Salvacion – Susanna Tamaro

Setembro às 6:48 pm | Publicado em exploração, literatura, miséria, sofrimento | Deixe um comentário

Susanna Tamaro
Um país para lá do azul do céu
Lisboa, Editorial Presença, 2003

(excerto)

A primeira coisa em que Salvacion reparou foi na distância. Já vivia há um mês naquela casa e começava a perceber como se comportavam os patrões. Nas primeiras semanas, a patroa tinha estado sempre ao lado dela. Tinha de lhe explicar o funcionamento da casa, onde estavam as panelas e os esfregões, como se usava o aspirador e a enceradora, como se carregava a máquina de lavar a roupa: as coisas escuras com as coisas escuras, as claras, com as claras. Tinha-lhe ensinado a distinguir a seda dos outros tecidos porque a seda era a única que tinha de ser lavada à mão. Depois, tinham sido as aulas de culinária: os tomates com arroz, o guisado, as beringelas estufadas, a carbonara. Nessa altura, a patroa tinha sido a sua sombra, mal ela tinha problemas com alguma coisa, ajudara-a, explicando-lhe tudo mais uma vez.


Tinha tido de aprender tantas coisas que, para Salvacion, aquele mês tinha voado. Agora, era o seu primeiro domingo de folga: a patroa já tinha ido há dois dias para o campo, e o marido, o senhor doutor, tinha ido ter com ela na noite anterior. Salvacion estava sozinha naquela casa enorme e luminosa. Mal abrira os olhos, viera-lhe à ideia a questão da distância: a patroa nunca tinha estado tão perto dela como o senhor doutor, na noite anterior. Normalmente, se falava com ela, era de tão longe que nem estendendo um braço conseguiria tocar-lhe. Mas, na noite anterior, quando o acompanhara à porta, com a mala na mão, ele voltara-se de repente e só por uma fracção de segundo não se viram, de rostos colados. Então, ela dera logo um passo atrás, aquela distância mínima parecia-lhe uma falta de respeito. Ele, pelo contrário, dera um passo em frente. Por uns instantes, tinham estado tão próximos que Salvacion sentira o hálito do doutor na sua testa. Na espinha formara-se-lhe um suor estranho e leve, e, quanto mais tempo passavam assim parados, mais o suor ia aumentando. Depois, de repente, ele dera-lhe um piparote na face. — Quantos anos tens? — perguntara. — Dezanove, senhor doutor — respondera Salvacion. O doutor sorrira. — Pensa em divertir-te — dissera-lhe, abrindo a porta. — Voltamos na segunda-feira, de manhã.

Naquele domingo, Salvacion acordara cedo, como era seu hábito e, como era seu hábito, passara a primeira meia hora do dia recolhida em oração. Depois, tomara um duche, mas, mesmo durante o duche, a sensação de mal-estar por causa da noite anterior não tinha desaparecido. Ainda sentia na testa o hálito do doutor. Aquele pensamento mantinha-se dentro dela como um diabinho malvado. Às dez horas, a prima iria buscá-la para passarem o dia juntas. Como ainda faltavam duas horas, foi descalça para o terraço, tratar das plantas. Parcialmente escondido por um véu esbranquiçado de humidade, o Sol começava a aquecer o ar. Da corola de uma flor despontavam as patas traseiras de um besoiro.

