A nova escravatura IV – Paquistão: Quando é que um escravo não é escravo?

Setembro às 7:08 pm | Publicado em ambição, cativeiro, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, fome, miséria, sofrimento, violência | Deixe um comentário

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos)

Paquistão
Quando é que um escravo não é escravo?

À luz suave da manhã, num ar ainda denso com o orvalho da noite, as crianças estão a misturar água e terra e a amassá-la em blocos que parecem pães. Tagarelam e riem enquanto trabalham. De momento o trabalho é fácil; o Sol está baixo e o dia ainda fresco. Pouco passa das seis horas da manhã e a família Masih já está a trabalhar há quase duas horas, a fazer tijolos. O trabalho das crianças — dois rapazes, de onze e nove anos, e uma menina, de seis anos — é essencial para a sobrevivência da família. Misturam e preparam o barro que será moldado em tijolos pelos pais. Usando uma enxada para cavar numa barreira na cova onde trabalham, as crianças desfazem depois a terra com as mãos. Felizmente este solo do Punjab não é muito pedregoso nem duro. A menina arrastou uma lata de água do poço, e as crianças misturam a água com a terra, fazendo o barro macio necessário para os tijolos. Quando o barro está misturado, atiram um bloco do tamanho de um pão para a mãe. Esta está agachada junto de uma longa fila de tijolos moldados pelo marido. Ela volta a amassar o bloco e polvilha-o com terra seca. Agora está pronto para o molde e ela empurra-o para o marido, que o agarra e o mete num molde de madeira. Batido dentro do molde, o bocado de barro faz um bloco sólido; o excedente é retirado, e um novo tijolo cru é colocado no chão para secar.
De dez em dez segundos um bocado de barro voa da criança para a mãe, para o pai e para o molde de madeira. A linha de tijolos no chão estende-se à medida que o Sol sobe por cima da cova. De vez em quando, o trabalho abranda, quando começa uma nova fila de tijolos e as crianças têm de esperar por mais água do poço. Ao fim de oitocentos tijolos, a manhã suave tornou-se num dia opressivo, quente e húmido. A temperatura é de 90 graus e o ar na cova é denso. As crianças param de conversar ou de rir; os seus movimentos são cada vez mais indolentes. Começam a ofegar e a suar, e aturdidas pelo calor trabalham como autómatos, cavando e misturando, cavando e misturando. Agora bebem mais da água trazida do poço, e enrolam pedaços de pano à volta da cabeça e dos ombros contra o sol. Quando estão alinhados mil e duzentos tijolos na cova, o sol e a humidade apertam-nos e eles estão a desfalecer de calor e de fome. Mesmo assim trabalham, cavando e misturando, mantendo o fluxo de barro para o pai, enquanto este molda tijolo após tijolo. Finalmente, depois de cerca de mil e quatrocentos tijolos, entre a uma e as duas horas da tarde, param. Agora, no maior calor do dia, o trabalho torna-se impossível, e eles arrastam-se de regresso à única divisão com chão de terra em que vivem, para comer uma refeição rápida e depois dormir. Dormir é a única maneira de suportar o grande calor do dia.
Ao fim de algumas horas o dia refresca um pouco. É tempo para mais duas ou três horas a cavar na barreira da cova, fazer um monte de terra solta e molhá-la para que esteja pronta de manhã. E claro que há também outro trabalho para fazer. A mãe está a preparar a principal refeição da noite, e se não estão a cavar na cova, o pai e os filhos podem estar a acartar, a arrastar ou a empilhar tijolos em volta do forno de tijolo. A família Masih é apenas uma das quinze famílias que fazem tijolos no forno, e por vezes, ao fim da tarde, as crianças das diferentes famílias podem ter tempo para brincar juntas.
As crianças são uma parte importante da força de trabalho num forno de tijolo no Paquistão. Trabalhando com os pais, misturam o barro para os tijolos crus. Outras crianças podem trabalhar com arrastadores, que transportam os tijolos crus das covas para o forno, ou podem ajudar a empilhar os tijolos no forno, um trabalho mais especializado. Se os tijolos não forem bem empilhados, o forno pode ruir, com consequências desastrosas. Mais tarde os tijolos quentes têm de ser tirados do forno e empilhados cá fora; quando são vendidos, devem ser carregados em carroças ou camiões e transportados. Antes que isso aconteça, é preciso transportar o carvão para o alto do forno e deitá-lo com pás para as fornalhas. A temperatura ali é muito superior aos 130 graus e os trabalhadores, incluindo as crianças, usam sandálias com solas de madeira grossas por causa do calor do forno. Por causa do seu calçado pesado, os trabalhadores andam com cuidado, e as crianças têm uma vantagem, porque quando os fogos se acendem no forno em baixo, por vezes o nível superior dos tijolos cede. Quando isso acontece, uma pessoa pode cair por ali adentro. Se os trabalhadores caem completamente no forno não há esperança para eles; a temperatura lá dentro é de mais de 1500 graus, e eles são instantaneamente incinerados. Se metem apenas uma perna ou o pé, pode haver esperança, dependendo da rapidez com que são puxados para cima e para fora. Mas as queimaduras serão graves e estropiantes.
Apesar do risco, as crianças continuam a trabalhar; as famílias precisam da sua ajuda para sobreviver. E muitas famílias, mesmo com os esforços das crianças, não se conseguem amanhar. O valor do seu trabalho significa que, ao visitar muitos fornos de tijolo no estado do Punjab, descobri que apenas uma mão-cheia de crianças iam à escola. Muitas vezes nenhuma criança está a receber escolaridade. Noutros casos, talvez três ou quatro rapazes podiam ir à escola (quando as crianças são mandadas à escola, as raparigas raramente estão incluídas). Em alguns fornos vinha um homem uma vez por semana para iniciar as crianças no Alcorão, mas eram apenas as crianças muçulmanas e excluíam as muitas crianças cristãs que também trabalhavam ali. Para as crianças dos fornos de tijolo, o trabalho é longo e duro, mas o trabalho duro e a diligência não garantem o sucesso.
Se as condições de trabalho não fossem suficientemente más, o sistema de trabalho nos fornos de tijolo apresenta outros perigos e sofrimentos. Virtualmente todas as famílias que fazem tijolos trabalham por uma dívida para com o dono do forno. Essas dívidas apresentam um perigo especial para os filhos. Por vezes, quando o dono de um forno suspeita de que uma família tentará fugir e não pagar a sua dívida, pode tomar um filho como refém para obrigar a família a ficar. Essas crianças são afastadas do forno e mantidas pela força, fechadas na casa do dono ou na casa de um parente. Ali põem-nos a trabalhar num qualquer trabalho que o dono decide e alimentam-nos com o mínimo possível.
Manter crianças como caução já é bastante mau, mas não é o pior aspecto do sistema. A dívida para com o dono do forno não acaba se o pai da família morrer. Em vez disso, passa para a mulher e para os filhos. Um rapaz de treze ou catorze anos pode ser sobrecarregado com uma dívida que carregará por muitos anos, talvez para toda a vida. A dívida herdada amarra-o ao forno e à incessante mistura e moldagem de tijolos crus. Além disso, o custo do funeral do pai será acrescentado à dívida. A herança da dívida é um factor-chave no tipo de escravização a que tenho chamado servidão por dívida, um sistema que mantém muitas famílias paquistanesas numa vida de labuta opressiva.

Deixe um Comentário »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

site na WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d bloggers like this: