A guerra contra as crianças VI

Setembro às 9:42 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, miséria, sofrimento, violência | 1 Comentário
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Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

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A criança treinada para matar


O auge deste circo de horrores é precisamente atingido pelo recrutamento de crianças-soldado. Quantos “soldados” de seis, oito e doze anos existirão por esse mundo fora? A última estimativa credível remonta ao ano de 1988. Nessa altura, atingia já o número pungente de duzentos milhares de crianças. Mas isto foi antes dos conflitos do Ruanda, do Burundi, da Libéria, da Serra Leoa, antes da explosão do conflito na Jugoslávia, antes ou mesmo durante a guerra entre o Irão e o Iraque, mas em todo o caso, antes de serem tornadas públicas as atrocidades que tiveram lugar neste último conflito.
Esta estimativa encontra-se assim claramente desactualizada, e neste momento é impossível proceder a um novo estudo. Mas todos os que se deslocaram recentemente aos campos de batalha, principalmente em África, são testemunhas da notória juventude de alguns “combatentes”. Tivemos oportunidade de ver com os nossos próprios olhos grupos de “soldados”, no Ruanda, em que os mais velhos nem sequer doze anos tinham. No Camboja, as facções que ainda hoje continuam a assassinar-se pelo poder mantiveram certos hábitos do tempo de Pol Pot e continuam a recrutar soldados pré-adolescentes.
A história recente põe à nossa disposição um leque enorme de exemplos desta tendência, sendo que o mais abjecto de todos será o de obrigar crianças com apenas dez anos a matar e a torturar, às vezes os próprios pais, fazendo-lhes literalmente uma lavagem ao cérebro. Foi o que aconteceu ou ainda acontece em Moçambique, no Uganda, na Libéria e na Serra Leoa. No Afeganistão, na Nicarágua e em El Salvador, foram raptadas dezenas de milhares de crianças para irem engrossar as fileiras dos guerrilheiros e para as obrigar a cometer atrocidades a que os próprios soldados adultos às vezes se recusavam.
Por vezes, para chegar a este ponto, a violência ou a coacção não são suficientes. É necessário um doutrinamento, uma fanatização cuidadosamente organizados. Esta foi a política adoptada pelo Irão durante a guerra com o Iraque. Por deliberação dos dirigentes, não se podiam perder muitos homens válidos nos campos de minas. Para desminar, as crianças serviam muito bem. Então, explicava-se-lhes no meio de reuniões “religiosas” que elas iriam servir o seu país, e mais tarde, alcançar directamente o paraíso. Para tal, foram instruídos actores encarregados de lhes mostrarem o caminho e que, a dado momento, davam o sinal de partida. E foi assim que vimos milhares de crianças precipitando-se sobre campos de minas, levando ao pescoço chaves de plástico, as chaves do paraíso, e gritando antes da mina explodir a seus pés: “Allah Akbar!” Pensa-se que cerca de cinquenta mil crianças iranianas terão morrido assim em nome de Deus. Menos sorte tiveram as sobreviventes, enclausuradas durante anos nas prisões iraquianas, mortificadas por terem sobrevivido, aterrorizadas com a ideia de voltar ao seu país, envergonhadas por ainda estarem vivas.
Mas em certas ocasiões, o recurso à religião não basta. É nesse caso que intervém uma técnica que consiste em fazer com que a criança cometa repetidamente atrocidades, de preferência sobre a sua própria família. Este método foi abundantemente utilizado em Moçambique pela Renamo, guerrilha nessa altura financiada pela África do Sul, e mais recentemente pelas facções em conflito na Libéria e na Serra Leoa. Os “meninos-lobos”, como eram apelidados em Moçambique, eram obrigados a matar, a matar os parentes, de maneira a destruírem quaisquer laços afectivos que os ligassem à sua família, ficando assim completamente dependentes da guerrilha que os tinha raptado. Obrigadas a assassinar os pais, os camponeses e as pessoas mais próximas, as crianças tornar-se-iam dóceis; qualquer tentativa de voltar atrás seria impedida. A dado momento, a Renamo dispunha de pelo menos dez mil dessas crianças-soldado, as mais jovens das quais mal tinham completado os seis anos de idade. Em Angola, de acordo com um inquérito levado a cabo em 1995 , 36% do total de crianças do país tinham “acompanhado” ou ajudado os soldados.
Mas há situações que requerem algo mais, além da religião, do doutrinamento e da coacção. E é aqui que surge a droga. “Davam-nos marijuana e comprimidos” – conta-nos uma criança liberiana “desmobilizada” – “Quando se toma essas coisas, não se sente mais nada, não se pensa em mais nada que não seja matar.”
Porque razão alguns exércitos e algumas guerrilhas se interessam tanto pelas crianças- soldado que, a priori, se poderiam considerar inexperientes e pouco eficazes? Antes de mais há que ter em conta a escassez de soldados adultos – há alturas em que os exércitos precisam de mais mãos para trabalhar e, por isso vão-se buscar crianças para integrarem contingentes suplementares, como no caso da decisão tomada pelo exército nazi em 1944, de incorporar soldados de dezasseis anos.