Quando a campainha tocou, Salvacion gritou: «Já vou!», como se alguém pudesse ouvi-la, depois ligou o alarme e desceu as escadas com uma bolsinha branca na mão. Do grupo todo daquele domingo só conhecia a prima. Eram muitos e foram almoçar a uma lagoa artificial no meio de uns prédios enormes e claros. Tinham levado um piquenique e comeram todos juntos, ouvindo música da sua terra. — De onde és? — perguntou-lhe um rapaz. — De Jordan Iio Iio, como ela — respondeu Salvacion, apontando para a prima. — Queres jogar raquetas? — perguntou o rapaz. Salvacion sorriu. — Não, agora não. Fica para outra vez. — O rapaz sorriu e foi jogar. O Sol estava quente. Salvacion abriu a bolsa e tirou uma folha de papel de carta. Ainda não tinha escrito para casa. «Querida mãe, queridas irmãs», escreveu na primeira folha, «é domingo e estou com uns amigos num campo, no centro da cidade. Desde que cheguei, ainda não tive um minuto livre para vos escrever. Tive de aprender muitas coisas, a senhora é muito simpática e tem muita paciência comigo. Penso muito em vocês e quando vou para a cama e à minha volta não ouço os ruídos da casa fico muito triste. Na semana que vem, mando-vos o meu primeiro ordenado. Eu aqui estou bem e não me falta nada. Um grande abraço. Salvacion.» A segunda carta escreveu-a à madre superiora do colégio onde tinha estudado. Tinha sido ela quem a aconselhara a ir trabalhar, durante uns anos, para a Europa. Aos dezasseis anos, Salvacion gostaria de ir para freira. Já então sentia que a sua vida era essa. Tinham conversado durante muito tempo: a madre superiora não duvidava da sua vocação, mas opunha-se a uma opção tão precoce. Dois anos antes, quando lhe morrera o pai, de repente, a situação tornara-se dolorosamente clara. «És a mais velha», dissera-lhe a madre superiora «e, em primeiro lugar, tens de pensar na tua família, nos teus irmãos, que ainda são pequenos. O convento está aqui, à tua espera. Entretanto, vai conhecer o mundo, Jesus segue-te para todo o lado, mesmo sem o hábito de freira.» Na carta, Salvacion dizia-lhe que estava contente por estar onde estava. O facto de ser útil à sua família fazia-a sentir-se menos triste e menos só. Todavia, nos momentos livres, não deixava de pensar no convento: o dia em que fizesse os votos seria o dia mais bonito da sua vida.

Nessa noite, depois de a prima a ter acompanhado a casa, deu-se um episódio desagradável. Mal abriu a porta com a sua chave, o alarme começou a tocar. Tocava estridentemente nas escadas e nos patamares do prédio vazio. Devia ter-se enganado ao desligá-lo: com as mãos nos ouvidos, olhou em volta, sem saber o que fazer. Enquanto assim estava, chegou o elevador e saiu de lá a velha porteira. — O que é que se passa aqui? — gritou, dirigindo-se a Salvacion. Agarrou-a por um pulso, deu-lhe um safanão com maus modos. — Ladra! — gritava ela — Ladra! Vou chamar a polícia! — Salvacion desatou a chorar. Mostrando as chaves à porteira, repetia: — Trabalhar Attanasio. — A porteira olhou para a etiqueta no molho de chaves, soltou-lhe o pulso. — Neste prédio, já não se entende nada — gritou. — Um dia, caras de macacas, outro dia, focinhos amarelos. Isto aqui é a torre de Babel, não é nenhum condomínio. Como é que eu posso entender alguma coisa, e depois — acrescentou, encaminhando-se para o apartamento — quem conseguir distinguir-vos é um às, sois todos iguais.

O alarme continuava tocar estridentemente. Arrancando as chaves das mãos de Salvacion, a porteira dirigiu-se à central de alarme. A sirene calou-se de repente. — Diz-me lá — disse ela, piscando um olho —, não será que tens um namorado aqui dentro, hem? Salvacion não percebeu, sorriu, e agradeceu-lhe. A porteira saiu: — Quero lá saber — murmurou, ao passar por ela —, todas umas porcas, estas estrangeiras.

