especial para os filhos. Por vezes, quando o dono de um forno suspeita de que uma família tentará fugir e não pagar a sua dívida, pode tomar um filho como refém para obrigar a família a ficar. Essas crianças são afastadas do forno e mantidas pela força, fechadas na casa do dono ou na casa de um parente. Ali põem-nos a trabalhar num qualquer trabalho que o dono decide e alimentam-nos com o mínimo possível.
Manter crianças como caução já é bastante mau, mas não é o pior aspecto do sistema. A dívida para com o dono do forno não acaba se o pai da família morrer. Em vez disso, passa para a mulher e para os filhos. Um rapaz de treze ou catorze anos pode ser sobrecarregado com uma dívida que carregará por muitos anos, talvez para toda a vida. A dívida herdada amarra-o ao forno e à incessante mistura e moldagem de tijolos crus. Além disso, o custo do funeral do pai será acrescentado à dívida. A herança da dívida é um factor-chave no tipo de escravização a que tenho chamado servidão por dívida, um sistema que mantém muitas famílias paquistanesas numa vida de labuta opressiva.

O negócio da infância

Setembro às 6:58 pm | Publicado em corrupção, denúncia, exploração, fome, miséria, violência | Deixe um comentário
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Manuel Giraldes
in: Além-mar, Janeiro 2006

Na Etiópia, o tráfico interno de crianças ronda as dezenas de milhares. Raptadas, vendidas por familiares ou vizinhos, acabam nas grandes cidades. As meninas vão parar à prostituição ou são exploradas como escravas do lar, os meninos chegam a trabalhar mais de 14 horas por dia, em fabriquetas de têxteis ou tijolos, na construção civil. Há quem os tente ajudar, há até alguns que acabam por ser resgatados. Mas há experiências que deixam sequelas para toda a vida.

Zeiba (9 anos). Está na central de camionagem, mas não vai a lado nenhum. Apenas acabou de chegar. Donde? Pelos olhos dela, tristemente velhos, directamente do inferno. Quase imaginamos rugas em redor, porque, como os mantém sempre baixos, dir-se-iam mergulhados em sulcos de sombra. Fala numa voz sumida, entrecortada, como se as palavras fossem uma espécie de tosse seca. Aos arrancos, lá vai contando: fugiu de uma casa onde se encarregava do trabalho doméstico pelo equivalente a dois euros ao mês; aguentou um ano aquela «vida», depois fugiu. Foi o irmão – tem mais três irmãs – que a trouxe dos campos do Sul até à capital. O pai morreu, alguém tinha de dar uma ajuda. Calhou-lhe a ela. Embora seja difícil imaginá-la a empunhar uma vassoura: pelos padrões europeus, tem um corpo de quatro/cinco anos.

 

Daniel (13 anos). Profissão: tecelão. Horário de trabalho: 14 horas por dia. Está sentado ao lado de Zeiba e dir-se-ia, quando muito, ter mais um ano do que ela. Fala com o tom sério de um soldadinho que foi à guerra e sobreviveu ao que viu, já sem lágrimas nem sequer quem o chorasse: a mãe morreu, o pai voltou a casar, entre os dois legaram-lhe três irmãs e o mais completo abandono. No seu caso, foi um vizinho que se encarregou de o trazer do Sul até à grande cidade, de fechar o negócio. Se negócio se lhe pode chamar! Ordenado: zero; alimentação: um a três pães por dia; bónus: o patrão mandava todos os anos o equivalente a dez euros para a sua família; subsídio: quando bebia, batia-lhe. Durante dois anos, teceu imparavelmente o fino fio do algodão: produzia um manto (gabi) por dia e uma mantilha tradicional (natala) – que, no mercado, se vende pelo correspondente a 80/100 euros por semana. Depois, não aguentou mais. Fugiu. Andou 15 quilómetros até chegar à estação, há dois dias. Quando acaba de ciciar a sua história, levanta-se para nos apertar a mão. E, quase milagrosamente, esboça um leve sorriso. Por incrível que pareça, Zeiba e Daniel tiveram sorte. Quando os encontramos, estão sentados num banco corrido, num cubículo que fica logo à esquerda dos portões que, em Adis-Abeba, acolhem os veneráveis autocarros que tanto percorrem o escasso macadame como as inúmeras «estradas» – de terra batida, de cascalho, de barro e lama – que irrigam de movimento e vida o imenso e montanhoso país. Com ajuda, encontraram o caminho. Embora sem a garantia de que não seja um beco sem saída, de que não venham a ser obrigados a fazer marcha atrás.

Um menino por um euro

Zeiba e Daniel são apenas duas ínfimas peças de uma imensa e lucrativa engrenagem: na Etiópia, o tráfico de crianças e jovens entre os dez e os 18 anos «ronda as dezenas de milhares». Num país onde de repente se descobre que o recenseamento está incorrecto e que, em vez de 75, há 77 milhões de etíopes, é claro que não «existem números exactos». Conhecem-se, sim, com precisão, os casos concretos. Ou pequenos «pormenores»: «Há crianças que chegam a ser vendidas por um euro.»

Quem o diz, com uma voz em que a eficiência ainda não substituiu por completo a mágoa, é Meron Negash, do recém-fundado Fórum on Street Children – Ethiopia (FSCE), uma organização não governamental que tenta remar contra a torrente dos meninos de rua. Sim, porque tanto aqueles que são raptados e traficados como os que são maltratados e explorados, em casa ou nos locais de trabalho, possuem algo em comum: todos fogem e desaguam nas ruas. A única diferença: uns fogem antes de serem apanhados na teia, outros depois.

De que fogem? Que pergunta… Num país onde 81,9 por cento da população vive com cerca de um euro por dia, numa nação milenarmente cristã mas multiétnica onde, em muitas zonas, é corrente um homem ter duas, três, quatro mulheres e um somatório de oito, dez, doze filhos, a maioria foge à pobreza e à fome. Mas também escapam à violência, a um casamento forçado, ao engano em que caem quando alguém lhes propõe trabalho ou uma oportunidade de estudar e se vêem vendidos a bordéis, a hotéis, a patrões. O destino varia geralmente segundo os sexos, a desgraça é a mesma: elas prostituem-se, tornam-se empregadas domésticas; eles vão parar sobretudo a fabriquetas de tecidos onde são «armazenados» e obrigados a trabalhar 14, 15 horas por dia, mas também efectuam trabalhos ainda mais pesados, nas fábricas de tijolo, na construção civil. Há uma «profissão», porém, em que não há descriminação sexual: «Por vezes, as crianças são mutiladas pelos traficantes, para as porem a pedir nas ruas. Tornam-se mendigos à força.»

