A escola do mundo às avessas

Setembro às 7:12 pm | Publicado em violência | 1 Comentário

Eduardo Galeano
De pernas para o ar – A escola do mundo às avessas
Lisboa, Editorial Caminho, 2002

Excertos

A escola do mundo às avessas

Mensagem aos pais

Hoje em dia, as pessoas já não respeitam nada. Dantes, punham-se num pedestal a virtude, a honra, a verdade e a lei… A corrupção campeia na vida americana dos nossos dias. Onde não se obedece a outra lei, a corrupção é a única lei. A corrupção está a minar este país. A virtude, a honra e a lei esfumaram-se das nossas vidas.

(Declarações de Al Capone ao jornalista Cornelius Vanderbilt Jr.

Entrevista publicada na revista Liberty a 17 de Outubro

de 1931, alguns dias antes de Al Capone ser preso.)

Educando pelo exemplo

A escola do inundo às avessas é a mais democrática das instituições educativas. Não exige exame de admissão, não cobra matrícula e ministra os seus cursos gratuitamente, a todos e em qualquer lugar, assim na terra como no céu: por alguma razão é filha do sistema que conquistou, pela primeira vez em toda a história da Humanidade, o poder universal.

Na escola do mundo às avessas, o chumbo aprende a flutuar e a cortiça a afundar-se. As víboras aprendem a voar e as nuvens aprendem a rastejar pelos caminhos.

Os modelos do êxito

O mundo às avessas premeia às avessas: despreza a honestidade, pune o trabalho, recompensa a falta de escrúpulos e alimenta o canibalismo.

As possibilidades de um banqueiro que esvazia um banco possa desfrutar, em paz, dos frutos do seu trabalho são directamente proporcionais às possibilidades de que um ladrão rouba um banco vá parar à prisão ou ao cemitério.

Quando um delinquente mata por alguma dívida por pagar, a execução chama-se ajuste de contas; chama-se plano de ajustamento a execução de um país endividado, quando a tecnocracia internacional decide liquidá-lo. A malfeitoria financeira sequestra os países e limpa-os se não pagarem o resgate; quando comparados, qualquer bandido se revela mais inofensivo do que Drácula debaixo do sol. A economia mundial é a mais eficiente expressão do crime organizado. Os organismos internacionais que controlam a moeda, o comércio e o crédito praticam o terrorismo contra os países pobres, e contra todos os pobres de todos os países, com uma frieza profissional e uma impunidade que humilham o melhor dos bombistas.

A arte de enganar o próximo, que os vigaristas praticam caçando desprevenidos pelas ruas, chega ao sublime quando alguns políticos de êxito exercitam o seu talento. Nos subúrbios do mundo, os chefes de Estado vendem os restos de colecção e os retalhos dos seus países a preço de liquidação de final de temporada, tal como nos subúrbios das cidades os delinquentes vendem, a preço vil, o produto dos seus assaltos. Os pistoleiros que são contratados para matar realizam, em pequena escala, o mesmo serviço que cumprem, em grande escala, os generais condecorados por crimes que são elevados à categoria de glórias militares. Os assaltantes, à coca nas esquinas, desferem golpes que são a versão artesanal dos golpes de sorte assestados pelos grandes especuladores que espoliam multidões a golpes de computador. Os violadores que mais ferozmente violam a Natureza e os direitos humanos nunca são presos. Têm as chaves das cadeias. No mundo tal como está, o inundo às avessas, os países que custeiam a paz universal são aqueles que mais armas fabricam e os que mais armas vendem aos restantes países; os bancos mais prestigiados são os que mais narcodólares lavam e os que mais dinheiro roubado guardam; as indústrias mais florescentes são as que mais envenenam o planeta; e a salvação do meio ambiente é o mais brilhante negócio das empresas que o aniquilam. São dignos de impunidade e felicitações os que matam mais gente em menos tempo, os que ganham mais dinheiro com menos trabalho e os que destroem a maior quantidade de Natureza com menos custos. Caminhar é um perigo e respirar é uma façanha nas grandes cidades do mundo às avessas. Quem não é prisioneiro da necessidade é prisioneiro do medo: uns não dormem pela ansiedade de ter as coisas que não têm e outros não dormem pelo pânico de perderem as coisas que têm. O mundo às avessas treina-nos para ver o próximo como uma ameaça e não como uma promessa, reduz-nos à solidão e consola-nos com drogas químicas e com amigos cibernéticos. Estamos condenados a morrer de tédio, se uma bala perdida não nos abreviar a existência.