Quando ficou só, Salvacion deixou-se cair no sofá da sala. Queria chorar, mas não tinha lágrimas. O alarme continuava a soar-lhe na cabeça. Por cima do sofá, havia um grande quadro. Era escuro, e mostrava dois senhores vestidos à moda antiga, à volta de uma mesa. A mesa estava posta e, por baixo, havia um cão. Era muito magro, estava deitado e olhava para cima, com um olhar suplicante. Pouco depois, já na cama, com a luz apagada e a colcha puxada para a cara, aquele cão veio-lhe, por um instante, à ideia. Parecia ainda mais vivo do que no quadro, olhava-a com aqueles olhos humildes, como se quisesse falar-lhe. Sem saber porquê, Salvacion desatou num pranto abafado. E do choro passou para o sono, sem dar conta.

Na manhã seguinte, chegaram os patrões, bronzeados e alegres. Salvacion desfez as malas e meteu a roupa suja na máquina. Em seguida, ela e a patroa fizeram a lista das compras e, depois de ter metido na carteira o dinheiro que ela lhe deu, foi ao mercado. No mercado, havia muita gente, e todos lhe passavam à frente. Quando voltou para casa, a patroa berrou com ela: — Será possível que demores tanto para comprar duas ou três coisas? — Salvacion baixou os olhos e vestiu a bata para fazer o almoço. — Hoje à noite — disse a patroa — temos convidados. — O doutor e a mulher eram professores universitários, e era frequente terem amigos ao jantar. À tarde, explicou-lhe como ela devia comportar-se. Na vez anterior, de facto, Salvacion cometera alguns erros. — As travessas apresentam-se pela esquerda e tens de esperar que a pessoa se sirva. Quando os pratos estiverem todos vazios, serves outra vez. Se o vinho ou a água acabarem, trazes mais uma garrafa., sem eu ter de gritar para a cozinha. Percebeste? — Salvacion disse que sim. A patroa murmurou «esperemos que sim», e deixou-a sozinha na cozinha.

Nessa tarde, Salvacion não teve um minuto de descanso. À noite, quando os convidados chegaram, estava cansada e nervosa. Enquanto iam chegando, ia abrir a porta, pegava nos casacos e levava-os para o bengaleiro. No início, os convidados falavam pouco, mas depois, com a chegada do vinho e da comida, começaram a aquecer. Passado pouco tempo, na sala de jantar, havia uma grande confusão. Todos gritavam como se estivesse alguém em perigo. Salvacion andava à volta da mesa, com as travessas. Não olhava para ninguém nos olhos, mas nem por isso deixava de ouvir as palavras. «Não sei onde é que iremos parar, se continuarmos assim», disse alguém. «Este regresso da intolerância é terrível», gritou uma voz feminina. «A culpa é da política do governo.» «Não, é da ignorância, os jovens já não têm consciência histórica.» «E o que é a ignorância», gritou o doutor, «senão o fruto da política do governo?» Salvacion olhou para o relógio de cristais líquidos que encontrara no detergente. Eram nove e meia. Que horas seriam em Jordan Iio Iio? Tentou imaginar o que estaria a fazer naquele instante, se estivesse no convento. Imaginou-se na capela, a cantar loas, ou na cozinha, a lavar o chão com uma esfregona. Sem reparar, Salvacion dobrou o pulso e um escalope aterrou nas pernas de um convidado. — Salvacion! — gritou a senhora. O convidado levantou-se de chofre:

— Que chatice! — exclamou —, fui buscá-las hoje à lavandaria. — Salvacion estava imóvel, repetindo baixinho: — Desculpa… desculpa… Não fiques aí parada! — gritou a senhora. — Vai buscar o pó de talco. — Salvacion obedeceu. Quando voltou para a sala com o pó de talco e um pano húmido, ajoelhou-se aos pés do convidado e começou a limpar a nódoa.

Eram quase duas da manhã quando os convidados se foram embora. Salvacion entregou-lhes os casacos, um a um. Pegaram neles sem olhar para ela, enquanto se iam despedindo dos donos da casa. — Foi uma noite esplêndida — disse uma senhora, enquanto o marido a ajudava a vestir o casaco. — Vêm aí tempos negros para nós — profetizou um outro, já à porta. A patroa beijou-o, dizendo com voz doce: — E por isso que temos de estar unidos, fazer uma resistência humana. — A definição agradou também aos outros. — Sim, uma resistência humana — repetiram, divertidos, quase em coro, e dirigiram-se para as escadas.

