Escravos do século XXI

Setembro às 10:40 am | Publicado em ambição, cativeiro, corrupção, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, fome, miséria, sofrimento, violência | 19 comentários
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National Geographic – Set. 2003

Texto: Andrew Cockburn
Imagem: Jodi Cobb

O título não é uma metáfora. Falamos mesmo de escravos. Não de seres humanos que vivem como escravos, trabalhando por um salário miserável. Não são também os escravos de há 200 anos. Falamos dos 27 milhões de pessoas que, em todo o mundo, incluindo Portugal, são compradas e vendidas, exploradas e brutalizadas para dar lucro. São os escravos do século XXI.

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No Norte da Índia, num quarto mal iluminado e sem ventilação, uma dúzia de crianças debruçadas sobre aquecimentos a gás fabrica pulseiras para vender a 40 cêntimos a dúzia. De idades compreendidas entre os 9 e os 14 anos, estas crianças trabalham dez horas por dia, todos os dias – vendidas pelos pais ao dono da oficina em troca de dinheiro. Em média, as crianças indianas são escravizadas por cerca de 30 euros.

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As dívidas condenam famílias ao CATIVEIRO durante várias gerações. No Sudoeste da Índia, mães e filhas transportam para o forno tijolos feitos à mão, enquanto pais e filhos atiçam o fogo. Os empregadores compram os trabalhadores, emprestando dinheiro para despesas que eles não conseguem pagar. Apesar de trabalharem muitos anos para pagar a dívida, os juros exorbitantes e a contabilidade desonesta perpetuam o fardo, que passa de pais para filhos. Cerca dos dois terços dos trabalhadores cativos de todo o mundo – 15 a 20 milhões – são escravos por dívidas na Índia, no Paquistão, no Bangladesh e no Nepal.

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O corpo de uma mulher pode ser VENDIDO vezes sem conta. Os donos de bordéis israelitas, podem comprar jovens da Ucrânia ou da Moldávia por cerca de 3.500 euros. Mesmo um pequeno negócio com dez prostitutas pode render milhões se euros por ano. Fazendo-se passar por recrutadores de mão-de-obra, os traficantes vão buscar vítimas às cidades pobres da Europa do Leste, atraindo-as com promessas de bons empregos. Quando as mulheres chegam, são entregues a compradores que, por norma, as espancam, violam ou aterrorizam para garantir obediência.

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PROMESSA QUEBRADA

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Os pais do rapaz enviaram-no como aprendiz de mecânico para a capital do Benin. Trabalha o dia todo (em cima), sem descanso nem salário. Não pode sair à rua sem autorização e a desobediência é punida com pancada. Segundo Kevin Bales, director da associação Free The Slaves, a escravatura actual é caracterizada por domínio e exploração económica. O controlo sobre os escravos não se exerce com um regime legal de propriedade, mas através do que Bales chama a “autoridade decisiva da violência”. A escravatura é difícil de detectar: entre os cerca de 60 mil chineses que vivem em Itália, imigrantes legais e ilegais trabalham lado a lado com escravos. As buscas em locais como esta fábrica de peles perto de Florença (em baixo) são dificultadas pela barreira da língua e pelo uso de documentos falsos.

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Em Bombaim, na série de bordéis que ladeiam a rua de Falkland, as raparigas mais jovens e bonitas são exibidas em jaulas ao nível da rua para atrair clientes. Muitas mulheres são despejadas por traficantes nestas colmeias, mas muitas são definitivamente vendidas pelos pais ou pelos maridos. Cerca de 50 mil mulheres – metade das quais despachadas a partir do Nepal através da Índia – trabalham como prostitutas na cidade. A violência, as doenças, a subnutrição e a falta de cuidados médicos reduzem a sua esperança de vida para menos de 40 anos.

