O negócio da infância

Setembro às 6:58 pm | Publicado em corrupção, denúncia, exploração, fome, miséria, violência | Deixe um comentário
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Manuel Giraldes
in: Além-mar, Janeiro 2006

Na Etiópia, o tráfico interno de crianças ronda as dezenas de milhares. Raptadas, vendidas por familiares ou vizinhos, acabam nas grandes cidades. As meninas vão parar à prostituição ou são exploradas como escravas do lar, os meninos chegam a trabalhar mais de 14 horas por dia, em fabriquetas de têxteis ou tijolos, na construção civil. Há quem os tente ajudar, há até alguns que acabam por ser resgatados. Mas há experiências que deixam sequelas para toda a vida.

Zeiba (9 anos). Está na central de camionagem, mas não vai a lado nenhum. Apenas acabou de chegar. Donde? Pelos olhos dela, tristemente velhos, directamente do inferno. Quase imaginamos rugas em redor, porque, como os mantém sempre baixos, dir-se-iam mergulhados em sulcos de sombra. Fala numa voz sumida, entrecortada, como se as palavras fossem uma espécie de tosse seca. Aos arrancos, lá vai contando: fugiu de uma casa onde se encarregava do trabalho doméstico pelo equivalente a dois euros ao mês; aguentou um ano aquela «vida», depois fugiu. Foi o irmão – tem mais três irmãs – que a trouxe dos campos do Sul até à capital. O pai morreu, alguém tinha de dar uma ajuda. Calhou-lhe a ela. Embora seja difícil imaginá-la a empunhar uma vassoura: pelos padrões europeus, tem um corpo de quatro/cinco anos.

 

Daniel (13 anos). Profissão: tecelão. Horário de trabalho: 14 horas por dia. Está sentado ao lado de Zeiba e dir-se-ia, quando muito, ter mais um ano do que ela. Fala com o tom sério de um soldadinho que foi à guerra e sobreviveu ao que viu, já sem lágrimas nem sequer quem o chorasse: a mãe morreu, o pai voltou a casar, entre os dois legaram-lhe três irmãs e o mais completo abandono. No seu caso, foi um vizinho que se encarregou de o trazer do Sul até à grande cidade, de fechar o negócio. Se negócio se lhe pode chamar! Ordenado: zero; alimentação: um a três pães por dia; bónus: o patrão mandava todos os anos o equivalente a dez euros para a sua família; subsídio: quando bebia, batia-lhe. Durante dois anos, teceu imparavelmente o fino fio do algodão: produzia um manto (gabi) por dia e uma mantilha tradicional (natala) – que, no mercado, se vende pelo correspondente a 80/100 euros por semana. Depois, não aguentou mais. Fugiu. Andou 15 quilómetros até chegar à estação, há dois dias. Quando acaba de ciciar a sua história, levanta-se para nos apertar a mão. E, quase milagrosamente, esboça um leve sorriso. Por incrível que pareça, Zeiba e Daniel tiveram sorte. Quando os encontramos, estão sentados num banco corrido, num cubículo que fica logo à esquerda dos portões que, em Adis-Abeba, acolhem os veneráveis autocarros que tanto percorrem o escasso macadame como as inúmeras «estradas» – de terra batida, de cascalho, de barro e lama – que irrigam de movimento e vida o imenso e montanhoso país. Com ajuda, encontraram o caminho. Embora sem a garantia de que não seja um beco sem saída, de que não venham a ser obrigados a fazer marcha atrás.

Um menino por um euro

Zeiba e Daniel são apenas duas ínfimas peças de uma imensa e lucrativa engrenagem: na Etiópia, o tráfico de crianças e jovens entre os dez e os 18 anos «ronda as dezenas de milhares». Num país onde de repente se descobre que o recenseamento está incorrecto e que, em vez de 75, há 77 milhões de etíopes, é claro que não «existem números exactos». Conhecem-se, sim, com precisão, os casos concretos. Ou pequenos «pormenores»: «Há crianças que chegam a ser vendidas por um euro.»

Quem o diz, com uma voz em que a eficiência ainda não substituiu por completo a mágoa, é Meron Negash, do recém-fundado Fórum on Street Children – Ethiopia (FSCE), uma organização não governamental que tenta remar contra a torrente dos meninos de rua. Sim, porque tanto aqueles que são raptados e traficados como os que são maltratados e explorados, em casa ou nos locais de trabalho, possuem algo em comum: todos fogem e desaguam nas ruas. A única diferença: uns fogem antes de serem apanhados na teia, outros depois.

De que fogem? Que pergunta… Num país onde 81,9 por cento da população vive com cerca de um euro por dia, numa nação milenarmente cristã mas multiétnica onde, em muitas zonas, é corrente um homem ter duas, três, quatro mulheres e um somatório de oito, dez, doze filhos, a maioria foge à pobreza e à fome. Mas também escapam à violência, a um casamento forçado, ao engano em que caem quando alguém lhes propõe trabalho ou uma oportunidade de estudar e se vêem vendidos a bordéis, a hotéis, a patrões. O destino varia geralmente segundo os sexos, a desgraça é a mesma: elas prostituem-se, tornam-se empregadas domésticas; eles vão parar sobretudo a fabriquetas de tecidos onde são «armazenados» e obrigados a trabalhar 14, 15 horas por dia, mas também efectuam trabalhos ainda mais pesados, nas fábricas de tijolo, na construção civil. Há uma «profissão», porém, em que não há descriminação sexual: «Por vezes, as crianças são mutiladas pelos traficantes, para as porem a pedir nas ruas. Tornam-se mendigos à força.»

