Escravos do século XXI

Setembro às 10:40 am | Publicado em ambição, cativeiro, corrupção, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, fome, miséria, sofrimento, violência | 19 comentários
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National Geographic – Set. 2003

Texto: Andrew Cockburn
Imagem: Jodi Cobb

O título não é uma metáfora. Falamos mesmo de escravos. Não de seres humanos que vivem como escravos, trabalhando por um salário miserável. Não são também os escravos de há 200 anos. Falamos dos 27 milhões de pessoas que, em todo o mundo, incluindo Portugal, são compradas e vendidas, exploradas e brutalizadas para dar lucro. São os escravos do século XXI.

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No Norte da Índia, num quarto mal iluminado e sem ventilação, uma dúzia de crianças debruçadas sobre aquecimentos a gás fabrica pulseiras para vender a 40 cêntimos a dúzia. De idades compreendidas entre os 9 e os 14 anos, estas crianças trabalham dez horas por dia, todos os dias – vendidas pelos pais ao dono da oficina em troca de dinheiro. Em média, as crianças indianas são escravizadas por cerca de 30 euros.

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As dívidas condenam famílias ao CATIVEIRO durante várias gerações. No Sudoeste da Índia, mães e filhas transportam para o forno tijolos feitos à mão, enquanto pais e filhos atiçam o fogo. Os empregadores compram os trabalhadores, emprestando dinheiro para despesas que eles não conseguem pagar. Apesar de trabalharem muitos anos para pagar a dívida, os juros exorbitantes e a contabilidade desonesta perpetuam o fardo, que passa de pais para filhos. Cerca dos dois terços dos trabalhadores cativos de todo o mundo – 15 a 20 milhões – são escravos por dívidas na Índia, no Paquistão, no Bangladesh e no Nepal.

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O corpo de uma mulher pode ser VENDIDO vezes sem conta. Os donos de bordéis israelitas, podem comprar jovens da Ucrânia ou da Moldávia por cerca de 3.500 euros. Mesmo um pequeno negócio com dez prostitutas pode render milhões se euros por ano. Fazendo-se passar por recrutadores de mão-de-obra, os traficantes vão buscar vítimas às cidades pobres da Europa do Leste, atraindo-as com promessas de bons empregos. Quando as mulheres chegam, são entregues a compradores que, por norma, as espancam, violam ou aterrorizam para garantir obediência.

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PROMESSA QUEBRADA

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Os pais do rapaz enviaram-no como aprendiz de mecânico para a capital do Benin. Trabalha o dia todo (em cima), sem descanso nem salário. Não pode sair à rua sem autorização e a desobediência é punida com pancada. Segundo Kevin Bales, director da associação Free The Slaves, a escravatura actual é caracterizada por domínio e exploração económica. O controlo sobre os escravos não se exerce com um regime legal de propriedade, mas através do que Bales chama a “autoridade decisiva da violência”. A escravatura é difícil de detectar: entre os cerca de 60 mil chineses que vivem em Itália, imigrantes legais e ilegais trabalham lado a lado com escravos. As buscas em locais como esta fábrica de peles perto de Florença (em baixo) são dificultadas pela barreira da língua e pelo uso de documentos falsos.

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Em Bombaim, na série de bordéis que ladeiam a rua de Falkland, as raparigas mais jovens e bonitas são exibidas em jaulas ao nível da rua para atrair clientes. Muitas mulheres são despejadas por traficantes nestas colmeias, mas muitas são definitivamente vendidas pelos pais ou pelos maridos. Cerca de 50 mil mulheres – metade das quais despachadas a partir do Nepal através da Índia – trabalham como prostitutas na cidade. A violência, as doenças, a subnutrição e a falta de cuidados médicos reduzem a sua esperança de vida para menos de 40 anos.

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Nasci escrava

O meu nome é Salma. Nasci na Mauritânia em 1956, escrava. Os meus pais eram escravos e os pais deles foram escravos da mesma família. Assim que comecei a andar, fui obrigada a traba¬lhar durante todo o dia, todos os dias. Mesmo quando estava doente, tinha de trabalhar.
Quando ainda era criança, comecei a tomar conta da primeira mulher do chefe da família e dos seus 15 filhos. Mais tarde, se algum dos meus próprios filhos estava doente ou em perigo, não me atrevia a ajudá-lo, porque tinha de tratar dos filhos da mulher do meu patrão. Batiam-me frequentemente. Um dia, bateram na minha mãe e eu não aguentei: tentei impedi-los. O chefe da família ficou muito zangado comigo. Atou-me as mãos, marcou-me com um ferro em brasa e deu-me um estalo. O anel dele fez-me um corte que deixou uma cicatriz.
Não me deixaram ir à escola, nem aprender mais do que alguns versículos e orações do Alcorão. Mas tive sorte, porque o filho mais velho do patrão andou numa escola longe da aldeia e tinha ideias diferentes das do pai. Em segredo, ensinou-me a falar francês e a ler e escrever um pouco. Acho que toda a gente pensou que ele andava a violar-me, mas ele estava a ensinar-me.
Os outros escravos sentiam medo da liberdade: tinham medo de não saberem para onde ir ou o que fazer. Mas eu sempre acreditei que tinha de ser livre e acho que foi isso que me ajudou a fugir. Há cerca de dez anos, tentei escapar: como não sabia a que distância ficava o Senegal, caminhei durante dois dias no sentido errado. Descobriram-me, levaram-me para trás e castigaram-me. Ataram-me os pulsos e os tornozelos, amarraram-me a uma tamareira num terreno da família e deixaram-me lá durante uma semana. O chefe da família cortou-me os pulsos com uma navalha para que eu sangrasse horrivelmente. Ainda tenho as cicatrizes.
Por fim, conheci um homem no mercado que me disse que o Senegal ficava do outro lado do rio. Decidi tentar outra vez. Corri até ao rio onde o dono de um pequeno barco de madeira aceitou levar-me até ao Senegal. Aí, fui até um refúgio administrado por um antigo escravo da Mauritânia. Fiquei no Senegal durante alguns anos, ganhando dinheiro a fazer trabalhos domésticos. Mas nunca me senti segura. Estava sempre com medo que o chefe da família pagasse a alguém para me ir procurar e me levasse de volta à sua casa.
Quando cheguei aos EUA, trabalhei a fazer tranças no cabelo. Da primeira vez que me pagaram por um trabalho, chorei. Nunca tinha visto ninguém ser pago pelo seu trabalho. Foi uma surpresa muito agradável. Uma das coisas mais difíceis foi abandonar os meus filhos, mas sabia que primeiro tinha de fugir. Desde que aqui cheguei, há três anos, tenho trabalhado para libertá-los. Paguei a pessoas que os encontraram e os levaram para o Senegal e agora estou a pagar para que os meus filhos vão à escola.
Levanto-me cedo todas as manhãs, compro um cartão telefónico e falo com eles. Dizem-me que preferem morrer na rua do que voltar à Mauritânia. A minha filha mais velha já está comigo nos EUA. Desejo muito que os meus outros filhos venham ter connosco. Na Mauritânia, nunca tive o direito de tomar decisões em relação aos meus filhos. Aqui é tão diferente.
Na Mauritânia, não me atrevia a ir ter com o governo porque eles não ligavam. As leis não interessam, porque eles não as aplicam. Talvez esteja escrito que não existe escravatura, mas isso não é verdade. Mesmo diante do presidente da Mauritânia, agora posso afirmar em voz alta que existe escravatura na Mauritânia porque já sou tão livre como ele. Quando cheguei aos EUA, tive medo que me mandassem embora. Foi então que conheci o meu advogado, um médico, que me ajudou, e Kevin Bales, da organização Free the Slaves. Conheci também o Programa Bellevue para os Sobreviventes da Tortura. O juiz que julgou o meu pedido de asilo era honesto e cumpriu a sua função. Exigiu provas, mas depois ouviu e prestou atenção.
Um dia, gostaria de ser cidadã dos Estados Unidos e quero que os meus filhos também sejam. Aqui tenho liberdade de expressão. Na Mauritânia, não havia liberdade de expressão. No Senegal, tinha medo de falar abertamente porque era muito próximo da Mauritânia. Então tive de ter cuidado. Tive de ir para muito, muito, muito longe. Aqui, agora, posso falar abertamente.

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Texto de Lyne Warren
Fotografias de Jodi Cobb

Embora custe a acreditar, a escravatura não deixou de existir. Mais incrível ainda é o facto de centenas de milhões de pessoas levarem vidas pouco livres, com um nível de oportunidades pouco superior ao dos escravos. Muitas vezes, os mais pobres sacrificam a sua dignidade, os seus filhos, e até os seus corpos, a um mercado global ávido de LUCRO DESUMANO.

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Este bebé não é um escravo. Porém, como está numa caixa de cartão e cresceu numa barraca de chapa ondulada, a vida deste rapaz da Guatemala começa com escassas probabilidades pela frente. Pode ser roubado ou vendido e depois adoptado ilegalmente, no âmbito de um processo internacional transformado em negócio rendível para alguns advogados guatemaltecos que agem como intermediários. Também pode tornar-se numa das 44% de crianças guatemaltecas que crescem padecendo de subnutrição; ou uma das 80% que vivem em habitações sem lavabos, nem sistemas de recolha de lixo; ou das 40% que chegam à idade adulta sem saber ler ou escrever.
A pobreza que aflige a maioria das famílias da Guatemala é a regra, não a excepção. Três mil milhões de pessoas – quase metade da população mundial – lutam pela sobrevivência com menos de dois euros por dia.
Terríveis provações podem levar os mais pobres a vender os seus bens, os seus corpos ou o dos seus filhos.

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Nos países em desenvolvimento, dezenas de milhares de mulheres transformaram-se em produtos do comércio de sexo. Devido a usos tradicionais das suas comunidades, outras jovens não têm direito a fazer opções elementares, relativamente ao casamento e à gravidez.
Embora os casamentos à força sejam denunciados pela Organização das Nações Unidas como forma de escravatura e quase todos os países tenham estabelecido idades legais mínimas para o casamento, os costumes locais continuam a desafiar a lei. No povoado de Bembe, no Benin, todas as mulheres e crianças comparecem perante o chefe da aldeia (em cima). “São poucas as raparigas da aldeia que chegam aos 18 anos sem se casar”, afirma Hector Gnonlonfin, fundador do Tomorrow Children, um abrigo para crianças exploradas. “Encontrámos uma aluna de 10 anos que já tinha marido.”
Para a família da noiva, o preço a pagar por um noivo mais velho pode representar a diferença entre morrer à fome e sobreviver.

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Para a saúde de uma rapariga, as consequências de um casamento precoce podem ser fatais: segundo a Organização Mundial de Saúde, as raparigas com menos de 15 anos têm cinco vezes mais probabilidades de morrer devido a complicações de gravidez do que mulheres com mais de 20 anos.
Por vezes o sacrifício físico apresenta-se num acto único: estas mulheres de Villivakkam (em cima), na Índia, cuja alcunha é “aldeia dos rins”, trocaram um rim por dinheiro. Com cerca de 20 anos na época em que aceitaram fazê-lo, ansiosas por pagar as sufocantes dívidas familiares, elas foram alvos fáceis para os agentes de transplantes que prometeram cerca de 880 euros por cada órgão. Embora recebessem metade do dinheiro adiantado, não recebera o resto da quantia. A Índia proibiu o comércio de órgãos humanos, mas isso não fez para o tráfico. Para estas mulheres, a dor não cessou: três foram abandonadas pelos maridos, que as consideraram bens danificados. Nas suas palavras, só lhes restam as cicatrizes.