As meninas que são obrigadas a prostituírem-se, nas ruas, nos bordéis ou nos hotéis, têm maior procura quando se encontram na casa dos 11,13 anos. Diz Meron Negash: «Quanto mais nova melhor. Há a ideia de que assim não há o perigo de contrair sida e outras doenças.» Embora a organização possua um abrigo seguro onde as que conseguem escapar às teias do negócio podem permanecer durante seis meses, a sua reinserção social é extremamente difícil. «O estigma permanece. Ninguém quer empregar crianças exploradas sexualmente.»

Sequelas para toda a vida

Fikir Isedeke, uma advogada que colabora com o Fórum, estabelece o elo com a pequena «esquadra» que funciona no terminal de autocarros do Merkato. É para aí, para um cubículo que não terá mais do que dois por três metros, que as autoridades encaminham as crianças que, como Zeiba e Daniel, são encontradas a deambular pelas ruas. E é ela que coordena os esforços de reintegração social, que passam em primeiro lugar pela tentativa de as fazer regressar às suas famílias.

Bigo (15 anos) pode considerar-se realmente afortunada. Ao fim de três dias de autocarro desde o seu Wolisso natal, também no Sul do país, viu-se como empregada para todo o serviço numa casa onde era perseguida pela outra criada, que a humilhava por causa dos seus modos campesinos. Não aguentou mais de uma semana e fugiu. Depois de apenas um dia na rua, está agora sentada ao lado de Zeiba e Daniel, mas tudo a distingue deles: razoavelmente alta e bem nutrida, a sua vivacidade natural não se deixa abater pela situação. Embora tenha o 9° ano de escolaridade, quando a Polícia a encontrou nem sequer sabia dizer onde vivia a família, que foi exactamente quem a «vendeu» ao intermediário que a trouxe para a capital – pela módica quantia de dois euros. A história repete-se: a mãe morreu, o pai voltou a casar, tem quatro irmãos. Mas desta vez parece destinada a ter um final feliz: foi possível localizar os familiares, que esta tarde virão buscá-la.

A experiência foi tão curta que poucas marcas terá deixado. Mas, infelizmente, no meio de tanta miséria e exploração, o caso de Bigo até poderia passar por um conto de fadas. Uma grande parte das que passam por este tipo de trauma «ficam com sequelas psicológicas para toda a vida». Então, no caso das que foram molestadas, «são muito poucas as que recuperam».

O Fórum, em colaboração com outras organizações, tenta ensinar ofícios aos meninos, arranjar-lhe trabalho quando têm mais de 14 anos. Porque, quando as famílias são demasiado pobres, a tendência é irem parar outra vez à rua. Pensando melhor, Bigo ainda não está a salvo. Até porque, a par do tráfico interno, na Etiópia existe tráfico de raparigas para os países do Médio Oriente. Que, segundo uma responsável pela Organização Internacional para as Migrações, já era grande e tem tendência para aumentar.

Um tráfico condenado

Fikir Isedeke assegura que o tráfico interno é um fenómeno à escala nacional Porque, no fundo, todos colaboram, todos são traficantes: parentes, amigos da família, vizinhos, os motoristas de camião que percorrem incessantemente as «estradas» e as picadas do país Há uma espécie de círculo vicioso: «Algumas são raptadas a caminho da escola e por isso fogem das aldeias para as cidades para não voltarem a ser raptadas.» Ao fugir, vão parar às ruas. Que é precisamente o grande «mercado abastecedor» dos traficantes. Então, o que fazer? «Há que processar os traficantes, para despertar a consciência da opinião pública», afirma a doutora Isedeke. Quando lhe perguntamos se é fácil condená-los, solta um imperceptível suspiro, não se sabe se por cansaço, se por ter de enfrentar uma tão grande ingenuidade: «Só me lembro de um», diz.

Um padre comboniano, que trabalhou durante muitos anos no Sul, conta-nos que, sempre que uma criança desaparece subitamente, a família conforma-se e invariavelmente afirma: «Foram os babuínos.» Ele bem tentava explicar: «Olhem que não… São mas é os camionistas…» Aqui e ali, lá vislumbramos os esquivos babuínos. Os camionistas, esses, estão ao virar de cada esquina. Mas as crianças também. Num país tão populoso e tão «novo», há magotes de crianças em cada berma, há bebés de colo a espreitar, sozinhos, os ferengi (estrangeiros). No alto dos montes, nos vastos planaltos, são as crianças que, perdidas naquela imensidão, pastoreiam as cabras e as ovelhas, guardam as vacas, tocam os pequenos e diligentes burros, que se diria serem mais numerosos do que as estrelas. Todas acenam, todas sorriem, todas correm em direcção à estrada e ao todo-o-terreno para saudar o viajante. Por todo o lado, o bem mais abundante e mais barato parece ser a própria vida. E há sempre quem tenha olho para o negócio.

 

Rosas com espinhos – Caroline Njenga

Setembro às 6:51 pm | Publicado em ambição, cativeiro, corrupção, crueldade, denúncia, exploração, miséria, sofrimento | Deixe um comentário

Caroline Njenga
in:Além-mar, Janeiro 2006

O Quénia produz diariamente 800 mil pés de flores para exportação: são rosas. Naivasha, no oeste do país, tem as condições ideais para a floricultura. Mas os trabalhadores não estão a tirar partido do lucrativo negócio. Muito pelo contrário. E o meio ambiente também não. A indústria exportadora de flores do Quénia está a desabrochar em força. É a terceira maior fonte de divisas estrangeiras, depois do turismo e do chá. A floricultura regista um crescimento rápido através da transformação de grandes quintas em estufas.

O Quénia é um dos maiores fornecedores de flores cortadas ao mercado europeu e a indústria emprega mais de 50 mil operários. Contudo, enquanto as empresas continuam a crescer e a registar grandes ganhos anuais, os trabalhadores estão cada vez mais pobres. A pobreza não é o único problema que enfrentam. Há casos de assédio, intimidação, longas horas de trabalho extraordinário sem a correspondente remuneração e despedimentos ilegais.