Será esta liberdade, a liberdade de escolher entre estas ameaças de desgraça, a nossa única liberdade possível? O mundo às avessas ensina-nos a padecer a realidade em vez de a mudar, a esquecer o passado em vez de o ouvir e a aceitar o futuro em vez de o imaginar: assim age o crime e assim o recomenda. Na sua escola, a escola do crime, são obrigatórias as aulas de impotência, amnésia e resignação. Mas está visto que não há desgraça sem graça, nem medalha que não tenha reverso, nem tempestade que não traga bonança, nem desânimo que não procure ânimo. Também não há escola que não encontre a sua contra-escola.

A igualização e a desigualdade

A ditadura da sociedade de consumo exerce um totalitarismo simétrico ao da sua irmã gémea, a ditadura da organização desigual do mundo.

A máquina da igualização compulsiva age contra a mais bela energia do género humano, que se reconhece nas suas diferenças e nelas se vincula. O melhor que o mundo tem está nos muitos mundos que o mundo contém, nas diferentes músicas da vida, nas suas dores e cores: as mil e uma maneiras de viver e dizer, crer e criar, comer, trabalhar, dançar, brincar, amar, sofrer e celebrar, que temos vindo a descobrir ao longo de milhares e milhares de anos.

A igualização, que nos uniformiza e nos entontece, não pode ser medida. Não há computador capaz de registar os crimes quotidianos que a indústria da cultura de massas comete contra o arco-íris humano e o humano direito à identidade. Mas os seus progressos demolidores corrompem os olhos. O tempo vai-se esvaziando de História e o espaço já não reconhece a assombrosa diversidade das suas partes. Através dos meios de comunicação de massas, os donos do mundo comunicam-nos a obrigação que todos temos de nos contemplarmos num espelho único, que reflecte os valores da cultura de consumo.

Quem não tem não é: quem não tem carro, quem não usa calçado de marca ou perfumes importados, finge existir. Economia de importação, cultura de impostação: no reino da tolice, todos estamos obrigados a embarcar no cruzeiro do consumo, que sulca as agitadas águas do mercado. A maioria dos nave­gantes está condenada ao naufrágio, mas a dívida externa paga, à conta de todos, os bilhetes dos que podem viajar. Os empréstimos, que permitem atafulhar com novas coisas inúteis a maioria consumidora, agem em favor da boa-pinta das nossas classes médias e da mania de copiar das nossas classes altas; e a televisão encarrega-se de transformar em necessidades reais, aos olhos de todos, as procuras artificiais que o Norte do mundo inventa incessantemente e, com êxito, projecta sobre o Sul. (Norte e Sul, diga-se de passagem, são termos que, neste livro, designam a repartição do bolo mundial e nem sempre coincidem com a Geografia.)

O que acontece com os milhões e milhões de crianças latino-americanas que serão jovens condenados ao desemprego ou a salários de miséria? A publicidade estimula a procura ou, pelo contrário, promove a violência? A televisão oferece o serviço completo: não só ensina a confundir a qualidade de vida com a quantidade de coisas como, além disso, também oferece cursos audiovisuais quotidianos de violência, que os videojogos complementam. Bate antes que te batam a ti, aconselham os mestres electrónicos dos videojogos. Estás só, apenas contas contigo próprio. Carros que voam, gente que rebenta: Tu também podes matar. E, entretanto, crescem as cidades, as cidades latino-americanas são já as maiores do mundo. E com as cidades, ao ritmo do pânico, cresce o crime.

A economia mundial exige mercados de consumo em perpétua expansão, para dar saída à sua produção crescente e para não caírem as suas margens de lucro, mas, por seu turno, exige braços e matérias-primas a preços irrisórios, para baixar os custos de produção. O mesmo sistema que precisa de vender cada vez mais precisa de pagar cada vez menos. Este paradoxo gera outro paradoxo: o Norte do mundo dita ordens de consumo cada vez mais imperiosas, dirigidas ao Sul e ao Leste, para multiplicar os consumidores, mas multiplica, em muito maior medida, os delinquentes. Ao apoderar-se dos fetiches que oferecem existência real às pessoas, cada assaltante quer ter o que a vítima tem, para ser o que a vítima é. Armai-vos uns aos outros: hoje em dia, no manicómio das ruas, qualquer um pode morrer vítima de uma bala: o que nasceu para morrer de fome e também o que nasceu para morrer de indigestão.

1 Comentário »

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  1. Esta reflexão é indispensável para a educação que precisa sobrepujar a outra!! os ensinos midiáticos do consumo e da inversão de valores é facista e quer imprefnar o sujo capital nos nossos sonhos!!!!


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