A guerra contra as crianças – Claire Brisset

Setembro às 7:51 pm | Publicado em ambição, cativeiro, corrupção, denúncia, exploração, sofrimento, violência | Deixe um comentário
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Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados


É difícil estabelecer o quadro de honra da violência contra as crianças, visto esta poder assumir um sem-número de formas. Difícil, mas não impossível. À cabeça desta lista encontra-se, sem qualquer margem para dúvidas, a guerra – a guerra contra as crianças.
Em 1989, o mundo inteiro foi tomado por um devaneio, uma ilusão generalizada. Um sistema desabava no Leste da Europa e consigo toda uma ideologia centenária. Na altura pensava-se que a competição político-belicista que acompanhou passo a passo esse desmoronamento se iria desvanecer quase instantaneamente. Todas as guerras e conflitos exportados para todo o mundo por esse confronto em que se digladiavam valores contraditórios iriam finalmente apaziguar-se. Especialmente para aqueles que tinham vivido o período imediatamente anterior à Segunda Guerra Mundial, esta ilusão evocava a célebre frase de Chamberlain quando, ao regressar da Alemanha, bradava, à saída do avião, agitando uma folha de papel com o texto dos acordos de Munique: “Trago-vos a paz para o nosso tempo.” As consequências dessa miragem não se fizeram esperar.
Fim da ilusão. O desmantelamento do Império Soviético não só não deu início a nenhum período de paz, como os conflitos não pararam de se intensificar desde então, tanto a sul como a norte do planeta: Conflitos internacionais e sobretudo conflitos civis, sendo estes tão mortíferos como os primeiros. O envolvimento de civis nestas guerras, e entre eles, de crianças, não pára de crescer.
Os números falam por si. Desde 1945, cento e cinquenta conflitos mancharam de sangue o planeta e, há actualmente oitenta países à mercê da violência e da guerra. Quer sejam guerras de pequena dimensão, quer conflitos de enorme amplitude, pouca é a diferença para a população civil, no seio da qual as vítimas se contam aos milhões. De facto, nos últimos dez anos, as guerras mataram mais de dois milhões de crianças. Feriram ou incapacitaram, muitas vezes definitivamente, mais de cinco milhões e traumatizaram psicologicamente perto de doze milhões. O número de órfãos, de crianças separadas da família, arrancadas ao seu lar e à sua terra, é ainda maior. Por último, e derradeira consequência desta violência, as forças armadas recrutam hoje em dia crianças-soldados na ordem das centenas de milhar, as mais jovens das quais terão apenas seis anos de idade.
Mas, dir-se-á, o envolvimento de crianças em conflitos armados não é nenhuma novidade. Nas guerras de outros tempos, perde-se a conta do número de cidades incendiadas ou de civis exilados. Basta recordar que a Cruzada das Crianças, em 1212, lançou para as ruas de toda a Europa cerca de 30 000 crianças mobilizadas para a libertação da Terra Santa. E que Condé ou Turenne, com pouco mais de quinze anos, já comandavam regimentos inteiros de crianças. Frederico o Grande e, posteriormente, Napoleão, tampouco hesitavam em recrutar soldados muito jovens. Por fim, Hitler, a meio da Segunda Guerra Mundial, mandou recrutar para o exército alemão batalhões inteiros de adolescentes.
Tudo isto é certo, está provado e constitui um facto histórico. Por outro lado, a palavra “infantaria”, já nos diz tudo. In-fans, aquele que não fala, é a criança de tenra idade. A expressão acabou por designar a tropa, a tropa terrestre, “a rainha das batalhas”, como dizia Napoleão. Mas esses exércitos dos tempos passados também inventaram a farda militar, cuja única função consistia em distinguir os civis dos militares. E ao longo dos séculos, fomos começando a acreditar num progresso da consciência moral: pouco a pouco, as sociedades estavam a começar a aprender a proteger os civis nos conflitos, em particular as crianças. Em pleno campo de batalha da guerra da Crimeia, Henry Dunant concebeu o que viria a ser a Cruz Vermelha Internacional, um conjunto de fundamentos segundo os quais os civis devem ser poupados e os feridos tratados, independentemente da facção a que pertencem, algo que viria a contribuir para “humanizar” as guerras. Henri Dunant chegou mesmo a receber o Prémio Nobel da Paz por este feito.
“Humanizar” a guerra, poupar os civis… O que se verificou foi exactamente o contrário. Os conflitos do século XX, qual deles o pior, foram um espelho disso. A Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil de Espanha e sobretudo a Segunda Guerra Mundial fizeram com que as crianças entrassem em massa nos conflitos como actores, mas principalmente como vítimas, vítimas da violência cega dos campos de concentração e dos bombardeamentos que se abatem indiscriminadamente sobre as populações civis. E quem paga hoje em dia o preço desta evolução são as crianças, um preço cujo impacto é difícil de calcular.
Depois da Guerra Civil de Espanha e sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, foram-se aperfeiçoando as técnicas para atingir não só as forças de combate, mas também as suas bases na retaguarda, a sua economia e as suas infra-estruturas, mas também os seus suportes psicológicos e afectivos, ou seja, acima de tudo, as mulheres e crianças. Quando o exército alemão bombardeou Guernica e, mais tarde, Coventry, quando os Aliados arrasaram Dresden e os americanos largaram a primeira bomba atómica sobre Hiroshima, a ideia era obviamente aplicar um golpe fatal não tanto às forças de combate, mas à população em geral. Tanto pior, ou mesmo tanto melhor, se entre os alvos atingidos figurasse a mesma quantidade de objectivos civis do que a de pontos estratégicos militares. Graças às armas modernas e aos bombardeamentos aéreos, a guerra entrou numa nova era. Que se cruzou, na mesma altura, com a concepção industrial da limpeza étnica – foi devido a técnicas avançadíssimas que se pôde aspirar à extinção total de grupos humanos considerados indesejáveis, como os judeus ou os ciganos, não fazendo qualquer distinção entre homens, mulheres e crianças. Todos nós assistimos, pelo desenrolar dos acontecimentos, ao sucesso florescente desta concepção da guerra.

Segue: A “criança-alvo”

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