Quando Salvacion acabou de arrumar a cozinha, já passava há muito das três horas. Foi para a cama. Sentia-se muito cansada e, ao mesmo tempo, muito desperta. Era sempre assim, quando estava agitada. Deu voltas e mais voltas na cama antes de conseguir adormecer. Às seis e meia da manhã, quando o despertador tocou, desligou-o e voltou-se para o outro lado. Abriu os olhos meia hora depois. Era tarde demais para rezar as suas orações. Vestiu-se sem se lavar e foi a correr para a cozinha. Nesse dia, o doutor e a mulher passaram o dia todo na universidade. Salvacion aproveitou para fazer as maiores limpezas.

A quinta-feira chegou num abrir e fechar de olhos. À tarde, estava de folga, não via chegar a hora de sair, de ficar sozinha com os seus pensamentos. — Tem cuidado — disse-lhe a patroa, já ela estava à porta —, Roma é uma cidade muito grande, cheia de perigos. — Salvacion concordou. — Às seis, volto para casa. — Lá fora, havia um belo sol de Primavera, e as sementes das plantas voavam pelo ar. De tempos a tempos, uma entrava-lhe num olho e fazia-o chorar. Com passos seguros, Salvacion encaminhou-se para a igreja que já tinha visto muitas vezes, ao ir para o mercado. Era uma igreja moderna e imponente. Ao subir as escadas, sentiu-se tão feliz como se fosse ao encontro de um amigo. Empurrou a grande porta de bronze, mas a porta não se abriu. «Uma igreja não pode estar fechada», pensou, e deu a volta para ver se descobria a entrada lateral. Não havia entrada lateral. Então, Salvacion foi para uma paragem e esperou pelo autocarro. Saiu no centro da cidade, diante de uma pequena igreja encaixada entre duas casas. Lá dentro, cheirava a humidade, cheirava a adega. Nas duas primeiras filas, duas velhas desfiavam um rosário. Atrás delas, um pouco à parte, havia um homem gordo. Estava de cabeça curvada e, de vez em quando, batia na testa com o punho grosso. Salvacion ajoelhou-se ao fundo. O Sol, passando através de uma janela, iluminava um pedaço de fresco, atrás do altar, onde se via o pé de Jesus e os pezinhos de um anjo. Salvacion pediu perdão a Deus por se ter queixado do seu destino, nos dias anteriores. Quando a luz desapareceu atrás do altar, murmurou «seja feita a Tua vontade», e levantou-se. Já era tarde. Ao sair, encontrou um jovem capuchinho. Cumprimentou-a e ela correspondeu ao cumprimento. Como ele tinha estado durante alguns anos em missão nas Filipinas, falaram na língua de Salvacion. Na altura de se despedirem, ele disse-lhe que se chamava Andrea. Se ela precisasse de alguma coisa, encontrá-lo-ia sempre ali, naquela igreja.

O autocarro demorou quase meia hora a chegar e quando Salvacion abriu a porta de casa faltavam dez minutos para as oito. — Divertiste-te? — perguntou a patroa, mal a viu. — Sim, obrigada — respondeu Salvacion. Estava feliz por ter conhecido o tal frade e apetecia-lhe cantar. Entoou as primeiras notas ao abrir o frigorífico. Enquanto ali estava, diante da porta aberta, o doutor apareceu atrás dela. Ela estava acocorada ao pé dos legumes, ele estendeu os braços, apoiou-se aos bordos do frigorífico e disse-lhe «divertida, hem?», olhando-a de alto a baixo. Salvacion sentiu por um instante a perna do doutor nas suas costas. Deixou de cantar. Na sala, ouviu-se a voz da mulher: — O ketchup não está no frigorífico, está na prateleira da máquina de lavar a louça.