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A nova escravatura II – Tailândia: uma rapariga vale um televisor

Setembro às 10:44 pm | Publicado em ambição, cativeiro, corrupção, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, violência | 3 comentários

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)

Anterior: Porque ela parece uma criança

Uma rapariga vale um televisor

O boom económico dos últimos vinte anos (que falhou em 1997) teve um impacte dramático nas aldeias do Norte. Enquanto o centro do país, em volta de Banguecoque, se industrializou rapidamente, o norte foi deixado para trás. Os preços da alimentação, da terra, dos instrumentos, tudo subiu à medida que a economia crescia, mas a remuneração pelo cultivo do arroz e outras actividades agrícolas estagnaram, mantendo-se baixos pelas políticas do governo que garantiam alimentação barata para os operários de Banguecoque. É visível por toda a parte no Norte uma onda da bens de consumo — frigoríficos, televisores, automóveis e camiões, fogões, aparelhos de ar condicionado —, todos extremamente tentadores. A procura desses bens é grande, porque as famílias querem juntar-se às fileiras dos prósperos. Acontece que o custo de participar nesse boom consumista pode alcançar-se através de uma velha fonte, uma que já se tornou muito mais lucrativa: a venda dos filhos.
No passado, as filhas eram vendidas para responder a uma séria crise financeira da família. Sob a ameaça de perderem os seus campos de arroz hipotecados e para fazer face ao desamparo, uma família podia vender uma filha para redimir a sua dívida, mas a maior parte das filhas valiam mais ou menos tanto em casa como trabalhadoras, como renderiam quando vendidas. A modernização e o crescimento económico alteraram tudo isso. Hoje os pais sentem uma grande pressão para comprar bens de consumo que eram desconhecidos ainda há vinte anos; a venda de uma filha pode facilmente financiar a compra de um novo televisor. Um estudo recente nas províncias do Norte descobriu que, das famílias que venderam as suas filhas, dois terços podiam não o ter feito, mas «preferiram comprar televisores a cores e equipamento vídeo». E da perspectiva dos pais que desejam vender os filhos, nunca houve melhor mercado.
A procura de prostitutas pelos bordéis cresce rapidamente. O mesmo boom económico que alimenta a procura do consumo guarnece os bolsos dos agricultores e operários da planície central. Os migrantes pobres dos campos de arroz trabalham agora na construção ou em novas fábricas, ganhando muito mais do que ganhavam na terra. Talvez pela primeira vez nas suas vidas, esses lavradores podem fazer aquilo que os homens tai mais abastados sempre fizeram: ir a um bordel. O poder de compra desse crescente número de utilizadores dos bordéis reforça a procura de raparigas do Norte e sustenta um crescente negócio de proxenetismo e tráfico de raparigas.
A história de Siri era típica. Uma intermediária, ela própria mulher de uma aldeia do Norte, abordava as famílias na aldeia de Siri com garantias de trabalho bem pago para as suas filhas. Os pais de Siri provavelmente compreenderam que o trabalho seria como prostituta — pois sabiam que outras raparigas da aldeia tinham ido para bordéis no sul. Após algumas negociações receberam 50 000 baht (2000 dólares) por Siri, soma muito importante para esta família de cultivadores de arroz. Esta troca iniciou o processo de servidão por dívida usado para escravizar as raparigas. O acordo contratual entre a intermediária e os pais exige que esse dinheiro seja reembolsado pelo trabalho da filha antes que ela fique livre para partir ou lhe seja permitido enviar dinheiro para casa. Por vezes o dinheiro é considerado como um empréstimo aos pais, sendo a rapariga simultaneamente a garantia e o meio de reembolso. Em alguns casos, o juro exorbitante cobrado pelo empréstimo significa que há poucas hipóteses de que a escravidão sexual de uma rapariga consiga alguma vez pagar a dívida.