Mas isto não é tudo. Segundo o raciocínio dos recrutadores, uma criança é infinitamente mais maleável, mais facilmente manipulável e condicionável do que um adulto; é menos propensa à revolta e mais sensível aos métodos de terror infligidos.
Não exige soldo nem qualquer gratificação especial, a não ser a sensação de pertencer a um grupo de recrutas, a um grupo onde seja reconhecida. Neste raciocínio entra também a ideia de que uma criança pode não se aperceber do que lhe estão realmente a pedir; de que a fronteira entre o bem e o mal ainda é indistinta para ela. Tendo em conta tudo isto, porque não aproveitar um recurso tão valioso, que abunda em excesso nos campos de refugiados, nos orfanatos, nas cidades e nas escolas?
Raptam-se então os rapazes, tal como pudemos assistir muito recentemente em vários cenários de conflitos armados, mas também se raptam meninas, situação que está a decorrer neste preciso momento a Norte do Uganda. O destino dessas meninas é o “casamento” com um soldado, a sujeição a relações sexuais, e a fazer tudo o que é necessário a um exército em movimento: cozinhar, limpar, etc. Várias centenas destas meninas ugandesas, raptadas pelo “Exército de Resistência do Senhor”, foram libertadas recentemente e estão actualmente em fase de tratamento. Mas existirá alguma forma de as resgatar verdadeiramente da guerra? Qual será a ajuda que lhes poderemos oferecer quando aquilo por que elas passaram está muito além da nossa imaginação? Também elas foram obrigadas a cometer atrocidades, a beber sangue humano, a sujeitarem-se a todos os delírios dos soldados. Quando isto acontece a uma criança de oito, nove anos de idade, o que fazer para que ela se reconcilie de novo com a vida?
Para algumas destas crianças, o condicionamento e a solidão são de tal maneira extremos que o exército se torna, paradoxalmente, no seu único refúgio, no único lugar com que se conseguem identificar, uma espécie de substituto da família que perderam. Em Maio de 1993, o governo da Serra Leoa ordenou a desmobilização de todos os soldados com menos de quinze anos. A “desmobilização” foi, no entanto, mais problemática do que se previa inicialmente. É absolutamente indispensável um trabalho de equipa que as consiga dissociar da nova “família” que pensavam ter encontrado, sem que se sintam órfãs uma segunda vez.
O progresso tecnológico do armamento militar também faz com que o recrutamento de crianças-soldado se vá tornando cada vez mais fácil, dada a proliferação de armas leves ou de pequeno calibre. Antigamente, as armas eram demasiadamente grandes ou pesadas para elas. Hoje em dia a história é outra. Uma espingarda de assalto de origem soviética AK 47 ou uma M 16 norte-americana são ao mesmo tempo leves, fáceis de montar e desmontar e bastante acessíveis. O “preço corrente” de uma AK 47, por exemplo, é neste momento inferior a dez dólares em África e existem M 16 disponíveis em todo o lado.
Com efeito, os responsáveis por este alistamento maciço de crianças na guerra andam de mãos dadas com aqueles que compram as armas e as colocam à disposição de todos, e aqueles que as vendem. Todos lucram com isso. Lucros militares por um lado, lucros comerciais por outro. O negócio das minas continua de vento em popa, não obstante os esforços meritórios de todos aqueles que lutam para que elas sejam completamente banidas. No entanto, o mercado dos armamentos tradicionais vai proliferando a uma escala bem maior. De resto, os números falam por si, ao revelar que os orçamentos militares de todo o mundo, em francos ou em dólares constantes, se multiplicaram por quinze a partir de 1945, tendo atingido em 1993 os valores alucinantes de 790 biliões de dólares (destes, 121 biliões foram gastos pelo Terceiro Mundo). É verdade que esta quantia revela uma ligeira diminuição em relação ao pico histórico atingido em 1987, o que significa que pelo menos neste aspecto, o desmoronamento do Império Soviético teve a sua utilidade. Mas os números continuam a ser impressionantes, sobretudo se os compararmos com os orçamentos destinados em todo o mundo às áreas da educação e da saúde e os que se referem à totalidade dos serviços destinados às crianças, em que as quantias envolvidas são cerca de cem vezes inferiores.
No entanto, não apontemos o dedo acusador aos progressos tecnológicos nem aos interesses económicos. O culpado é ainda, e sempre, o mais profundo desprezo em relação à criança. Recrutar crianças, manipulá-las, obrigá-las a matar ou a torturar, são ideias que à partida não decorrem de estratégias financeiras, embora os traficantes de armas acabem por beneficiar largamente desta situação. Elas são uma opção deliberada de estrategas em ponto pequeno que arrancam as crianças das escolas e forçam a guerra a entrar nas suas vidas e para sempre. Essa escolha é uma escolha racional, deliberada, calculada. O mundo saturado de imagens e de horrores em que vivemos ainda não conseguiu avaliar bem a amplitude dessa abjecção. De que é que estará à espera?

1 Comentário »

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  1. Sei somente que estas coisas acontecem, mas gostaria de saber se existe alguém fazendo alguma coisa, pra que não venham mais a acontecer.
    Como a ONU tem agido diante dessa situação?
    O que existe pra coibir estes fatos?


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