Para compreender melhor a situação dos trabalhadores, fui a Naivasha, onde se concentram os maiores produtores e flores. A área de Karagita é o seu coração, e dá nome à pequena cidade onde vive a maioria dos trabalhadores. Um lugar pacato, excepto para uns quantos que andam a apregoar os seus serviços. Um deles diz-me que quase todos os habitantes de Karagita trabalham nas estufas. Parece que não têm alternativa.

Abortos e bebés mortos

Não me permitiram entrar nas plantações. Para falar-lhes, tive de esperar que os operários acabassem os seus turnos. Os autocarros das empresas floricultoras voltam à tardinha com os trabalhadores que fizeram o turno da manhã. Muitos dos que se apeiam são mulheres jovens.

Wanjiru – os nomes foram mudados para proteger a identidade dos entrevistados – diz-me que selecciona e embrulha flores. Por vezes, ela e outras colegas têm de trabalhar muito para além do horário do seu turno. Mesmo quando deixam o emprego depois da meia-noite, têm de se apresentar novamente ao trabalho às seis da manhã. Hoje saiu cedo porque as encomendas não eram muitas.

No mês passado, houve dois casos de violação denunciados por mulheres que ficaram a trabalhar até tarde nas plantações. Wanjiru diz que os autocarros da companhia costumavam deixá-las junto de casa, mas os supervisores aboliram a benesse e agora os operários são deixados na paragem, mesmo às horas mais tardias. «Nós somos violadas, mas na manhã seguinte esperam que estejamos a trabalhar», diz. Wanjiru continua a desfiar a sua história. Quem embrulha flores permanece de pé durante longas horas. E não há intervalos, excepto para almoço. «Estamos habituadas a estar de pé», afirma. Mas diz que, por causa disso, muitas mulheres têm problemas de saúde.

Abortos espontâneos são comuns. Um grande número de bebés morre logo depois do parto. Outras mulheres queixam-se de que não conseguem engravidar por causa da exposição a substâncias químicas. Parece que as empresas de floricultura não levam a sério as questões relacionadas com a saúde. Apesar de terem clínicas privadas, os empregados queixam-se de que os tratamentos são muito caros e inadequados.

Joseph Onyango, que foi condutor de camiões na Homegrown e entretanto se despediu, conta que sofreu um acidente de trabalho em Setembro de 2004. «Estava a ajudar a rebocar um dos tractores e encontrava-me a amarrar uma corda. Infelizmente, o outro condutor meteu a mudança errada e fui entalado. Socorreram-me imediatamente, mas o sangue corria por toda a perna. Pensei que ia morrer. Levaram-me para a clínica da empresa, prestaram-me os primeiros socorros e coseram a ferida. Pensei que, como o acidente foi grave, seria transferido para um hospital para fazer mais exames. Mas levaram-me para casa e disseram que a ambulância me recolheria na manhã seguinte porque o doutor não estava na clínica. Não conseguia sequer caminhar, e tive de ser levantado como um bebé; o meu braço também estava ferido. No dia seguinte esperei que alguém me viesse buscar, mas o director não enviou ninguém. Fui obrigado a chamá-los. Irritaram-me bastante, porque sabiam muito bem a condição em que me encontrava. Telefonei e disseram-me que a ambulância tinha problemas mecânicos. Mas eu vi-a a passar à frente da minha porta. É assim que tratam os trabalhadores. Dão mais valor às flores do que às pessoas.»

Um euro por dia

Os assalariados recebem entre 85 e 100 shillings quenianos – cerca de um euro – por dia. Algumas companhias só pagam os seis dias de trabalho, omitindo a folga. Outras não pagam as hora extraordinárias. A maioria dos trabalhadores recebe um subsídio de alojamento, mas algumas das companhias oferecem casa aos trabalhadores. Visitei um desses locais para me inteirar das suas condições. As construções têm uma só divisão e estão muito juntas. Um dos empregados disse-me que tem duas crianças que partilham o quarto com ele e com a esposa. Contou-me que não podem receber hóspedes por mais de uma semana, senão têm problemas. Mas afirma que a situação está a melhorar: «No passado, partilhámos o quarto com outra família. Era realmente mau, não havia privacidade.»

Os trabalhadores da indústria das flores enfrentam inúmeras dificuldades. Debatem-se sobretudo com a falta de um sindicato que defenda os seus direitos, embora exista um Comité de Assistência que deveria ajudá-los. De acordo com os empregados, os maiores entraves partem da administração das companhias: são os directores que impõem quem deve dirigir o Comité. Numa das floricultoras, um condutor contou-me que nas últimas eleições escolheram o seu delegado, mas a administração queria impor outro dirigente. «O nosso representante não durou uma semana. Enviaram-lhe uma carta de despedimento. Não podemos manifestar os nossos protestos a esta gente; eles apoiam as administrações e têm medo de perder o próprio emprego se falarem.» Há muitas intimidações nas companhias. As pessoas têm medo de começar um sindicato, porque temem ser despedidas.

Hipopótamos envenenados

Os trabalhadores não são as únicas vítimas da indústria da floricultura. O lago Naivasha e o delicado ecossistema que o circunda também não foram poupados. Frequentemente, os produtos químicos utilizados acabam no lago. É comum os pescadores encontrarem peixes mortos à tona da água. Conhecem-se casos preocupantes: dois hipopótamos e algum gado dos pastores Massai também morreram depois de beberem água do Naivasha.

Os empregados das estufas admitem que algumas companhias deixam escorrer os resíduos para o lago. E não é só o lago que é afectado pelos produtos químicos. Alguns trabalhadores encontram-se em situação de alto risco, sobretudo os que pulverizam as plantas e colhem as flores.William, que trabalha na Homegrown, diz que, apesar de usarem equipamento de protecção, fazem testes frequentes para ver se estão bem de saúde e podem continuar a tratar as plantas. «Tiram-nos o sangue para exames, mas não dizem o que estão a despistar. Alguns colegas foram transferidos de lugar depois dos testes, mas não sabem porquê.»

William continua: «Quando pulverizamos as flores, sabemos que ninguém deve entrar na estufa durante um número mínimo de horas. Mas, se as flores são precisas, os cortadores vêm apanhá-las depois de uma hora. Às vezes o spray nem sequer chegou a secar e ainda se sente o cheiro. As mulheres, ou colhem as flores ou perdem o emprego. São capazes de não saber quanto tempo depois de os pesticidas terem sido usados é que podem entrar, mas nós sabemos. Se o supervisor diz que o podem fazer depois de uma hora, nós não podemos protestar. Temos medo de perder o nosso trabalho.»