A dívida de 50 000 baht de Siri aumentou rapidamente. Levada para o sul pela intermediária, Siri foi vendida por 100 000 baht ao bordel onde agora trabalha. Depois da violação e do espancamento, Siri foi informada de que a dívida que tinha de pagar, agora ao bordel, era de 200 000 baht. Além disso, Siri ficou a saber de outros pagamentos que tinha de fazer, incluindo a renda do quarto a 30 000 baht por mês, bem como os gastos em comida e bebidas, taxas para medicamentos e multas se não trabalhasse o suficiente ou desagradasse a um cliente.
A dívida total é virtualmente impossível de pagar, mesmo à elevada taxa de 400 baht de Siri. Cerca de 100 baht de cada cliente deviam ser creditados a Siri para reduzir a sua dívida e pagar a renda e outras despesas; 200 vão para o proxeneta e os restantes 100 para o bordel. Por estes cálculos, dever praticar sexo com 300 homens por mês só para pagar a renda, e aquilo que sobra depois das outras despesas mal dá para reduzir a sua dívida inicial. Para as raparigas que só podem cobrar entre 100 e 200 baht por cliente, a dívida cresce ainda mais depressa. Esta servidão por dívida mantém as raparigas sob o completo controlo durante tanto tempo quanto o bordel e o proxeneta acham que vale a pena tê-las. A violência reforça o controlo, e qualquer resistência vale um espancamento e um aumento da dívida. Com o tempo, se a rapariga se torna uma boa e colaborante prostituta, o proxeneta pode dizer-lhe que pagou a sua dívida e autorizá-la a enviar pequenas somas para casa. Esta «remissão» da dívida não tem em geral nada a ver uma real contagem das receitas, mas é declarada à discrição do proxeneta, como forma de aumentar os lucros a obter, tornando a rapariga mais dócil. Juntamente com as raras visitas a casa, o dinheiro enviado à família serve para mantê-la no seu trabalho.
Segundo a minha própria estimativa moderada, há talvez umas 35 000 raparigas como Siri escravizadas na Tailândia. E este número é apenas uma pequena proporção de todas as prostitutas. O número real de prostitutas, embora desconhecido, é certamente muito mais elevado. O governo afirma que há 81 384 prostitutas na Tailândia — mas este número oficial é calculado a partir do número de bordéis (embora ainda ilegais), salões de massagens e estabelecimentos sexuais registados. Nenhum dos bordéis, bares ou salões de massagens que visitámos na Tailândia estava registado, e ninguém que trabalhe com prostitutas acredita nos números do governo. No outro extremo do espectro estão as estimativas apresentadas pelas organizações de activistas como o Centro para Protecção dos Direitos das Crianças. Esses grupos afirmam que existem no país mais de dois milhões de prostitutas. Suspeito de que este número é demasiado elevado numa população de 60 milhões. O meu próprio cálculo, baseado em informação recolhida pelos activistas da SIDA em diferentes cidades, é que existem entre meio milhão e um milhão de prostitutas.
Para a maioria dos homens tailandeses, o sexo comercial é uma forma legítima de entretenimento e de alívio sexual. Não é apenas aceitável: é uma clara afirmação de estatuto e de poder económico. As mulheres na Tailândia são coisas, instrumentos num jogo masculino de estatuto e de prestígio. Não é pois de surpreender que algumas mulheres sejam tratadas como gado — raptadas, vítimas de abusos, mantidas como animais, compradas e vendidas, e largadas quando deixam de ser úteis. Quando este tratamento habitual se combina com a inexorável busca do lucro da nova economia, o resultado é horrível para as mulheres. É preciso encontrar mais uns milhares para alimentar as necessidades de estatuto dos homens, mais uns milhares devem ser presas na escravatura sexual para alimentar os lucros dos investidores. E que estão a fazer a polícia, o governo, e as autoridades locais quanto à escravatura? Cada caso de escravatura sexual envolve muitos crimes — fraude, rapto, assalto, violação, por vezes assassínio. Esses crimes não são raros nem ocasionais; são sistemáticos e repetidos nos bordéis centenas de vezes por mês. Mas aqueles que detêm o poder para acabar com esse horror ajudam-no, pelo contrário, a crescer cada vez mais no muito lucrativo mundo do escravocrata moderno.