Nessa noite, Salvacion rezou mais do que era costume. Invocou o seu Anjo-da-Guarda e falou muito com ele. Quando abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira para lá meter as suas imagens sagradas, ficou paralisada como um rato ao ver uma serpente. Lá dentro, por cima do papel às florinhas, havia a página a cores de uma revista. Nessa página, em quatro fotografias diferentes, havia uma mulher nua com dois homens, também nus, um preto e outro não. Os homens pareciam cavalos. Antes de fechar a gaveta, reparou que um deles estava de peúgas. Levantou-se, foi até à janela e abriu-a. Na casa da porteira, ao fundo do pátio, ouvia-se o som estridente da televisão. Não podia dormir com aquele papel no quarto. Sem olhar, abriu outra vez a gaveta, pegou na folha, rasgou-a, meteu os pedaços num sobrescrito e atirou-o para a rua, para as trevas densas entre os prédios.

Nessa noite, o tempo mudou, a Primavera foi-se embora e chegou o Inverno. Foi justamente por causa da diminuição de temperatura que, no dia seguinte, o doutor adoeceu. Voltou para casa antes do almoço e meteu-se na cama, cheio de febre. À tarde, um amigo deles foi visitá-lo, deu-lhe uns remédios e aconselhou-o a ficar na cama pelo menos durante uma semana. Na segunda-feira seguinte, quando a mulher partiu para um congresso, já quase não tinha febre. À porta de casa, com as malas na mão, a patroa deu as últimas instruções a Salvacion. — Tem paciência — disse-lhe —, quando está doente, é como uma criança birrenta.

Lá fora, ainda estava frio e, como o aquecimento central estava desligado, tinham ido buscar os radiadores eléctricos para aquecerem a casa. À noite, Salvacion levou ao quarto do doutor um caldo quente. Antes de sair, perguntou se ele queria que desligasse o radiador, ele disse que não, que a febre: voltara a subir e que ainda tinha frio. Ao chegar à sala, Salvacion ligou a televisão. Estavam a dar uma telenovela, percebia pouco o que diziam, mas viu até ao fim. Na manhã seguinte, ao acordar, sentiu a nuca rígida. «Devo ter dormido torta», pensou, «ou então, sem saber porquê, estou nervosa.» Mal ouviu a campainha no quarto do doutor, foi a correr, escancarou as janelas e perguntou-lhe o que queria comer. — Hoje, sinto-me melhor — respondeu ele, espreguiçando-se, e pediu-lhe um café, um iogurte e um sumo de laranja. Salvacion voltou pouco depois com a bandeja, e pousou-a na mesa-de-cabeceira. Preparava-se para sair do quarto quando o doutor a agarrou por um pulso. — Senta-te — disse —, andas sempre a correr. — Salvacion ficou em pé, resistindo debilmente com o braço. — Senta-te — repetiu o doutor em tom mais baixo, puxando Salvacion para a beira da cama. Ficaram em silêncio. Da rua vinha o rumor de um altifalante. Era o carro de um circo a anunciar o espectáculo dessa noite. O doutor sentou-se atrás de Salvacion, passou-lhe um braço pelo pescoço e, puxando-a para ele, perguntou-lhe baixinho ao ouvido: — Como é que se faz amor, na tua terra?
Nessa segunda-feira, Salvacion lavou-se por seis vezes. À tarde, o doutor, preocupado por não a ver sair, tocou a campainha do quarto. Salvacion não respondeu. Ao ouvir o rumor da água, o doutor pensou: «Está a tomar duche», e sossegou. Salvacion esfregava o corpo com fúria, queria que a água a lavasse mais por dentro do que por fora. Não serviu de nada, continuava a sentir-se suja. Um dia, a madre superiora tinha-lhe dito que assistira à libertação de um possesso. O homem, uivando, contorcia-se e batia em tudo. Salvacion gostaria de fazer como ele, apetecia-lhe gritar, atirar-se ao chão, bater com a cabeça no soalho até perder os sentidos. Em vez disso, mal saiu do duche, ajoelhou-se junto da cama e apoiou a cabeça no colchão. Não chorou, mas um soluço saiu-lhe do estômago. Vinha de tão fundo que a assustou. Se calhar, o demónio tinha mesmo entrado nela. Que seria dela, agora? Como poderia viver com aquele segredo? Sentia-se suja, e todos veriam aquela sujidade nos seus olhos. Nunca mais poderia olhar para a superiora, nunca mais poderia olhar para ninguém. Quando se fez escuro no quarto, acendeu a luz da mesa-de-cabeceira e tirou o Evangelho da gaveta. Leu por várias vezes: «perdoai-lhes porque não sabem o que fazem». Aquelas palavras ecoavam dentro dela como num quarto vazio. Não havia ali ninguém que pudesse ouvi-las, ninguém que as pudesse compreender. A certa altura, os ruídos das casas em redor foram diminuindo. O despertador marcava as duas horas. Salvacion meteu-se na cama. Tinha frio, enroscou-se toda, abraçou-se. Ainda tinha uma das faces a arder, no sítio onde o doutor, gemendo, esfregara a barba por fazer.

