A guerra contra as crianças III

Setembro às 9:16 pm | Publicado em denúncia, exploração, miséria, sofrimento, violência | 2 comentários
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 Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

Anterior: A “criança-alvo”

Abatidas, refugiadas no silêncio

Mas a história não acaba aqui. A guerra não afecta só o bem-estar das crianças por intermédio de bombas, granadas e minas. Ela mata muito mais eficazmente quando interrompe todos os circuitos da produção agrícola, quando bloqueia todas as redes de comunicação e quando impede o fornecimento de géneros alimentares ou de medicamentos. A guerra destrói os sistemas de alimentares ou inunda-os de feridos, impede a medicina preventiva, as campanhas de vacinação e favorece o aparecimento de surtos de epidemias, da fome e da pilhagem da ajuda externa.
Na Somália, estima-se que a guerra tenha feito desaparecer entre metade e três quartos das crianças com menos de cinco anos. Mas só um pequeno número terá sido vítima dos efeitos directos dos combates, dos tiros da artilharia e dos bombardeamentos. Quase todas morreram de fome e da completa e total desorganização da vida económica e social em que o país se encontra.
O mesmo esquema repete-se um pouco por todo o lado. Na Etiópia, durante a grande fome dos anos 1984-1985, a esmagadora maioria das vítimas sucumbiu mais rapidamente à malnutrição e às epidemias do que à guerra propriamente dita. No Camboja, durante o regime dos Khmers Vermelhos, não foram as execuções sumárias, a tortura ou os massacres que provocaram o maior número de mortos (se bem que ainda não se saiba a que escala foram praticados), mas a deportação maciça, os trabalhos forçados e a malnutrição.
A desorganização da vida económica nem sempre é um subproduto espontâneo da guerra. De facto, raramente o é. Muito frequentemente, resulta de uma deliberada política de terra queimada, levada a cabo pelas facções em conflito que destroem pontes, estradas e vias ferroviárias e regam a napalm ou a produtos tóxicos o território inimigo. Ou então, como foi o caso do Camboja, assiste-se a uma tentativa demente de “reorganização” do país, com base em teorias perfeitamente disparatadas.
A guerra destrói, então, tudo o que as crianças necessitam para viver e para se desenvolverem. Ela priva-as, em primeiro lugar, dos próprios pais, umas vezes fisicamente em consequência dos combates e massacres, e outras por causa do caos geral que instaura. Foi assim que no fim do Verão de 1994, mais de cento e dez mil crianças ruandesas foram recolhidas pelas organizações humanitárias, não só porque um grande número de adultos tinha desaparecido devido aos assassinatos ou à cólera, mas também porque, no pânico da fuga para a fronteira Este com a República Democrática do Congo, muitas crianças se perderam, afastando-se inexoravelmente das familias.
O que acontecerá a estas crianças que, depois de terem assistido a massacres, se vêem sós, paradoxalmente sós no meio de milhares de outras, nessas enormes instituições, nesses orfanatos onde, apesar de uma imensa boa-vontade se torna praticamente impossível realizar qualquer tratamento individual ou recriar laços reais, esses laços sem os quais uma criança é incapaz de se projectar no futuro? As sequelas psicológicas das guerras “modernas” são muitas vezes tão graves quanto as sequelas físicas com as quais as crianças têm de viver. Algumas saltam imediatamente à vista – crianças abatidas, refugiadas no silêncio, por vezes até incapazes de chorar, ou de contar o que sofreram; crianças violentas, agressivas, ou, pelo contrário, apáticas, passivas. Crianças desapossadas de si próprias, desprovidas dos seus objectos de afeição, de identificação. Crianças que se mutilam, que se culpam por estarem vivas quando tantas outras estão mortas. Outras vezes, as feridas psicológicas não são aparentes e a criança parece relativamente insensível face ao que lhe aconteceu. Mas essas feridas irão irromper mais tarde, na adolescência ou na idade adulta, quando a “cicatrização” já se tiver tornado irremediavelmente impossível.
Uma das melhores curas e uma das únicas formas de se conseguir ajudar estas crianças a regressar à vida passa pela reactivação das escolas. Mas as escolas também sofreram as consequências da guerra, e quase nunca por acaso. É desta forma que em Moçambique, quando a guerra chegou ao fim em 1993, dois terços das crianças já não tinham qualquer acesso ao ensino primário. No Camboja, os Khmers Vermelhos eliminaram, arrasaram, toda e qualquer forma de sistema escolar, símbolo de uma cultura maldita. Na Etiópia e na Somália, com as escolas destruídas e os professores enviados para a frente de batalha, já nada resta do antigo sistema de educação, já de si deficitário, nas províncias do norte e do este. Quanto às crianças ruandesas refugiadas na República Democrática do Congo, não tiveram qualquer acompanhamento escolar durante três anos.
No entanto, sabemos que uma das primeiras medidas a ser levada a cabo no fim dos conflitos não passa apenas por retirar as crianças das imensas instituições onde foram colocadas de urgência para as devolver aos familiares, mesmo afastados, ou a famílias de acolhimento; tampouco se limita a oferecer-lhes alimentação e cuidados adequados. Consiste também em recriar condições para uma escolarização, mesmo que rudimentar, para que elas possam reaver ao menos um vislumbre de uma vida de criança; para que lhes sejam restituídos os objectos de investimento que a guerra lhes roubou por completo. Tem-se tentado pôr em prática diversas estratégias, embora ainda não seja possível avaliar o seu impacto: psicoterapias de grupo, terapias através do jogo e do teatro, cerimónias de luto colectivas, rituais tradicionais. Todas estas estratégias, por mais necessárias que sejam, podem parecer insignificantes face aos dramas insondáveis que estas crianças viveram. Sem a reconstituição de autênticos laços interpessoais, sem a libertação da palavra que exteriorize os dramas inscritos na memória, corre-se o enorme risco de o trauma se instalar, talvez para sempre. E por vezes também, o risco do aparecimento da violência como único meio possível de expressão. Violência que é dirigida aos outros, mas também a si própria.

 

Segue: O efeito perverso dos embargos 

2 comentários »

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  1. Parabéns, uma visão realista do sofrimento humano, principalmente das crianças em meio ao abandono da sociedade capitalista.
    Adorei, maravailhoso.
    Ate mais.

  2. Toda desgraça e maldade humana está fundada na estrutura do Capitalismo Selvagem; é dele que brotam as articulações para a escravização da humanidade. Não respeita mulheres, crianças, idosos, comunidades primitivas, a natureza e soberania dos povos. Seu mister é acumular, o quanto mais puder. Para isso armam exércitos mercenários e criam instituições e tribunais internacionais para manter forte o domínio geográfico da falsa democracia.
    jorn. weller marcos – Movimento de Revolução Cultural -No Caminhar dos Pés Descalços


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