Segue: Corpos descartáveis

A guerra contra as crianças – Claire Brisset

Setembro às 7:51 pm | Publicado em ambição, cativeiro, corrupção, denúncia, exploração, sofrimento, violência | Deixe um comentário
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Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados


É difícil estabelecer o quadro de honra da violência contra as crianças, visto esta poder assumir um sem-número de formas. Difícil, mas não impossível. À cabeça desta lista encontra-se, sem qualquer margem para dúvidas, a guerra – a guerra contra as crianças.
Em 1989, o mundo inteiro foi tomado por um devaneio, uma ilusão generalizada. Um sistema desabava no Leste da Europa e consigo toda uma ideologia centenária. Na altura pensava-se que a competição político-belicista que acompanhou passo a passo esse desmoronamento se iria desvanecer quase instantaneamente. Todas as guerras e conflitos exportados para todo o mundo por esse confronto em que se digladiavam valores contraditórios iriam finalmente apaziguar-se. Especialmente para aqueles que tinham vivido o período imediatamente anterior à Segunda Guerra Mundial, esta ilusão evocava a célebre frase de Chamberlain quando, ao regressar da Alemanha, bradava, à saída do avião, agitando uma folha de papel com o texto dos acordos de Munique: “Trago-vos a paz para o nosso tempo.” As consequências dessa miragem não se fizeram esperar.
Fim da ilusão. O desmantelamento do Império Soviético não só não deu início a nenhum período de paz, como os conflitos não pararam de se intensificar desde então, tanto a sul como a norte do planeta: Conflitos internacionais e sobretudo conflitos civis, sendo estes tão mortíferos como os primeiros. O envolvimento de civis nestas guerras, e entre eles, de crianças, não pára de crescer.
Os números falam por si. Desde 1945, cento e cinquenta conflitos mancharam de sangue o planeta e, há actualmente oitenta países à mercê da violência e da guerra. Quer sejam guerras de pequena dimensão, quer conflitos de enorme amplitude, pouca é a diferença para a população civil, no seio da qual as vítimas se contam aos milhões. De facto, nos últimos dez anos, as guerras mataram mais de dois milhões de crianças. Feriram ou incapacitaram, muitas vezes definitivamente, mais de cinco milhões e traumatizaram psicologicamente perto de doze milhões. O número de órfãos, de crianças separadas da família, arrancadas ao seu lar e à sua terra, é ainda maior. Por último, e derradeira consequência desta violência, as forças armadas recrutam hoje em dia crianças-soldados na ordem das centenas de milhar, as mais jovens das quais terão apenas seis anos de idade.
Mas, dir-se-á, o envolvimento de crianças em conflitos armados não é nenhuma novidade. Nas guerras de outros tempos, perde-se a conta do número de cidades incendiadas ou de civis exilados. Basta recordar que a Cruzada das Crianças, em 1212, lançou para as ruas de toda a Europa cerca de 30 000 crianças mobilizadas para a libertação da Terra Santa. E que Condé ou Turenne, com pouco mais de quinze anos, já comandavam regimentos inteiros de crianças. Frederico o Grande e, posteriormente, Napoleão, tampouco hesitavam em recrutar soldados muito jovens. Por fim, Hitler, a meio da Segunda Guerra Mundial, mandou recrutar para o exército alemão batalhões inteiros de adolescentes.
Tudo isto é certo, está provado e constitui um facto histórico. Por outro lado, a palavra “infantaria”, já nos diz tudo. In-fans, aquele que não fala, é a criança de tenra idade. A expressão acabou por designar a tropa, a tropa terrestre, “a rainha das batalhas”, como dizia Napoleão. Mas esses exércitos dos tempos passados também inventaram a farda militar, cuja única função consistia em distinguir os civis dos militares. E ao longo dos séculos, fomos começando a acreditar num progresso da consciência moral: pouco a pouco, as sociedades estavam a começar a aprender a proteger os civis nos conflitos, em particular as crianças. Em pleno campo de batalha da guerra da Crimeia, Henry Dunant concebeu o que viria a ser a Cruz Vermelha Internacional, um conjunto de fundamentos segundo os quais os civis devem ser poupados e os feridos tratados, independentemente da facção a que pertencem, algo que viria a contribuir para “humanizar” as guerras. Henri Dunant chegou mesmo a receber o Prémio Nobel da Paz por este feito.
“Humanizar” a guerra, poupar os civis… O que se verificou foi exactamente o contrário. Os conflitos do século XX, qual deles o pior, foram um espelho disso. A Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil de Espanha e sobretudo a Segunda Guerra Mundial fizeram com que as crianças entrassem em massa nos conflitos como actores, mas principalmente como vítimas, vítimas da violência cega dos campos de concentração e dos bombardeamentos que se abatem indiscriminadamente sobre as populações civis. E quem paga hoje em dia o preço desta evolução são as crianças, um preço cujo impacto é difícil de calcular.
Depois da Guerra Civil de Espanha e sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, foram-se aperfeiçoando as técnicas para atingir não só as forças de combate, mas também as suas bases na retaguarda, a sua economia e as suas infra-estruturas, mas também os seus suportes psicológicos e afectivos, ou seja, acima de tudo, as mulheres e crianças. Quando o exército alemão bombardeou Guernica e, mais tarde, Coventry, quando os Aliados arrasaram Dresden e os americanos largaram a primeira bomba atómica sobre Hiroshima, a ideia era obviamente aplicar um golpe fatal não tanto às forças de combate, mas à população em geral. Tanto pior, ou mesmo tanto melhor, se entre os alvos atingidos figurasse a mesma quantidade de objectivos civis do que a de pontos estratégicos militares. Graças às armas modernas e aos bombardeamentos aéreos, a guerra entrou numa nova era. Que se cruzou, na mesma altura, com a concepção industrial da limpeza étnica – foi devido a técnicas avançadíssimas que se pôde aspirar à extinção total de grupos humanos considerados indesejáveis, como os judeus ou os ciganos, não fazendo qualquer distinção entre homens, mulheres e crianças. Todos nós assistimos, pelo desenrolar dos acontecimentos, ao sucesso florescente desta concepção da guerra.

Segue: A “criança-alvo”

O negócio da infância

Setembro às 6:58 pm | Publicado em corrupção, denúncia, exploração, fome, miséria, violência | Deixe um comentário
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Manuel Giraldes
in: Além-mar, Janeiro 2006

Na Etiópia, o tráfico interno de crianças ronda as dezenas de milhares. Raptadas, vendidas por familiares ou vizinhos, acabam nas grandes cidades. As meninas vão parar à prostituição ou são exploradas como escravas do lar, os meninos chegam a trabalhar mais de 14 horas por dia, em fabriquetas de têxteis ou tijolos, na construção civil. Há quem os tente ajudar, há até alguns que acabam por ser resgatados. Mas há experiências que deixam sequelas para toda a vida.

Zeiba (9 anos). Está na central de camionagem, mas não vai a lado nenhum. Apenas acabou de chegar. Donde? Pelos olhos dela, tristemente velhos, directamente do inferno. Quase imaginamos rugas em redor, porque, como os mantém sempre baixos, dir-se-iam mergulhados em sulcos de sombra. Fala numa voz sumida, entrecortada, como se as palavras fossem uma espécie de tosse seca. Aos arrancos, lá vai contando: fugiu de uma casa onde se encarregava do trabalho doméstico pelo equivalente a dois euros ao mês; aguentou um ano aquela «vida», depois fugiu. Foi o irmão – tem mais três irmãs – que a trouxe dos campos do Sul até à capital. O pai morreu, alguém tinha de dar uma ajuda. Calhou-lhe a ela. Embora seja difícil imaginá-la a empunhar uma vassoura: pelos padrões europeus, tem um corpo de quatro/cinco anos.

