A nova escravatura II – Tailândia: Porque ela parece uma criança

Setembro às 7:31 pm | Publicado em cativeiro, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, sofrimento, violência | 1 Comentário

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)

Tailândia
Porque ela parece uma criança

Quando Siri acorda é perto do meio-dia
No momento em que acorda, ela sabe exactamente quem e o quê passou a ser. Como me explicou, a dor nos genitais fá-la recordar os quinze homens com quem teve sexo na noite anterior. Siri (os nomes foram mudados) tem quinze anos. Vendida pelos pais um ano antes, a sua resistência e o seu desejo de fugir do bordel estão a fraquejar, substituídas pela aceitação e a resignação.
Na cidade provincial de Ubon Ratchitani, no Nordeste da Tailândia, Siri trabalha e vive num bordel. Cerca de dez bordéis e bares, edifícios degradados e sujos, alinham-se ao longo da rua, mesmo ao virar da esquina de uma alameda comercial de estilo ocidental. Há vendedores de comida espalhados entre os bordéis. A mulher que está por trás das tendas de talharim fora do bordel onde Siri trabalha é também espia, carcereira, cão de guarda, alcoviteira, para Siri e para as outras vinte e quatro raparigas e mulheres do bordel.
O bordel está rodeado por um muro com portões de ferro para a rua. Dentro do muro há um pátio poeirento, uma mesa de piquenique em cimento, e a ubíqua casa do espírito, pequeno templo no exterior de todos os edifícios tailandeses. Uma porta baixa leva a uma sala de cimento sem janelas, impregnada do cheiro a tabaco, cerveja choca e suor. É a sala de «selecção» (hong du). A um lado da sala há cabinas e mesas enferrujadas; no outro lado há uma estreita plataforma elevada com um banco a todo o comprimento da sala. Focos de luz apontam para o banco, e à noite as raparigas e as mulheres sentam-se ali sob o clarão, enquanto os homens sentados às mesas bebem e escolhem aquela que querem.
Passando por uma porta, no extremo do banco, o homem segue a rapariga até à janela onde um caixeiro recebe o dinheiro e regista qual a rapariga que ele leva. Dali é conduzido ao quarto da rapariga. Por trás da sala dianteira de cimento, o bordel degenera ainda mais num barracão dividido em minúsculos cubículos onde as raparigas vivem e trabalham. Uma escada improvisada sobe para aquilo que pode ter sido em tempos um celeiro. O nível mais alto está agora guarnecido de portas, afastadas cerca de cinco pés umas das outras, que abrem para quartos de cerca de metro e meio por dois metros e vinte, onde cabe uma cama e pouco mais. Pedaços de madeira e de cartão separam os quartos uns dos outros, e Siri forrou as suas paredes com quadros e cartazes de jovens estrelas pop recortadas de revistas. Por cima da sua cama, como na maior parte dos quartos, está também pendurado o retrato do rei da Tailândia; uma simples lâmpada pende do tecto. Ao lado da cama há uma grande lata com água; há um gancho ao lado para roupas e toalhas. Aos pés da cama, junto à porta, há algumas roupas dobradas sobre uma saliência. As paredes são muito finas e houve-se tudo dos quartos vizinhos: um grito do guarda-livros ecoa por todos eles, estejam as portas abertas ou fechadas.
Depois de se levantar ao meio-dia, Siri lava-se com água fria da única tina de cimento que serve as vinte e cinco mulheres do bordel. Depois, vestindo uma t-shirt e uma saia, vai à tenda de talharim para a sopa quente, que é o pequeno-almoço tailandês.
Por volta das cinco horas, Siri e as outras raparigas são mandadas vestir, pintarem-se e prepararem-se para o trabalho da noite. Por volta das sete os homens começam a entrar, a comprar bebidas e a escolher raparigas, e Siri terá sido escolhida por um ou dois dos dez até dezoito homens que a comprarão nessa noite. Muitos homens escolhem Siri porque ela parece muito mais nova do que os seus quinze anos. Franzina e de rosto arredondado, vestida para acentuar a sua juventude, poderia ler onze ou doze anos. Porque parece uma criança, pode ser vendida como uma «nova» rapariga e a um preço mais alto, cerca de 15 dólares, o que é mais do dobro do cobrado pelas outras.
Siri tem muito medo de apanhar sida. Muito antes de compreender a prostituição, ela já sabia do HIV, pois muitas raparigas da sua aldeia voltavam para casa para morrer de sida depois de terem sido vendidas para bordéis. Todos os dias ela reza a Buda, tentando ganhar o mérito que a preserve da doença. Tenta também insistir com os clientes para que usem preservativos, e em muitos casos consegue-o porque o proxeneta a apoia. Mas quando os polícias se servem dela, ou o próprio proxeneta, fazem como lhes apetece; se ela tenta insistir, é espancada e violada. Receia também a gravidez, e tal como as outras raparigas apanha injecções da droga contraceptiva Depo-Provera. Uma vez por mês faz um teste de HIV, e até agora tem sido negativo. Sabe que se o teste for positivo será expulsa do bordel para morrer à fome.
Embora tenha apenas quinze anos, Siri está resignada a ser prostituta. Depois de ter sido vendida e levada para o bordel, descobriu que o trabalho não era aquilo que ela pensava que fosse. Como muitos tailandeses rurais, Siri teve uma infância protegida e ignorava o que seria trabalhar num bordel. O primeiro cliente magoou-a, e ela na primeira oportunidade fugiu. Na rua, sem dinheiro, foi rapidamente apanhada, arrastada, espancada e violada. Nessa noite foi forçada a receber uma cadeia de clientes até de madrugada. Os espancamentos e o trabalho continuavam noite após noite até que ela quebrou. Agora tem a certeza de que é uma má pessoa, muito má, para ter merecido aquilo que lhe aconteceu. Quando eu lhe disse como era bonita numa fotografia, como uma estrela pop, respondeu «não sou uma estrela; sou apenas uma puta, e mais nada». Faz o melhor que pode. Tem orgulho no seu preço mais elevado, e no grande número de homens que a escolhem. E a adaptação ao campo de concentração, um esforço para dar sentido ao horror. A prostituição é ilegal na Tailândia, mas raparigas como Siri são vendidas para a escravatura sexual aos milhares. Os bordéis que têm estas raparigas são apenas uma pequena parte de uma indústria do sexo muito mais vasta. Como pode este comércio grossista de raparigas continuar? O que é que o mantém em funcionamento? A resposta é mais complexa do que se poderia pensar; o boom económico da Tailândia, a sua cultura machista, e a sua aceitação social da prostituição, tudo contribui para isso. Dinheiro, cultura e sociedade misturam-se de modos poderosos para escravizar raparigas como Siri.

Segue: Uma rapariga vale um televisor

1 Comentário »

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  1. O que será da nossa civilizaçao em um futuro tão próximo?
    Aqueles que serão os principais atuantes da nossa sociedade estão sendo corrompido e destruídos…


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