À espera de Londres

Durante o ano passado, Naivasha foi um dos lugares mais perigosos do Quénia. Alguns condutores dos turnos da noite foram assaltados e os seus pertences roubados. As companhias para que trabalham não os compensaram.

Em Outubro, um grupo de trabalhadores da Flamingo Farm, proprietária da companhia Homegrown, escreveu uma carta ao director-geral da empresa, em Londres, a denunciar o sentimento de frustração dominante, a intimidação e o assédio por parte dos administradores locais. A denúncia causou muita tensão – que afectou também as outras empresas – e espera-se que venha a gerar mudanças.

O perfume doce das flores melhora a vida de alguns mas piora a de outros. Oferecer uma rosa pode sair barato. Mas, no Quénia, o gesto sai caro à saúde pública e ao meio ambiente.

Salvacion – Susanna Tamaro

Setembro às 6:48 pm | Publicado em exploração, literatura, miséria, sofrimento | Deixe um comentário

Susanna Tamaro
Um país para lá do azul do céu
Lisboa, Editorial Presença, 2003

(excerto)

A primeira coisa em que Salvacion reparou foi na distância. Já vivia há um mês naquela casa e começava a perceber como se comportavam os patrões. Nas primeiras semanas, a patroa tinha estado sempre ao lado dela. Tinha de lhe explicar o funcionamento da casa, onde estavam as panelas e os esfregões, como se usava o aspirador e a enceradora, como se carregava a máquina de lavar a roupa: as coisas escuras com as coisas escuras, as claras, com as claras. Tinha-lhe ensinado a distinguir a seda dos outros tecidos porque a seda era a única que tinha de ser lavada à mão. Depois, tinham sido as aulas de culinária: os tomates com arroz, o guisado, as beringelas estufadas, a carbonara. Nessa altura, a patroa tinha sido a sua sombra, mal ela tinha problemas com alguma coisa, ajudara-a, explicando-lhe tudo mais uma vez.


Tinha tido de aprender tantas coisas que, para Salvacion, aquele mês tinha voado. Agora, era o seu primeiro domingo de folga: a patroa já tinha ido há dois dias para o campo, e o marido, o senhor doutor, tinha ido ter com ela na noite anterior. Salvacion estava sozinha naquela casa enorme e luminosa. Mal abrira os olhos, viera-lhe à ideia a questão da distância: a patroa nunca tinha estado tão perto dela como o senhor doutor, na noite anterior. Normalmente, se falava com ela, era de tão longe que nem estendendo um braço conseguiria tocar-lhe. Mas, na noite anterior, quando o acompanhara à porta, com a mala na mão, ele voltara-se de repente e só por uma fracção de segundo não se viram, de rostos colados. Então, ela dera logo um passo atrás, aquela distância mínima parecia-lhe uma falta de respeito. Ele, pelo contrário, dera um passo em frente. Por uns instantes, tinham estado tão próximos que Salvacion sentira o hálito do doutor na sua testa. Na espinha formara-se-lhe um suor estranho e leve, e, quanto mais tempo passavam assim parados, mais o suor ia aumentando. Depois, de repente, ele dera-lhe um piparote na face. — Quantos anos tens? — perguntara. — Dezanove, senhor doutor — respondera Salvacion. O doutor sorrira. — Pensa em divertir-te — dissera-lhe, abrindo a porta. — Voltamos na segunda-feira, de manhã.

Naquele domingo, Salvacion acordara cedo, como era seu hábito e, como era seu hábito, passara a primeira meia hora do dia recolhida em oração. Depois, tomara um duche, mas, mesmo durante o duche, a sensação de mal-estar por causa da noite anterior não tinha desaparecido. Ainda sentia na testa o hálito do doutor. Aquele pensamento mantinha-se dentro dela como um diabinho malvado. Às dez horas, a prima iria buscá-la para passarem o dia juntas. Como ainda faltavam duas horas, foi descalça para o terraço, tratar das plantas. Parcialmente escondido por um véu esbranquiçado de humidade, o Sol começava a aquecer o ar. Da corola de uma flor despontavam as patas traseiras de um besoiro.

Quando a campainha tocou, Salvacion gritou: «Já vou!», como se alguém pudesse ouvi-la, depois ligou o alarme e desceu as escadas com uma bolsinha branca na mão. Do grupo todo daquele domingo só conhecia a prima. Eram muitos e foram almoçar a uma lagoa artificial no meio de uns prédios enormes e claros. Tinham levado um piquenique e comeram todos juntos, ouvindo música da sua terra. — De onde és? — perguntou-lhe um rapaz. — De Jordan Iio Iio, como ela — respondeu Salvacion, apontando para a prima. — Queres jogar raquetas? — perguntou o rapaz. Salvacion sorriu. — Não, agora não. Fica para outra vez. — O rapaz sorriu e foi jogar. O Sol estava quente. Salvacion abriu a bolsa e tirou uma folha de papel de carta. Ainda não tinha escrito para casa. «Querida mãe, queridas irmãs», escreveu na primeira folha, «é domingo e estou com uns amigos num campo, no centro da cidade. Desde que cheguei, ainda não tive um minuto livre para vos escrever. Tive de aprender muitas coisas, a senhora é muito simpática e tem muita paciência comigo. Penso muito em vocês e quando vou para a cama e à minha volta não ouço os ruídos da casa fico muito triste. Na semana que vem, mando-vos o meu primeiro ordenado. Eu aqui estou bem e não me falta nada. Um grande abraço. Salvacion.» A segunda carta escreveu-a à madre superiora do colégio onde tinha estudado. Tinha sido ela quem a aconselhara a ir trabalhar, durante uns anos, para a Europa. Aos dezasseis anos, Salvacion gostaria de ir para freira. Já então sentia que a sua vida era essa. Tinham conversado durante muito tempo: a madre superiora não duvidava da sua vocação, mas opunha-se a uma opção tão precoce. Dois anos antes, quando lhe morrera o pai, de repente, a situação tornara-se dolorosamente clara. «És a mais velha», dissera-lhe a madre superiora «e, em primeiro lugar, tens de pensar na tua família, nos teus irmãos, que ainda são pequenos. O convento está aqui, à tua espera. Entretanto, vai conhecer o mundo, Jesus segue-te para todo o lado, mesmo sem o hábito de freira.» Na carta, Salvacion dizia-lhe que estava contente por estar onde estava. O facto de ser útil à sua família fazia-a sentir-se menos triste e menos só. Todavia, nos momentos livres, não deixava de pensar no convento: o dia em que fizesse os votos seria o dia mais bonito da sua vida.

