Contra a cultura do silêncio

Setembro às 7:01 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, miséria, sofrimento, violência | 1 Comentário
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Além-mar
Junho 2007

Renato Kizito Sesana

Contra a cultura do silêncio

Na zona do Quénia que produz uma boa parte das flores que estão à venda na Europa, o crime sexual tornou-se uma praga. Mas uma mulher decidiu combatê-la. E afirma que será possível erradicá-la se se vencer a cultura do silêncio.

Uma mulher iniciou uma campanha para educar os quenianos sobre a necessidade de denunciar ofensas sexuais. As notícias dos jornais ilustram bem a sua oportunidade: “Um homem desonrou a sua filha menor”; “Menor desonrado por um vizinho”; “Uma menina de oito anos violada por um gangue no caminho da escola.” Estes são alguns dos cabeçalhos sobre Naivasha, uma pequena cidade nas margens do lago do mesmo nome, 100 quilómetros a noroeste de Nairobi, no Quénia, que ganhou notoriedade no passado recente devido à escalada de casos de violação, de atentados ao pudor e de incesto. Mal passa uma semana sem que ocorra um incidente.

Mas os esforços de uma só mulher estão agora a render dividendos. Rahab Wairuru é directora do Grupo de Apoio aos Desfavorecidos de Naivasha (NADISGO na sigla inglesa), que foi criado em 2003. o grupo tem estado envolvido no apoio às vítimas e na sensibilização dos habitantes para a importância de denunciar as ofensas sexuais. “Educamos os habitantes sobre a importância de quebrar o silêncio quando alguém é ofendido”, diz Wairuri. Diz também que o número de ofensas sexuais tem estado a aumentar, que, graças ao NAGADISGO, o número de casos que estão a ser denunciados são mesmo mais elevados do que os que antes eram conhecidos.

Vencer o medo

“Quando o NAGADISGO foi criado, dirigimos então a nossa atenção para o “Children’s Act”, que tinha acabado de ser decretado em 2001, e informámos o público acerca dos seus benefícios”, afirma Wairuri. Foi enquanto o divulgavam que perceberam que mulheres e crianças sofriam em silêncio: “As mães não sabiam o que fazer depois de encontrarem os maridos a desflorar as suas filhas.” As mulheres, acrescenta, tinham receio de denunciar os seus maridos e tentavam conservar os casamentos. Outras achavam a situação demasiado vergonhosa: ao denunciarem os maridos, tornar-se-iam assunto de todas as conversas. Algumas vítimas temiam também denunciar os criminosos, porque sabiam que estes acabariam por ser libertados. “Por ignorância, quando alguém era detido, levado a tribunal e lhe era concedida caução, era absolvido da acusação. E as vítimas mantinham-se em silêncio para não serem atacadas outra vez pelo mesmo indivíduo.”

Não ajudava nada que, depois, alguns dos criminosos se fossem vangloriar da sua liberdade, o que fazia que outras vítimas se assustassem e optassem pelo silêncio. “Compreendi então que as pessoas do grupo de apoio precisavam de fazer as vítimas ultrapassar o medo que sentiam quando eram alvo de abusos sexuais.”

Prevenir a sida

Em 2004, o NADISGO mudou de estratégia e começou a informar as mulheres sobre questões como a violação ou o atentado ao pudor. Wairuri e as suas colegas começaram a divulgar numa escola o que a lei diz acerca de ofensas sexuais e as respectivas penas, a alertar para a importância de denunciar esses casos. Foram também as barazas (reuniões comunitárias, na língua suaíli) organizadas por chefes, e logo as pessoas começaram a aparecer. As pessoas também não sabiam como era importante procurar ajuda nas 72 horas após a violação. “Se uma vítima é violada ou molestada, pode iniciar o tratamento que ajudará a impedir que contraia o HIV/sida. Mas essa janela de esperança fecha-se no espaço de três dias”, explica.