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Nasci escrava

O meu nome é Salma. Nasci na Mauritânia em 1956, escrava. Os meus pais eram escravos e os pais deles foram escravos da mesma família. Assim que comecei a andar, fui obrigada a traba¬lhar durante todo o dia, todos os dias. Mesmo quando estava doente, tinha de trabalhar.
Quando ainda era criança, comecei a tomar conta da primeira mulher do chefe da família e dos seus 15 filhos. Mais tarde, se algum dos meus próprios filhos estava doente ou em perigo, não me atrevia a ajudá-lo, porque tinha de tratar dos filhos da mulher do meu patrão. Batiam-me frequentemente. Um dia, bateram na minha mãe e eu não aguentei: tentei impedi-los. O chefe da família ficou muito zangado comigo. Atou-me as mãos, marcou-me com um ferro em brasa e deu-me um estalo. O anel dele fez-me um corte que deixou uma cicatriz.
Não me deixaram ir à escola, nem aprender mais do que alguns versículos e orações do Alcorão. Mas tive sorte, porque o filho mais velho do patrão andou numa escola longe da aldeia e tinha ideias diferentes das do pai. Em segredo, ensinou-me a falar francês e a ler e escrever um pouco. Acho que toda a gente pensou que ele andava a violar-me, mas ele estava a ensinar-me.
Os outros escravos sentiam medo da liberdade: tinham medo de não saberem para onde ir ou o que fazer. Mas eu sempre acreditei que tinha de ser livre e acho que foi isso que me ajudou a fugir. Há cerca de dez anos, tentei escapar: como não sabia a que distância ficava o Senegal, caminhei durante dois dias no sentido errado. Descobriram-me, levaram-me para trás e castigaram-me. Ataram-me os pulsos e os tornozelos, amarraram-me a uma tamareira num terreno da família e deixaram-me lá durante uma semana. O chefe da família cortou-me os pulsos com uma navalha para que eu sangrasse horrivelmente. Ainda tenho as cicatrizes.
Por fim, conheci um homem no mercado que me disse que o Senegal ficava do outro lado do rio. Decidi tentar outra vez. Corri até ao rio onde o dono de um pequeno barco de madeira aceitou levar-me até ao Senegal. Aí, fui até um refúgio administrado por um antigo escravo da Mauritânia. Fiquei no Senegal durante alguns anos, ganhando dinheiro a fazer trabalhos domésticos. Mas nunca me senti segura. Estava sempre com medo que o chefe da família pagasse a alguém para me ir procurar e me levasse de volta à sua casa.
Quando cheguei aos EUA, trabalhei a fazer tranças no cabelo. Da primeira vez que me pagaram por um trabalho, chorei. Nunca tinha visto ninguém ser pago pelo seu trabalho. Foi uma surpresa muito agradável. Uma das coisas mais difíceis foi abandonar os meus filhos, mas sabia que primeiro tinha de fugir. Desde que aqui cheguei, há três anos, tenho trabalhado para libertá-los. Paguei a pessoas que os encontraram e os levaram para o Senegal e agora estou a pagar para que os meus filhos vão à escola.
Levanto-me cedo todas as manhãs, compro um cartão telefónico e falo com eles. Dizem-me que preferem morrer na rua do que voltar à Mauritânia. A minha filha mais velha já está comigo nos EUA. Desejo muito que os meus outros filhos venham ter connosco. Na Mauritânia, nunca tive o direito de tomar decisões em relação aos meus filhos. Aqui é tão diferente.
Na Mauritânia, não me atrevia a ir ter com o governo porque eles não ligavam. As leis não interessam, porque eles não as aplicam. Talvez esteja escrito que não existe escravatura, mas isso não é verdade. Mesmo diante do presidente da Mauritânia, agora posso afirmar em voz alta que existe escravatura na Mauritânia porque já sou tão livre como ele. Quando cheguei aos EUA, tive medo que me mandassem embora. Foi então que conheci o meu advogado, um médico, que me ajudou, e Kevin Bales, da organização Free the Slaves. Conheci também o Programa Bellevue para os Sobreviventes da Tortura. O juiz que julgou o meu pedido de asilo era honesto e cumpriu a sua função. Exigiu provas, mas depois ouviu e prestou atenção.
Um dia, gostaria de ser cidadã dos Estados Unidos e quero que os meus filhos também sejam. Aqui tenho liberdade de expressão. Na Mauritânia, não havia liberdade de expressão. No Senegal, tinha medo de falar abertamente porque era muito próximo da Mauritânia. Então tive de ter cuidado. Tive de ir para muito, muito, muito longe. Aqui, agora, posso falar abertamente.

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Texto de Lyne Warren
Fotografias de Jodi Cobb

Embora custe a acreditar, a escravatura não deixou de existir. Mais incrível ainda é o facto de centenas de milhões de pessoas levarem vidas pouco livres, com um nível de oportunidades pouco superior ao dos escravos. Muitas vezes, os mais pobres sacrificam a sua dignidade, os seus filhos, e até os seus corpos, a um mercado global ávido de LUCRO DESUMANO.

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Este bebé não é um escravo. Porém, como está numa caixa de cartão e cresceu numa barraca de chapa ondulada, a vida deste rapaz da Guatemala começa com escassas probabilidades pela frente. Pode ser roubado ou vendido e depois adoptado ilegalmente, no âmbito de um processo internacional transformado em negócio rendível para alguns advogados guatemaltecos que agem como intermediários. Também pode tornar-se numa das 44% de crianças guatemaltecas que crescem padecendo de subnutrição; ou uma das 80% que vivem em habitações sem lavabos, nem sistemas de recolha de lixo; ou das 40% que chegam à idade adulta sem saber ler ou escrever.
A pobreza que aflige a maioria das famílias da Guatemala é a regra, não a excepção. Três mil milhões de pessoas – quase metade da população mundial – lutam pela sobrevivência com menos de dois euros por dia.
Terríveis provações podem levar os mais pobres a vender os seus bens, os seus corpos ou o dos seus filhos.