Nessa noite, depois de a prima a ter acompanhado a casa, deu-se um episódio desagradável. Mal abriu a porta com a sua chave, o alarme começou a tocar. Tocava estridentemente nas escadas e nos patamares do prédio vazio. Devia ter-se enganado ao desligá-lo: com as mãos nos ouvidos, olhou em volta, sem saber o que fazer. Enquanto assim estava, chegou o elevador e saiu de lá a velha porteira. — O que é que se passa aqui? — gritou, dirigindo-se a Salvacion. Agarrou-a por um pulso, deu-lhe um safanão com maus modos. — Ladra! — gritava ela — Ladra! Vou chamar a polícia! — Salvacion desatou a chorar. Mostrando as chaves à porteira, repetia: — Trabalhar Attanasio. — A porteira olhou para a etiqueta no molho de chaves, soltou-lhe o pulso. — Neste prédio, já não se entende nada — gritou. — Um dia, caras de macacas, outro dia, focinhos amarelos. Isto aqui é a torre de Babel, não é nenhum condomínio. Como é que eu posso entender alguma coisa, e depois — acrescentou, encaminhando-se para o apartamento — quem conseguir distinguir-vos é um às, sois todos iguais.

O alarme continuava tocar estridentemente. Arrancando as chaves das mãos de Salvacion, a porteira dirigiu-se à central de alarme. A sirene calou-se de repente. — Diz-me lá — disse ela, piscando um olho —, não será que tens um namorado aqui dentro, hem? Salvacion não percebeu, sorriu, e agradeceu-lhe. A porteira saiu: — Quero lá saber — murmurou, ao passar por ela —, todas umas porcas, estas estrangeiras.

Quando ficou só, Salvacion deixou-se cair no sofá da sala. Queria chorar, mas não tinha lágrimas. O alarme continuava a soar-lhe na cabeça. Por cima do sofá, havia um grande quadro. Era escuro, e mostrava dois senhores vestidos à moda antiga, à volta de uma mesa. A mesa estava posta e, por baixo, havia um cão. Era muito magro, estava deitado e olhava para cima, com um olhar suplicante. Pouco depois, já na cama, com a luz apagada e a colcha puxada para a cara, aquele cão veio-lhe, por um instante, à ideia. Parecia ainda mais vivo do que no quadro, olhava-a com aqueles olhos humildes, como se quisesse falar-lhe. Sem saber porquê, Salvacion desatou num pranto abafado. E do choro passou para o sono, sem dar conta.

Na manhã seguinte, chegaram os patrões, bronzeados e alegres. Salvacion desfez as malas e meteu a roupa suja na máquina. Em seguida, ela e a patroa fizeram a lista das compras e, depois de ter metido na carteira o dinheiro que ela lhe deu, foi ao mercado. No mercado, havia muita gente, e todos lhe passavam à frente. Quando voltou para casa, a patroa berrou com ela: — Será possível que demores tanto para comprar duas ou três coisas? — Salvacion baixou os olhos e vestiu a bata para fazer o almoço. — Hoje à noite — disse a patroa — temos convidados. — O doutor e a mulher eram professores universitários, e era frequente terem amigos ao jantar. À tarde, explicou-lhe como ela devia comportar-se. Na vez anterior, de facto, Salvacion cometera alguns erros. — As travessas apresentam-se pela esquerda e tens de esperar que a pessoa se sirva. Quando os pratos estiverem todos vazios, serves outra vez. Se o vinho ou a água acabarem, trazes mais uma garrafa., sem eu ter de gritar para a cozinha. Percebeste? — Salvacion disse que sim. A patroa murmurou «esperemos que sim», e deixou-a sozinha na cozinha.

Nessa tarde, Salvacion não teve um minuto de descanso. À noite, quando os convidados chegaram, estava cansada e nervosa. Enquanto iam chegando, ia abrir a porta, pegava nos casacos e levava-os para o bengaleiro. No início, os convidados falavam pouco, mas depois, com a chegada do vinho e da comida, começaram a aquecer. Passado pouco tempo, na sala de jantar, havia uma grande confusão. Todos gritavam como se estivesse alguém em perigo. Salvacion andava à volta da mesa, com as travessas. Não olhava para ninguém nos olhos, mas nem por isso deixava de ouvir as palavras. «Não sei onde é que iremos parar, se continuarmos assim», disse alguém. «Este regresso da intolerância é terrível», gritou uma voz feminina. «A culpa é da política do governo.» «Não, é da ignorância, os jovens já não têm consciência histórica.» «E o que é a ignorância», gritou o doutor, «senão o fruto da política do governo?» Salvacion olhou para o relógio de cristais líquidos que encontrara no detergente. Eram nove e meia. Que horas seriam em Jordan Iio Iio? Tentou imaginar o que estaria a fazer naquele instante, se estivesse no convento. Imaginou-se na capela, a cantar loas, ou na cozinha, a lavar o chão com uma esfregona. Sem reparar, Salvacion dobrou o pulso e um escalope aterrou nas pernas de um convidado. — Salvacion! — gritou a senhora. O convidado levantou-se de chofre:

— Que chatice! — exclamou —, fui buscá-las hoje à lavandaria. — Salvacion estava imóvel, repetindo baixinho: — Desculpa… desculpa… Não fiques aí parada! — gritou a senhora. — Vai buscar o pó de talco. — Salvacion obedeceu. Quando voltou para a sala com o pó de talco e um pano húmido, ajoelhou-se aos pés do convidado e começou a limpar a nódoa.

Eram quase duas da manhã quando os convidados se foram embora. Salvacion entregou-lhes os casacos, um a um. Pegaram neles sem olhar para ela, enquanto se iam despedindo dos donos da casa. — Foi uma noite esplêndida — disse uma senhora, enquanto o marido a ajudava a vestir o casaco. — Vêm aí tempos negros para nós — profetizou um outro, já à porta. A patroa beijou-o, dizendo com voz doce: — E por isso que temos de estar unidos, fazer uma resistência humana. — A definição agradou também aos outros. — Sim, uma resistência humana — repetiram, divertidos, quase em coro, e dirigiram-se para as escadas.