Na manhã seguinte, a patroa voltou. Mal a viu, disse: — Que má cara! Não me digas que te constipaste! — Salvacion abanou a cabeça. Às dez horas, o doutor saiu e a patroa foi para o escritório corrigir trabalhos dos alunos. Salvacion decidira que, às dez e meia, lhe contaria tudo. Tinha de o fazer. Às dez e vinte e nove, bateu à porta, às dez e trinta estava diante da patroa. — O que queres, Salvacion? — perguntou ela, sem levantar os olhos de um papel. Salvacion ficou em silêncio, cravando as unhas de uma mão na palma da outra. — Então? — repetiu a patroa. — O que queres? — Salvacion respirou fundo e disse: — Acabou o detergente para a máquina da louça.

Nos dias seguintes, tudo se passou como de costume. Só o doutor é que se aproximava mais dela, quando estavam sozinhos numa das divisões. Na quarta-feira à noite, enquanto fazia o jantar, tinha aparecido atrás dela e com a virilha empurrara-a para o fogão. Com a mulher continuava a ser simpático, beijava-a quando chegava a casa, passava-lhe um braço pelo pescoço quando estavam sentados no sofá. Era por isso que Salvacion não tinha dito nada: não queria dar um desgosto à patroa.

Na quinta-feira de manhã, acordou um pouco mais leve. Às três da tarde, já estava à porta da rua. — Diverte-te! — disse-lhe a patroa, já ela ia a sair. Salvacion foi a correr apanhar o autocarro que ia para o centro da cidade. A porta da pequena igreja ainda estava fechada. Esperou nas proximidades, segurando a bolsa com ambas as mãos. Sentia-se um pouco mais aliviada. Não tardaria a poder falar, a confessar-se. Quando o sacristão abriu a porta, entrou discretamente; era a única pessoa no interior da igreja. Sentou-se e ficou por uns instantes em recolhimento. De vez em quando, levantava os olhos para ver se o padre Andrea já tinha chegado. Por volta das cinco horas, chegaram três ou quatro velhotas para o terço. Salvacion ganhou coragem, levantou-se e foi à sacristia. Estava lá um padre, a paramentar-se. — Desculpe — perguntou —, o padre Andrea não está? — O padre Andrea foi fazer um retiro — respondeu o religioso —, volta para a semana. — Salvacion ficou imóvel. — Queres deixar algum recado? — perguntou-lhe o padre, já a caminho do altar. — Não — disse Salvacion —, não importa, passo por cá noutro dia. — Nessa noite, a patroa disse-lhe: — Preciso de falar contigo. — E foram para o quarto. — Salvacion, ando preocupada contigo, a tua cara não me agrada nada. Tens a certeza de que te sentes bem? Repara bem, estás cá sem licença, se te acontecesse alguma coisa, as maçadas que nós não teríamos! — Eu bem, senhora — respondeu Salvacion —, não preocupar. — Afinal — continuou a patroa —, és tão novinha que poderias ser minha filha; é como mãe que te falo. — A patroa fez uma