 

Daniel (13 anos). Profissão: tecelão. Horário de trabalho: 14 horas por dia. Está sentado ao lado de Zeiba e dir-se-ia, quando muito, ter mais um ano do que ela. Fala com o tom sério de um soldadinho que foi à guerra e sobreviveu ao que viu, já sem lágrimas nem sequer quem o chorasse: a mãe morreu, o pai voltou a casar, entre os dois legaram-lhe três irmãs e o mais completo abandono. No seu caso, foi um vizinho que se encarregou de o trazer do Sul até à grande cidade, de fechar o negócio. Se negócio se lhe pode chamar! Ordenado: zero; alimentação: um a três pães por dia; bónus: o patrão mandava todos os anos o equivalente a dez euros para a sua família; subsídio: quando bebia, batia-lhe. Durante dois anos, teceu imparavelmente o fino fio do algodão: produzia um manto (gabi) por dia e uma mantilha tradicional (natala) – que, no mercado, se vende pelo correspondente a 80/100 euros por semana. Depois, não aguentou mais. Fugiu. Andou 15 quilómetros até chegar à estação, há dois dias. Quando acaba de ciciar a sua história, levanta-se para nos apertar a mão. E, quase milagrosamente, esboça um leve sorriso. Por incrível que pareça, Zeiba e Daniel tiveram sorte. Quando os encontramos, estão sentados num banco corrido, num cubículo que fica logo à esquerda dos portões que, em Adis-Abeba, acolhem os veneráveis autocarros que tanto percorrem o escasso macadame como as inúmeras «estradas» – de terra batida, de cascalho, de barro e lama – que irrigam de movimento e vida o imenso e montanhoso país. Com ajuda, encontraram o caminho. Embora sem a garantia de que não seja um beco sem saída, de que não venham a ser obrigados a fazer marcha atrás.

Um menino por um euro

Zeiba e Daniel são apenas duas ínfimas peças de uma imensa e lucrativa engrenagem: na Etiópia, o tráfico de crianças e jovens entre os dez e os 18 anos «ronda as dezenas de milhares». Num país onde de repente se descobre que o recenseamento está incorrecto e que, em vez de 75, há 77 milhões de etíopes, é claro que não «existem números exactos». Conhecem-se, sim, com precisão, os casos concretos. Ou pequenos «pormenores»: «Há crianças que chegam a ser vendidas por um euro.»

Quem o diz, com uma voz em que a eficiência ainda não substituiu por completo a mágoa, é Meron Negash, do recém-fundado Fórum on Street Children – Ethiopia (FSCE), uma organização não governamental que tenta remar contra a torrente dos meninos de rua. Sim, porque tanto aqueles que são raptados e traficados como os que são maltratados e explorados, em casa ou nos locais de trabalho, possuem algo em comum: todos fogem e desaguam nas ruas. A única diferença: uns fogem antes de serem apanhados na teia, outros depois.

De que fogem? Que pergunta… Num país onde 81,9 por cento da população vive com cerca de um euro por dia, numa nação milenarmente cristã mas multiétnica onde, em muitas zonas, é corrente um homem ter duas, três, quatro mulheres e um somatório de oito, dez, doze filhos, a maioria foge à pobreza e à fome. Mas também escapam à violência, a um casamento forçado, ao engano em que caem quando alguém lhes propõe trabalho ou uma oportunidade de estudar e se vêem vendidos a bordéis, a hotéis, a patrões. O destino varia geralmente segundo os sexos, a desgraça é a mesma: elas prostituem-se, tornam-se empregadas domésticas; eles vão parar sobretudo a fabriquetas de tecidos onde são «armazenados» e obrigados a trabalhar 14, 15 horas por dia, mas também efectuam trabalhos ainda mais pesados, nas fábricas de tijolo, na construção civil. Há uma «profissão», porém, em que não há descriminação sexual: «Por vezes, as crianças são mutiladas pelos traficantes, para as porem a pedir nas ruas. Tornam-se mendigos à força.»

As meninas que são obrigadas a prostituírem-se, nas ruas, nos bordéis ou nos hotéis, têm maior procura quando se encontram na casa dos 11,13 anos. Diz Meron Negash: «Quanto mais nova melhor. Há a ideia de que assim não há o perigo de contrair sida e outras doenças.» Embora a organização possua um abrigo seguro onde as que conseguem escapar às teias do negócio podem permanecer durante seis meses, a sua reinserção social é extremamente difícil. «O estigma permanece. Ninguém quer empregar crianças exploradas sexualmente.»

Sequelas para toda a vida

Fikir Isedeke, uma advogada que colabora com o Fórum, estabelece o elo com a pequena «esquadra» que funciona no terminal de autocarros do Merkato. É para aí, para um cubículo que não terá mais do que dois por três metros, que as autoridades encaminham as crianças que, como Zeiba e Daniel, são encontradas a deambular pelas ruas. E é ela que coordena os esforços de reintegração social, que passam em primeiro lugar pela tentativa de as fazer regressar às suas famílias.

Bigo (15 anos) pode considerar-se realmente afortunada. Ao fim de três dias de autocarro desde o seu Wolisso natal, também no Sul do país, viu-se como empregada para todo o serviço numa casa onde era perseguida pela outra criada, que a humilhava por causa dos seus modos campesinos. Não aguentou mais de uma semana e fugiu. Depois de apenas um dia na rua, está agora sentada ao lado de Zeiba e Daniel, mas tudo a distingue deles: razoavelmente alta e bem nutrida, a sua vivacidade natural não se deixa abater pela situação. Embora tenha o 9° ano de escolaridade, quando a Polícia a encontrou nem sequer sabia dizer onde vivia a família, que foi exactamente quem a «vendeu» ao intermediário que a trouxe para a capital – pela módica quantia de dois euros. A história repete-se: a mãe morreu, o pai voltou a casar, tem quatro irmãos. Mas desta vez parece destinada a ter um final feliz: foi possível localizar os familiares, que esta tarde virão buscá-la.

A experiência foi tão curta que poucas marcas terá deixado. Mas, infelizmente, no meio de tanta miséria e exploração, o caso de Bigo até poderia passar por um conto de fadas. Uma grande parte das que passam por este tipo de trauma «ficam com sequelas psicológicas para toda a vida». Então, no caso das que foram molestadas, «são muito poucas as que recuperam».