Quando Salvacion acabou de arrumar a cozinha, já passava há muito das três horas. Foi para a cama. Sentia-se muito cansada e, ao mesmo tempo, muito desperta. Era sempre assim, quando estava agitada. Deu voltas e mais voltas na cama antes de conseguir adormecer. Às seis e meia da manhã, quando o despertador tocou, desligou-o e voltou-se para o outro lado. Abriu os olhos meia hora depois. Era tarde demais para rezar as suas orações. Vestiu-se sem se lavar e foi a correr para a cozinha. Nesse dia, o doutor e a mulher passaram o dia todo na universidade. Salvacion aproveitou para fazer as maiores limpezas.

A quinta-feira chegou num abrir e fechar de olhos. À tarde, estava de folga, não via chegar a hora de sair, de ficar sozinha com os seus pensamentos. — Tem cuidado — disse-lhe a patroa, já ela estava à porta —, Roma é uma cidade muito grande, cheia de perigos. — Salvacion concordou. — Às seis, volto para casa. — Lá fora, havia um belo sol de Primavera, e as sementes das plantas voavam pelo ar. De tempos a tempos, uma entrava-lhe num olho e fazia-o chorar. Com passos seguros, Salvacion encaminhou-se para a igreja que já tinha visto muitas vezes, ao ir para o mercado. Era uma igreja moderna e imponente. Ao subir as escadas, sentiu-se tão feliz como se fosse ao encontro de um amigo. Empurrou a grande porta de bronze, mas a porta não se abriu. «Uma igreja não pode estar fechada», pensou, e deu a volta para ver se descobria a entrada lateral. Não havia entrada lateral. Então, Salvacion foi para uma paragem e esperou pelo autocarro. Saiu no centro da cidade, diante de uma pequena igreja encaixada entre duas casas. Lá dentro, cheirava a humidade, cheirava a adega. Nas duas primeiras filas, duas velhas desfiavam um rosário. Atrás delas, um pouco à parte, havia um homem gordo. Estava de cabeça curvada e, de vez em quando, batia na testa com o punho grosso. Salvacion ajoelhou-se ao fundo. O Sol, passando através de uma janela, iluminava um pedaço de fresco, atrás do altar, onde se via o pé de Jesus e os pezinhos de um anjo. Salvacion pediu perdão a Deus por se ter queixado do seu destino, nos dias anteriores. Quando a luz desapareceu atrás do altar, murmurou «seja feita a Tua vontade», e levantou-se. Já era tarde. Ao sair, encontrou um jovem capuchinho. Cumprimentou-a e ela correspondeu ao cumprimento. Como ele tinha estado durante alguns anos em missão nas Filipinas, falaram na língua de Salvacion. Na altura de se despedirem, ele disse-lhe que se chamava Andrea. Se ela precisasse de alguma coisa, encontrá-lo-ia sempre ali, naquela igreja.

O autocarro demorou quase meia hora a chegar e quando Salvacion abriu a porta de casa faltavam dez minutos para as oito. — Divertiste-te? — perguntou a patroa, mal a viu. — Sim, obrigada — respondeu Salvacion. Estava feliz por ter conhecido o tal frade e apetecia-lhe cantar. Entoou as primeiras notas ao abrir o frigorífico. Enquanto ali estava, diante da porta aberta, o doutor apareceu atrás dela. Ela estava acocorada ao pé dos legumes, ele estendeu os braços, apoiou-se aos bordos do frigorífico e disse-lhe «divertida, hem?», olhando-a de alto a baixo. Salvacion sentiu por um instante a perna do doutor nas suas costas. Deixou de cantar. Na sala, ouviu-se a voz da mulher: — O ketchup não está no frigorífico, está na prateleira da máquina de lavar a louça.

Nessa noite, Salvacion rezou mais do que era costume. Invocou o seu Anjo-da-Guarda e falou muito com ele. Quando abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira para lá meter as suas imagens sagradas, ficou paralisada como um rato ao ver uma serpente. Lá dentro, por cima do papel às florinhas, havia a página a cores de uma revista. Nessa página, em quatro fotografias diferentes, havia uma mulher nua com dois homens, também nus, um preto e outro não. Os homens pareciam cavalos. Antes de fechar a gaveta, reparou que um deles estava de peúgas. Levantou-se, foi até à janela e abriu-a. Na casa da porteira, ao fundo do pátio, ouvia-se o som estridente da televisão. Não podia dormir com aquele papel no quarto. Sem olhar, abriu outra vez a gaveta, pegou na folha, rasgou-a, meteu os pedaços num sobrescrito e atirou-o para a rua, para as trevas densas entre os prédios.

Nessa noite, o tempo mudou, a Primavera foi-se embora e chegou o Inverno. Foi justamente por causa da diminuição de temperatura que, no dia seguinte, o doutor adoeceu. Voltou para casa antes do almoço e meteu-se na cama, cheio de febre. À tarde, um amigo deles foi visitá-lo, deu-lhe uns remédios e aconselhou-o a ficar na cama pelo menos durante uma semana. Na segunda-feira seguinte, quando a mulher partiu para um congresso, já quase não tinha febre. À porta de casa, com as malas na mão, a patroa deu as últimas instruções a Salvacion. — Tem paciência — disse-lhe —, quando está doente, é como uma criança birrenta.