De igual modo, as pessoas desconheciam o procedimento a seguir para denunciar os autores dos abusos. O ministério da Educação deu uma ajuda, permitindo aos membros do Grupo de Apoio falar com os alunos sobre os crimes sexuais e o que fazer se fossem vítimas de abusos. As pessoas aprenderam a ultrapassar o silêncio e começaram logo a procurar a ajuda da polícia. O NADISGO também se dedicou à tarefa de ajudar as vítimas a denunciar os abusos à polícia e levá-las ao hospital para exames e tratamentos. “Também seguimos os casos quando são levados a tribunal, e por vezes ajudamos as vítimas a irem a tribunal, pois a maioria desconhece os procedimentos legais”, diz.

Wairuri diz que, só no ano passado, 180 atentados ao pudor, 90 violações e 16 casos de sodomia foram denunciados nos escritórios da NADISGO. Está contente por ter ajudado a quebrar a política do silêncio. As pessoas estão agora informadas e, em algumas áreas, as comunidades já estão a ajudar as vítimas a procurar apoio. “Se uma família se mantém em silêncio num caso de incesto, há que procurar vizinhos que intervenham e denunciem o caso à polícia. Mesmo nas escolas, os alunos estão conscientes das ofensas sexuais e denunciam-nas, quer sejam elas as vítimas ou os seus amigos”, afirma ela.

Condições inumanas

As pessoas falam agora abertamente sobre ofensas sexuais e isto ajudou a diluir o estigma que inicialmente lhes estava associado. “As meninas aprenderam a denunciar pais ou irmãos”, diz uma mulher de 38 anos, mãe de duas filhas.

Mas esta luta não tem estado isenta de oposição. Wairuri recorda um incidente que ocorreu no ano passado, quando um polícia local e representantes provinciais da administração se aproximaram de um grupo e lhe pediram para terem cuidado nas suas campanhas, porque estavam a afugentar os investidores. Naivasha é o principal centro de floricultura no Quénia e o político não estava contente coma publicidade negativa que a cidade começava a ter. “Disse-lhes que não pararíamos. A luta contra a violação e os abusos é mais importante do que os negócios”, diz ela.

Wairuri acredita que esta guerra pode ser ganha no Quénia se a cultura do silêncio for vencida. “Se as pessoas deixarem de ficar caladas quando são violadas ou vítimas de qualquer outra forma de abuso sexual, podemos ganhar”, assegura.

Wairuri é uma mulher rechonchuda com um sorriso fácil, o oposto do estereótipo da feminista furiosa. Acredita na bondade natural dos seres humanos, e que tais crimes são alimentados pelas condições de vida inumanas das pessoas que trabalham nas estufas de floricultura. “Esta é uma caminhada de mil milhas e tem de começar com um passo. Com a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e com uma consciência tanto da sua dignidade como da dos seus filhos. Num futuro próximo, o crime sexual desaparecerá por completo e as mulheres e as raparigas viverão sem medo.”

1 Comentário »

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  1. BOM, NECESSITAMOS DE REPORTAGENS COMO ESSA PARA ACORDARMOS AO MUNDO QUE VIVEMOS.
    NO BRASIL, ONDE TUDO E CARNAVAL, BUNDA E FUTEBOL, NECESSITAMOS DE MAIS SITES COMO ESSE, LOGICAMENTE NAO COM A I NTESAO DE FAZERMOS ACEPCAO DE PESSOAS OU FORMARMOS MAIS GRUPOS DIVISORES DA SOCIEDADE, MAS COM A INTENSAO DE RETIRARMOS A SOCIEDADE ATUAL DE SUAS VIDAS DE AQUARIO E DE UM MUNDO DE ILUSAO QUE AUMENTA O DOMINIO SOBRE OS SERES VIVENTES DE TODOS OS PAISES DOMINADORES DE TECNOLOGIA.
    PARABENS, EXCELENTE…


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