O Fórum, em colaboração com outras organizações, tenta ensinar ofícios aos meninos, arranjar-lhe trabalho quando têm mais de 14 anos. Porque, quando as famílias são demasiado pobres, a tendência é irem parar outra vez à rua. Pensando melhor, Bigo ainda não está a salvo. Até porque, a par do tráfico interno, na Etiópia existe tráfico de raparigas para os países do Médio Oriente. Que, segundo uma responsável pela Organização Internacional para as Migrações, já era grande e tem tendência para aumentar.

Um tráfico condenado

Fikir Isedeke assegura que o tráfico interno é um fenómeno à escala nacional Porque, no fundo, todos colaboram, todos são traficantes: parentes, amigos da família, vizinhos, os motoristas de camião que percorrem incessantemente as «estradas» e as picadas do país Há uma espécie de círculo vicioso: «Algumas são raptadas a caminho da escola e por isso fogem das aldeias para as cidades para não voltarem a ser raptadas.» Ao fugir, vão parar às ruas. Que é precisamente o grande «mercado abastecedor» dos traficantes. Então, o que fazer? «Há que processar os traficantes, para despertar a consciência da opinião pública», afirma a doutora Isedeke. Quando lhe perguntamos se é fácil condená-los, solta um imperceptível suspiro, não se sabe se por cansaço, se por ter de enfrentar uma tão grande ingenuidade: «Só me lembro de um», diz.

Um padre comboniano, que trabalhou durante muitos anos no Sul, conta-nos que, sempre que uma criança desaparece subitamente, a família conforma-se e invariavelmente afirma: «Foram os babuínos.» Ele bem tentava explicar: «Olhem que não… São mas é os camionistas…» Aqui e ali, lá vislumbramos os esquivos babuínos. Os camionistas, esses, estão ao virar de cada esquina. Mas as crianças também. Num país tão populoso e tão «novo», há magotes de crianças em cada berma, há bebés de colo a espreitar, sozinhos, os ferengi (estrangeiros). No alto dos montes, nos vastos planaltos, são as crianças que, perdidas naquela imensidão, pastoreiam as cabras e as ovelhas, guardam as vacas, tocam os pequenos e diligentes burros, que se diria serem mais numerosos do que as estrelas. Todas acenam, todas sorriem, todas correm em direcção à estrada e ao todo-o-terreno para saudar o viajante. Por todo o lado, o bem mais abundante e mais barato parece ser a própria vida. E há sempre quem tenha olho para o negócio.

 

Rosas com espinhos – Caroline Njenga

Setembro às 6:51 pm | Publicado em ambição, cativeiro, corrupção, crueldade, denúncia, exploração, miséria, sofrimento | Deixe um comentário

Caroline Njenga
in:Além-mar, Janeiro 2006

O Quénia produz diariamente 800 mil pés de flores para exportação: são rosas. Naivasha, no oeste do país, tem as condições ideais para a floricultura. Mas os trabalhadores não estão a tirar partido do lucrativo negócio. Muito pelo contrário. E o meio ambiente também não. A indústria exportadora de flores do Quénia está a desabrochar em força. É a terceira maior fonte de divisas estrangeiras, depois do turismo e do chá. A floricultura regista um crescimento rápido através da transformação de grandes quintas em estufas.

O Quénia é um dos maiores fornecedores de flores cortadas ao mercado europeu e a indústria emprega mais de 50 mil operários. Contudo, enquanto as empresas continuam a crescer e a registar grandes ganhos anuais, os trabalhadores estão cada vez mais pobres. A pobreza não é o único problema que enfrentam. Há casos de assédio, intimidação, longas horas de trabalho extraordinário sem a correspondente remuneração e despedimentos ilegais.

Para compreender melhor a situação dos trabalhadores, fui a Naivasha, onde se concentram os maiores produtores e flores. A área de Karagita é o seu coração, e dá nome à pequena cidade onde vive a maioria dos trabalhadores. Um lugar pacato, excepto para uns quantos que andam a apregoar os seus serviços. Um deles diz-me que quase todos os habitantes de Karagita trabalham nas estufas. Parece que não têm alternativa.

Abortos e bebés mortos

Não me permitiram entrar nas plantações. Para falar-lhes, tive de esperar que os operários acabassem os seus turnos. Os autocarros das empresas floricultoras voltam à tardinha com os trabalhadores que fizeram o turno da manhã. Muitos dos que se apeiam são mulheres jovens.

Wanjiru – os nomes foram mudados para proteger a identidade dos entrevistados – diz-me que selecciona e embrulha flores. Por vezes, ela e outras colegas têm de trabalhar muito para além do horário do seu turno. Mesmo quando deixam o emprego depois da meia-noite, têm de se apresentar novamente ao trabalho às seis da manhã. Hoje saiu cedo porque as encomendas não eram muitas.

No mês passado, houve dois casos de violação denunciados por mulheres que ficaram a trabalhar até tarde nas plantações. Wanjiru diz que os autocarros da companhia costumavam deixá-las junto de casa, mas os supervisores aboliram a benesse e agora os operários são deixados na paragem, mesmo às horas mais tardias. «Nós somos violadas, mas na manhã seguinte esperam que estejamos a trabalhar», diz. Wanjiru continua a desfiar a sua história. Quem embrulha flores permanece de pé durante longas horas. E não há intervalos, excepto para almoço. «Estamos habituadas a estar de pé», afirma. Mas diz que, por causa disso, muitas mulheres têm problemas de saúde.