Lá fora, ainda estava frio e, como o aquecimento central estava desligado, tinham ido buscar os radiadores eléctricos para aquecerem a casa. À noite, Salvacion levou ao quarto do doutor um caldo quente. Antes de sair, perguntou se ele queria que desligasse o radiador, ele disse que não, que a febre: voltara a subir e que ainda tinha frio. Ao chegar à sala, Salvacion ligou a televisão. Estavam a dar uma telenovela, percebia pouco o que diziam, mas viu até ao fim. Na manhã seguinte, ao acordar, sentiu a nuca rígida. «Devo ter dormido torta», pensou, «ou então, sem saber porquê, estou nervosa.» Mal ouviu a campainha no quarto do doutor, foi a correr, escancarou as janelas e perguntou-lhe o que queria comer. — Hoje, sinto-me melhor — respondeu ele, espreguiçando-se, e pediu-lhe um café, um iogurte e um sumo de laranja. Salvacion voltou pouco depois com a bandeja, e pousou-a na mesa-de-cabeceira. Preparava-se para sair do quarto quando o doutor a agarrou por um pulso. — Senta-te — disse —, andas sempre a correr. — Salvacion ficou em pé, resistindo debilmente com o braço. — Senta-te — repetiu o doutor em tom mais baixo, puxando Salvacion para a beira da cama. Ficaram em silêncio. Da rua vinha o rumor de um altifalante. Era o carro de um circo a anunciar o espectáculo dessa noite. O doutor sentou-se atrás de Salvacion, passou-lhe um braço pelo pescoço e, puxando-a para ele, perguntou-lhe baixinho ao ouvido: — Como é que se faz amor, na tua terra?
Nessa segunda-feira, Salvacion lavou-se por seis vezes. À tarde, o doutor, preocupado por não a ver sair, tocou a campainha do quarto. Salvacion não respondeu. Ao ouvir o rumor da água, o doutor pensou: «Está a tomar duche», e sossegou. Salvacion esfregava o corpo com fúria, queria que a água a lavasse mais por dentro do que por fora. Não serviu de nada, continuava a sentir-se suja. Um dia, a madre superiora tinha-lhe dito que assistira à libertação de um possesso. O homem, uivando, contorcia-se e batia em tudo. Salvacion gostaria de fazer como ele, apetecia-lhe gritar, atirar-se ao chão, bater com a cabeça no soalho até perder os sentidos. Em vez disso, mal saiu do duche, ajoelhou-se junto da cama e apoiou a cabeça no colchão. Não chorou, mas um soluço saiu-lhe do estômago. Vinha de tão fundo que a assustou. Se calhar, o demónio tinha mesmo entrado nela. Que seria dela, agora? Como poderia viver com aquele segredo? Sentia-se suja, e todos veriam aquela sujidade nos seus olhos. Nunca mais poderia olhar para a superiora, nunca mais poderia olhar para ninguém. Quando se fez escuro no quarto, acendeu a luz da mesa-de-cabeceira e tirou o Evangelho da gaveta. Leu por várias vezes: «perdoai-lhes porque não sabem o que fazem». Aquelas palavras ecoavam dentro dela como num quarto vazio. Não havia ali ninguém que pudesse ouvi-las, ninguém que as pudesse compreender. A certa altura, os ruídos das casas em redor foram diminuindo. O despertador marcava as duas horas. Salvacion meteu-se na cama. Tinha frio, enroscou-se toda, abraçou-se. Ainda tinha uma das faces a arder, no sítio onde o doutor, gemendo, esfregara a barba por fazer.

Na manhã seguinte, a patroa voltou. Mal a viu, disse: — Que má cara! Não me digas que te constipaste! — Salvacion abanou a cabeça. Às dez horas, o doutor saiu e a patroa foi para o escritório corrigir trabalhos dos alunos. Salvacion decidira que, às dez e meia, lhe contaria tudo. Tinha de o fazer. Às dez e vinte e nove, bateu à porta, às dez e trinta estava diante da patroa. — O que queres, Salvacion? — perguntou ela, sem levantar os olhos de um papel. Salvacion ficou em silêncio, cravando as unhas de uma mão na palma da outra. — Então? — repetiu a patroa. — O que queres? — Salvacion respirou fundo e disse: — Acabou o detergente para a máquina da louça.

Nos dias seguintes, tudo se passou como de costume. Só o doutor é que se aproximava mais dela, quando estavam sozinhos numa das divisões. Na quarta-feira à noite, enquanto fazia o jantar, tinha aparecido atrás dela e com a virilha empurrara-a para o fogão. Com a mulher continuava a ser simpático, beijava-a quando chegava a casa, passava-lhe um braço pelo pescoço quando estavam sentados no sofá. Era por isso que Salvacion não tinha dito nada: não queria dar um desgosto à patroa.

Na quinta-feira de manhã, acordou um pouco mais leve. Às três da tarde, já estava à porta da rua. — Diverte-te! — disse-lhe a patroa, já ela ia a sair. Salvacion foi a correr apanhar o autocarro que ia para o centro da cidade. A porta da pequena igreja ainda estava fechada. Esperou nas proximidades, segurando a bolsa com ambas as mãos. Sentia-se um pouco mais aliviada. Não tardaria a poder falar, a confessar-se. Quando o sacristão abriu a porta, entrou discretamente; era a única pessoa no interior da igreja. Sentou-se e ficou por uns instantes em recolhimento. De vez em quando, levantava os olhos para ver se o padre Andrea já tinha chegado. Por volta das cinco horas, chegaram três ou quatro velhotas para o terço. Salvacion ganhou coragem, levantou-se e foi à sacristia. Estava lá um padre, a paramentar-se. — Desculpe — perguntou —, o padre Andrea não está? — O padre Andrea foi fazer um retiro — respondeu o religioso —, volta para a semana. — Salvacion ficou imóvel. — Queres deixar algum recado? — perguntou-lhe o padre, já a caminho do altar. — Não — disse Salvacion —, não importa, passo por cá noutro dia. — Nessa noite, a patroa disse-lhe: — Preciso de falar contigo. — E foram para o quarto. — Salvacion, ando preocupada contigo, a tua cara não me agrada nada. Tens a certeza de que te sentes bem? Repara bem, estás cá sem licença, se te acontecesse alguma coisa, as maçadas que nós não teríamos! — Eu bem, senhora — respondeu Salvacion —, não preocupar. — Afinal — continuou a patroa —, és tão novinha que poderias ser minha filha; é como mãe que te falo. — A patroa fez uma pausa. — Sabes, há muitas maneiras de não ter filhos. Se quiseres, e se não sabes quais são, eu levo-te a um médico, ele explica-te tudo e nós ficamos mais sossegados. — Obrigada, senhora — respondeu Salvacion. Depois, com uma coragem que julgava não ter, pediu-lhe o seu primeiro ordenado. Nessa noite, os patrões estavam fora e Salvacion ficou no quarto a ver televisão. Era um documentário sobre as barreiras de coral, e as cores do mar e das ilhas pareciam as da sua terra. «Há peixes», dizia o locutor, «que, embora sejam pequenos, não são devorados pelos peixes grandes. O peixe-papagaio, por exemplo, vive protegido pelos tentáculos urticantes das anémonas-do-mar. A selecção evolutiva levou-o a adoptar esse comportamento, que acabou por resultar. No mundo movimentado e cruel do oceano, é mais fácil viver a dois.» É mais fácil sobreviver a dois, disse para consigo Salvacion, vestindo a camisa de noite. Mal se meteu na cama, lembrou-se da sua colega de carteira dos tempos do colégio. Tinham temperamentos muito diferentes, porque a amiga andava sempre triste. Durante a adolescência, e por mais que ela lhe quisesse mostrar o lado belo da vida, falava muitas vezes em matar-se. «Há só uma maneira de o fazer», dissera-lhe numa manhã de domingo, enquanto passeavam pela praia. «Entro no mar e vou sempre em frente, até desaparecer coberta pelas ondas. Seria uma morte suave, não achas?» Dessa vez, Salvacion não respondera, não conseguia compreender como se podia desejar a morte.