pausa. — Sabes, há muitas maneiras de não ter filhos. Se quiseres, e se não sabes quais são, eu levo-te a um médico, ele explica-te tudo e nós ficamos mais sossegados. — Obrigada, senhora — respondeu Salvacion. Depois, com uma coragem que julgava não ter, pediu-lhe o seu primeiro ordenado. Nessa noite, os patrões estavam fora e Salvacion ficou no quarto a ver televisão. Era um documentário sobre as barreiras de coral, e as cores do mar e das ilhas pareciam as da sua terra. «Há peixes», dizia o locutor, «que, embora sejam pequenos, não são devorados pelos peixes grandes. O peixe-papagaio, por exemplo, vive protegido pelos tentáculos urticantes das anémonas-do-mar. A selecção evolutiva levou-o a adoptar esse comportamento, que acabou por resultar. No mundo movimentado e cruel do oceano, é mais fácil viver a dois.» É mais fácil sobreviver a dois, disse para consigo Salvacion, vestindo a camisa de noite. Mal se meteu na cama, lembrou-se da sua colega de carteira dos tempos do colégio. Tinham temperamentos muito diferentes, porque a amiga andava sempre triste. Durante a adolescência, e por mais que ela lhe quisesse mostrar o lado belo da vida, falava muitas vezes em matar-se. «Há só uma maneira de o fazer», dissera-lhe numa manhã de domingo, enquanto passeavam pela praia. «Entro no mar e vou sempre em frente, até desaparecer coberta pelas ondas. Seria uma morte suave, não achas?» Dessa vez, Salvacion não respondera, não conseguia compreender como se podia desejar a morte.

No sábado de manhã, acordou com uma impressão no ouvido. Devia ter entrado água, na noite anterior, enquanto tomava duche. Mal mexia a cabeça, ouvia o rumor do mar, como se ouve quando se encosta um búzio ao ouvido. Antes de sair para ir às compras, foi ter com a patroa e pediu-lhe o seu dinheiro. — Só te dou metade — disse ela, abrindo a carteira —, porque, durante os primeiros três meses, continuas à experiência. — À frente do mercado, ficava o edifício dos Correios. Salvacion mandou o dinheiro à família, e mandou também um postal, dizendo que se lembrava muito deles e que os amava muito. À hora de almoço, os patrões partiram para o campo. Despediu-se deles e ouviu as suas recomendações. Quando a prima telefonou a pedir-lhe para passarem o domingo juntas, disse-lhe que estava com febre. Às seis horas, foi assistir à missa na tal igreja grande e moderna. O tempo estava bom e havia pouca gente. As palavras do padre ecoavam como num barracão. No fim da missa, antes de sair, Salvacion murmurou: «Senhor, perdoa-me, já não sou digna do teu amor. Antigamente, conhecia os planos que tinhas para mim, mas, agora, já não os conheço, ou não consigo compreendê-los.» Quando se benzeu com a água benta, sentiu uma lágrima correr-lhe ligeira pela face direita.