As meninas que são obrigadas a prostituírem-se, nas ruas, nos bordéis ou nos hotéis, têm maior procura quando se encontram na casa dos 11,13 anos. Diz Meron Negash: «Quanto mais nova melhor. Há a ideia de que assim não há o perigo de contrair sida e outras doenças.» Embora a organização possua um abrigo seguro onde as que conseguem escapar às teias do negócio podem permanecer durante seis meses, a sua reinserção social é extremamente difícil. «O estigma permanece. Ninguém quer empregar crianças exploradas sexualmente.»

Sequelas para toda a vida

Fikir Isedeke, uma advogada que colabora com o Fórum, estabelece o elo com a pequena «esquadra» que funciona no terminal de autocarros do Merkato. É para aí, para um cubículo que não terá mais do que dois por três metros, que as autoridades encaminham as crianças que, como Zeiba e Daniel, são encontradas a deambular pelas ruas. E é ela que coordena os esforços de reintegração social, que passam em primeiro lugar pela tentativa de as fazer regressar às suas famílias.

Bigo (15 anos) pode considerar-se realmente afortunada. Ao fim de três dias de autocarro desde o seu Wolisso natal, também no Sul do país, viu-se como empregada para todo o serviço numa casa onde era perseguida pela outra criada, que a humilhava por causa dos seus modos campesinos. Não aguentou mais de uma semana e fugiu. Depois de apenas um dia na rua, está agora sentada ao lado de Zeiba e Daniel, mas tudo a distingue deles: razoavelmente alta e bem nutrida, a sua vivacidade natural não se deixa abater pela situação. Embora tenha o 9° ano de escolaridade, quando a Polícia a encontrou nem sequer sabia dizer onde vivia a família, que foi exactamente quem a «vendeu» ao intermediário que a trouxe para a capital – pela módica quantia de dois euros. A história repete-se: a mãe morreu, o pai voltou a casar, tem quatro irmãos. Mas desta vez parece destinada a ter um final feliz: foi possível localizar os familiares, que esta tarde virão buscá-la.

A experiência foi tão curta que poucas marcas terá deixado. Mas, infelizmente, no meio de tanta miséria e exploração, o caso de Bigo até poderia passar por um conto de fadas. Uma grande parte das que passam por este tipo de trauma «ficam com sequelas psicológicas para toda a vida». Então, no caso das que foram molestadas, «são muito poucas as que recuperam».

O Fórum, em colaboração com outras organizações, tenta ensinar ofícios aos meninos, arranjar-lhe trabalho quando têm mais de 14 anos. Porque, quando as famílias são demasiado pobres, a tendência é irem parar outra vez à rua. Pensando melhor, Bigo ainda não está a salvo. Até porque, a par do tráfico interno, na Etiópia existe tráfico de raparigas para os países do Médio Oriente. Que, segundo uma responsável pela Organização Internacional para as Migrações, já era grande e tem tendência para aumentar.

Um tráfico condenado

Fikir Isedeke assegura que o tráfico interno é um fenómeno à escala nacional Porque, no fundo, todos colaboram, todos são traficantes: parentes, amigos da família, vizinhos, os motoristas de camião que percorrem incessantemente as «estradas» e as picadas do país Há uma espécie de círculo vicioso: «Algumas são raptadas a caminho da escola e por isso fogem das aldeias para as cidades para não voltarem a ser raptadas.» Ao fugir, vão parar às ruas. Que é precisamente o grande «mercado abastecedor» dos traficantes. Então, o que fazer? «Há que processar os traficantes, para despertar a consciência da opinião pública», afirma a doutora Isedeke. Quando lhe perguntamos se é fácil condená-los, solta um imperceptível suspiro, não se sabe se por cansaço, se por ter de enfrentar uma tão grande ingenuidade: «Só me lembro de um», diz.

Um padre comboniano, que trabalhou durante muitos anos no Sul, conta-nos que, sempre que uma criança desaparece subitamente, a família conforma-se e invariavelmente afirma: «Foram os babuínos.» Ele bem tentava explicar: «Olhem que não… São mas é os camionistas…» Aqui e ali, lá vislumbramos os esquivos babuínos. Os camionistas, esses, estão ao virar de cada esquina. Mas as crianças também. Num país tão populoso e tão «novo», há magotes de crianças em cada berma, há bebés de colo a espreitar, sozinhos, os ferengi (estrangeiros). No alto dos montes, nos vastos planaltos, são as crianças que, perdidas naquela imensidão, pastoreiam as cabras e as ovelhas, guardam as vacas, tocam os pequenos e diligentes burros, que se diria serem mais numerosos do que as estrelas. Todas acenam, todas sorriem, todas correm em direcção à estrada e ao todo-o-terreno para saudar o viajante. Por todo o lado, o bem mais abundante e mais barato parece ser a própria vida. E há sempre quem tenha olho para o negócio.

 

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