No sábado de manhã, acordou com uma impressão no ouvido. Devia ter entrado água, na noite anterior, enquanto tomava duche. Mal mexia a cabeça, ouvia o rumor do mar, como se ouve quando se encosta um búzio ao ouvido. Antes de sair para ir às compras, foi ter com a patroa e pediu-lhe o seu dinheiro. — Só te dou metade — disse ela, abrindo a carteira —, porque, durante os primeiros três meses, continuas à experiência. — À frente do mercado, ficava o edifício dos Correios. Salvacion mandou o dinheiro à família, e mandou também um postal, dizendo que se lembrava muito deles e que os amava muito. À hora de almoço, os patrões partiram para o campo. Despediu-se deles e ouviu as suas recomendações. Quando a prima telefonou a pedir-lhe para passarem o domingo juntas, disse-lhe que estava com febre. Às seis horas, foi assistir à missa na tal igreja grande e moderna. O tempo estava bom e havia pouca gente. As palavras do padre ecoavam como num barracão. No fim da missa, antes de sair, Salvacion murmurou: «Senhor, perdoa-me, já não sou digna do teu amor. Antigamente, conhecia os planos que tinhas para mim, mas, agora, já não os conheço, ou não consigo compreendê-los.» Quando se benzeu com a água benta, sentiu uma lágrima correr-lhe ligeira pela face direita.

Nessa noite, não conseguiu dormir. Estava calor e passou muito tempo no terraço, a olhar para as estrelas. Vestiu-se pouco antes de o sol aparecer no horizonte: já estava na rua quando começou a amanhecer. Precisava de se descontrair, de respirar. Esperou muito tempo pelo autocarro, depois apanhou outro e, em seguida, meteu-se no metropolitano. Quando chegou à praia, já passava das sete. A areia estava suja, cheia de sacos e garrafas de plástico. O rumor do mar era o mesmo em todo o lado. Se fechasse os olhos por um instante, podia pensar que estava em casa. Descalçou as sandálias. Mais à frente, estava um velho imponente, sentado num banquinho minúsculo. Tinha uma cana de pesca na mão. Quando Salvacion passou por ele, seguiu-a com o olhar. Quatro ou cinco gaivotas sobrevoaram em silêncio a linha de rebentação. Salvacion pensou que devia ser bom ser como elas, ver as coisas todas lá de cima, sem se estar dentro delas. A certa altura, voltou-se e viu que o homem já estava longe. Bateu com um pé em qualquer coisa, curvou-se, tirou a areia. Era uma boneca. Alguém — ou o mar — lhe tinha arrancado uma perna, em vez dela havia um buraco que lhe chegava ao queixo. Limpou-lhe os olhos, inclinou-a, os olhos abriram-se. Eram olhos de vidro, azuis. Ergueu o braço para a atirar à água, mas mudou de ideia e sentou-a de frente para as ondas. Voltou-se também para o mar, meteu um pé na água, depois o outro e começou a avançar. As ondas eram grandes e frias, mais do que ternas carícias eram bofetadas. «Será que aqui também há peixes-papagaio?», pensou. Sentia-se estranha. Era ela, Salvacion, quem andava na água e se via a andar na água? Nunca lhe tinha acontecido uma coisa assim. Quem era a Salvacion? A que caminhava ou a que se via caminhar?

Mal a água lhe chegou ao queixo, sentiu um arrepio de frio e parou por um instante. Pensou: «Os peixes-papagaio têm a sua anémona, e os homens têm o seu anjo-da-guarda.» Uma nuvem pequena e redonda tinha escondido o sol. A água, antes azul, passou a ser da cor do aço. Quanto se teria afastado da costa? Voltou a cabeça para a praia. Viu-o e ouviu-o, ao mesmo tempo. Na areia molhada, surgido do nada, estava um cão. Era bastante alto, mas magro, e tinha muito pêlo, claro em muitos sítios, sujo de alcatrão. Estava com as patas da frente dentro de água e ladrava-lhe, como se quisesse brincar. Os olhos eram tristes e atrevidos. Salvacion voltou a olhar para o mar alto. Ao longe, passava um petroleiro. Mais perto, ouvia-se o ruído de um motor. Não era o ruído de um barco grande, parecia o zumbido de um mosquito enorme. Ao fundo, à esquerda, entrevia-se um ponto minúsculo. O cão ladrou mais uma vez e mais alto. Salvacion voltou-se de novo para ele. Alguém lhe tinha dito que os animais não suportam o olhar do homem. Já sabia que não era verdade. Com a boca meio fechada e as orelhas arrebitadas, o cão olhava-a, esperando por uma resposta. Vens ou não vens? Até àquele momento, nunca tinha visto um cão sorrir. Então, sorriu também: «Já vou!», disse ao cão, e ergueu a mão para o saudar. O cão começou a abanar a cauda e meteu-se na água para ir ao seu encontro. Agitando o braço, Salvacion deu quatro ou cinco passos na sua direcção. O ruído do motor já estava muito perto. Já não parecia um mosquito, mas uma mosca, um moscardo que voava veloz. De onde viria? pensou. Entretanto, viu a cabeça do cão aparecer na água, uma espécie de mota que corria para ela, tinha dois esquis e quase não tocava na água, na mota havia um rapaz de tronco nu, todo curvado sobre o guiador. Salvacion ergueu os braços e abriu a boca para gritar «não!». A boca encheu-se-lhe de água, por cima de si viu alastrar uma mancha vermelha. O sol batia à tona da água, fazendo-a brilhar. Antes de tudo ficar escuro, pensou: «Onde é que estão os peixes-papagaio?»

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