Abortos espontâneos são comuns. Um grande número de bebés morre logo depois do parto. Outras mulheres queixam-se de que não conseguem engravidar por causa da exposição a substâncias químicas. Parece que as empresas de floricultura não levam a sério as questões relacionadas com a saúde. Apesar de terem clínicas privadas, os empregados queixam-se de que os tratamentos são muito caros e inadequados.

Joseph Onyango, que foi condutor de camiões na Homegrown e entretanto se despediu, conta que sofreu um acidente de trabalho em Setembro de 2004. «Estava a ajudar a rebocar um dos tractores e encontrava-me a amarrar uma corda. Infelizmente, o outro condutor meteu a mudança errada e fui entalado. Socorreram-me imediatamente, mas o sangue corria por toda a perna. Pensei que ia morrer. Levaram-me para a clínica da empresa, prestaram-me os primeiros socorros e coseram a ferida. Pensei que, como o acidente foi grave, seria transferido para um hospital para fazer mais exames. Mas levaram-me para casa e disseram que a ambulância me recolheria na manhã seguinte porque o doutor não estava na clínica. Não conseguia sequer caminhar, e tive de ser levantado como um bebé; o meu braço também estava ferido. No dia seguinte esperei que alguém me viesse buscar, mas o director não enviou ninguém. Fui obrigado a chamá-los. Irritaram-me bastante, porque sabiam muito bem a condição em que me encontrava. Telefonei e disseram-me que a ambulância tinha problemas mecânicos. Mas eu vi-a a passar à frente da minha porta. É assim que tratam os trabalhadores. Dão mais valor às flores do que às pessoas.»

Um euro por dia

Os assalariados recebem entre 85 e 100 shillings quenianos – cerca de um euro – por dia. Algumas companhias só pagam os seis dias de trabalho, omitindo a folga. Outras não pagam as hora extraordinárias. A maioria dos trabalhadores recebe um subsídio de alojamento, mas algumas das companhias oferecem casa aos trabalhadores. Visitei um desses locais para me inteirar das suas condições. As construções têm uma só divisão e estão muito juntas. Um dos empregados disse-me que tem duas crianças que partilham o quarto com ele e com a esposa. Contou-me que não podem receber hóspedes por mais de uma semana, senão têm problemas. Mas afirma que a situação está a melhorar: «No passado, partilhámos o quarto com outra família. Era realmente mau, não havia privacidade.»

Os trabalhadores da indústria das flores enfrentam inúmeras dificuldades. Debatem-se sobretudo com a falta de um sindicato que defenda os seus direitos, embora exista um Comité de Assistência que deveria ajudá-los. De acordo com os empregados, os maiores entraves partem da administração das companhias: são os directores que impõem quem deve dirigir o Comité. Numa das floricultoras, um condutor contou-me que nas últimas eleições escolheram o seu delegado, mas a administração queria impor outro dirigente. «O nosso representante não durou uma semana. Enviaram-lhe uma carta de despedimento. Não podemos manifestar os nossos protestos a esta gente; eles apoiam as administrações e têm medo de perder o próprio emprego se falarem.» Há muitas intimidações nas companhias. As pessoas têm medo de começar um sindicato, porque temem ser despedidas.

Hipopótamos envenenados

Os trabalhadores não são as únicas vítimas da indústria da floricultura. O lago Naivasha e o delicado ecossistema que o circunda também não foram poupados. Frequentemente, os produtos químicos utilizados acabam no lago. É comum os pescadores encontrarem peixes mortos à tona da água. Conhecem-se casos preocupantes: dois hipopótamos e algum gado dos pastores Massai também morreram depois de beberem água do Naivasha.

Os empregados das estufas admitem que algumas companhias deixam escorrer os resíduos para o lago. E não é só o lago que é afectado pelos produtos químicos. Alguns trabalhadores encontram-se em situação de alto risco, sobretudo os que pulverizam as plantas e colhem as flores.William, que trabalha na Homegrown, diz que, apesar de usarem equipamento de protecção, fazem testes frequentes para ver se estão bem de saúde e podem continuar a tratar as plantas. «Tiram-nos o sangue para exames, mas não dizem o que estão a despistar. Alguns colegas foram transferidos de lugar depois dos testes, mas não sabem porquê.»

William continua: «Quando pulverizamos as flores, sabemos que ninguém deve entrar na estufa durante um número mínimo de horas. Mas, se as flores são precisas, os cortadores vêm apanhá-las depois de uma hora. Às vezes o spray nem sequer chegou a secar e ainda se sente o cheiro. As mulheres, ou colhem as flores ou perdem o emprego. São capazes de não saber quanto tempo depois de os pesticidas terem sido usados é que podem entrar, mas nós sabemos. Se o supervisor diz que o podem fazer depois de uma hora, nós não podemos protestar. Temos medo de perder o nosso trabalho.»

À espera de Londres

Durante o ano passado, Naivasha foi um dos lugares mais perigosos do Quénia. Alguns condutores dos turnos da noite foram assaltados e os seus pertences roubados. As companhias para que trabalham não os compensaram.

Em Outubro, um grupo de trabalhadores da Flamingo Farm, proprietária da companhia Homegrown, escreveu uma carta ao director-geral da empresa, em Londres, a denunciar o sentimento de frustração dominante, a intimidação e o assédio por parte dos administradores locais. A denúncia causou muita tensão – que afectou também as outras empresas – e espera-se que venha a gerar mudanças.

O perfume doce das flores melhora a vida de alguns mas piora a de outros. Oferecer uma rosa pode sair barato. Mas, no Quénia, o gesto sai caro à saúde pública e ao meio ambiente.

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