Nessa noite, não conseguiu dormir. Estava calor e passou muito tempo no terraço, a olhar para as estrelas. Vestiu-se pouco antes de o sol aparecer no horizonte: já estava na rua quando começou a amanhecer. Precisava de se descontrair, de respirar. Esperou muito tempo pelo autocarro, depois apanhou outro e, em seguida, meteu-se no metropolitano. Quando chegou à praia, já passava das sete. A areia estava suja, cheia de sacos e garrafas de plástico. O rumor do mar era o mesmo em todo o lado. Se fechasse os olhos por um instante, podia pensar que estava em casa. Descalçou as sandálias. Mais à frente, estava um velho imponente, sentado num banquinho minúsculo. Tinha uma cana de pesca na mão. Quando Salvacion passou por ele, seguiu-a com o olhar. Quatro ou cinco gaivotas sobrevoaram em silêncio a linha de rebentação. Salvacion pensou que devia ser bom ser como elas, ver as coisas todas lá de cima, sem se estar dentro delas. A certa altura, voltou-se e viu que o homem já estava longe. Bateu com um pé em qualquer coisa, curvou-se, tirou a areia. Era uma boneca. Alguém — ou o mar — lhe tinha arrancado uma perna, em vez dela havia um buraco que lhe chegava ao queixo. Limpou-lhe os olhos, inclinou-a, os olhos abriram-se. Eram olhos de vidro, azuis. Ergueu o braço para a atirar à água, mas mudou de ideia e sentou-a de frente para as ondas. Voltou-se também para o mar, meteu um pé na água, depois o outro e começou a avançar. As ondas eram grandes e frias, mais do que ternas carícias eram bofetadas. «Será que aqui também há peixes-papagaio?», pensou. Sentia-se estranha. Era ela, Salvacion, quem andava na água e se via a andar na água? Nunca lhe tinha acontecido uma coisa assim. Quem era a Salvacion? A que caminhava ou a que se via caminhar?

Mal a água lhe chegou ao queixo, sentiu um arrepio de frio e parou por um instante. Pensou: «Os peixes-papagaio têm a sua anémona, e os homens têm o seu anjo-da-guarda.» Uma nuvem pequena e redonda tinha escondido o sol. A água, antes azul, passou a ser da cor do aço. Quanto se teria afastado da costa? Voltou a cabeça para a praia. Viu-o e ouviu-o, ao mesmo tempo. Na areia molhada, surgido do nada, estava um cão. Era bastante alto, mas magro, e tinha muito pêlo, claro em muitos sítios, sujo de alcatrão. Estava com as patas da frente dentro de água e ladrava-lhe, como se quisesse brincar. Os olhos eram tristes e atrevidos. Salvacion voltou a olhar para o mar alto. Ao longe, passava um petroleiro. Mais perto, ouvia-se o ruído de um motor. Não era o ruído de um barco grande, parecia o zumbido de um mosquito enorme. Ao fundo, à esquerda, entrevia-se um ponto minúsculo. O cão ladrou mais uma vez e mais alto. Salvacion voltou-se de novo para ele. Alguém lhe tinha dito que os animais não suportam o olhar do homem. Já sabia que não era verdade. Com a boca meio fechada e as orelhas arrebitadas, o cão olhava-a, esperando por uma resposta. Vens ou não vens? Até àquele momento, nunca tinha visto um cão sorrir. Então, sorriu também: «Já vou!», disse ao cão, e ergueu a mão para o saudar. O cão começou a abanar a cauda e meteu-se na água para ir ao seu encontro. Agitando o braço, Salvacion deu quatro ou cinco passos na sua direcção. O ruído do motor já estava muito perto. Já não parecia um mosquito, mas uma mosca, um moscardo que voava veloz. De onde viria? pensou. Entretanto, viu a cabeça do cão aparecer na água, uma espécie de mota que corria para ela, tinha dois esquis e quase não tocava na água, na mota havia um rapaz de tronco nu, todo curvado sobre o guiador. Salvacion ergueu os braços e abriu a boca para gritar «não!». A boca encheu-se-lhe de água, por cima de si viu alastrar uma mancha vermelha. O sol batia à tona da água, fazendo-a brilhar. Antes de tudo ficar escuro, pensou: «Onde é que estão os peixes-papagaio?»

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