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Nos países em desenvolvimento, dezenas de milhares de mulheres transformaram-se em produtos do comércio de sexo. Devido a usos tradicionais das suas comunidades, outras jovens não têm direito a fazer opções elementares, relativamente ao casamento e à gravidez.
Embora os casamentos à força sejam denunciados pela Organização das Nações Unidas como forma de escravatura e quase todos os países tenham estabelecido idades legais mínimas para o casamento, os costumes locais continuam a desafiar a lei. No povoado de Bembe, no Benin, todas as mulheres e crianças comparecem perante o chefe da aldeia (em cima). “São poucas as raparigas da aldeia que chegam aos 18 anos sem se casar”, afirma Hector Gnonlonfin, fundador do Tomorrow Children, um abrigo para crianças exploradas. “Encontrámos uma aluna de 10 anos que já tinha marido.”
Para a família da noiva, o preço a pagar por um noivo mais velho pode representar a diferença entre morrer à fome e sobreviver.

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Para a saúde de uma rapariga, as consequências de um casamento precoce podem ser fatais: segundo a Organização Mundial de Saúde, as raparigas com menos de 15 anos têm cinco vezes mais probabilidades de morrer devido a complicações de gravidez do que mulheres com mais de 20 anos.
Por vezes o sacrifício físico apresenta-se num acto único: estas mulheres de Villivakkam (em cima), na Índia, cuja alcunha é “aldeia dos rins”, trocaram um rim por dinheiro. Com cerca de 20 anos na época em que aceitaram fazê-lo, ansiosas por pagar as sufocantes dívidas familiares, elas foram alvos fáceis para os agentes de transplantes que prometeram cerca de 880 euros por cada órgão. Embora recebessem metade do dinheiro adiantado, não recebera o resto da quantia. A Índia proibiu o comércio de órgãos humanos, mas isso não fez para o tráfico. Para estas mulheres, a dor não cessou: três foram abandonadas pelos maridos, que as consideraram bens danificados. Nas suas palavras, só lhes restam as cicatrizes.

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Contra a cultura do silêncio

Setembro às 7:01 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, miséria, sofrimento, violência | 1 Comentário
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Além-mar
Junho 2007

Renato Kizito Sesana

Contra a cultura do silêncio

Na zona do Quénia que produz uma boa parte das flores que estão à venda na Europa, o crime sexual tornou-se uma praga. Mas uma mulher decidiu combatê-la. E afirma que será possível erradicá-la se se vencer a cultura do silêncio.

Uma mulher iniciou uma campanha para educar os quenianos sobre a necessidade de denunciar ofensas sexuais. As notícias dos jornais ilustram bem a sua oportunidade: “Um homem desonrou a sua filha menor”; “Menor desonrado por um vizinho”; “Uma menina de oito anos violada por um gangue no caminho da escola.” Estes são alguns dos cabeçalhos sobre Naivasha, uma pequena cidade nas margens do lago do mesmo nome, 100 quilómetros a noroeste de Nairobi, no Quénia, que ganhou notoriedade no passado recente devido à escalada de casos de violação, de atentados ao pudor e de incesto. Mal passa uma semana sem que ocorra um incidente.

Mas os esforços de uma só mulher estão agora a render dividendos. Rahab Wairuru é directora do Grupo de Apoio aos Desfavorecidos de Naivasha (NADISGO na sigla inglesa), que foi criado em 2003. o grupo tem estado envolvido no apoio às vítimas e na sensibilização dos habitantes para a importância de denunciar as ofensas sexuais. “Educamos os habitantes sobre a importância de quebrar o silêncio quando alguém é ofendido”, diz Wairuri. Diz também que o número de ofensas sexuais tem estado a aumentar, que, graças ao NAGADISGO, o número de casos que estão a ser denunciados são mesmo mais elevados do que os que antes eram conhecidos.

Vencer o medo

“Quando o NAGADISGO foi criado, dirigimos então a nossa atenção para o “Children’s Act”, que tinha acabado de ser decretado em 2001, e informámos o público acerca dos seus benefícios”, afirma Wairuri. Foi enquanto o divulgavam que perceberam que mulheres e crianças sofriam em silêncio: “As mães não sabiam o que fazer depois de encontrarem os maridos a desflorar as suas filhas.” As mulheres, acrescenta, tinham receio de denunciar os seus maridos e tentavam conservar os casamentos. Outras achavam a situação demasiado vergonhosa: ao denunciarem os maridos, tornar-se-iam assunto de todas as conversas. Algumas vítimas temiam também denunciar os criminosos, porque sabiam que estes acabariam por ser libertados. “Por ignorância, quando alguém era detido, levado a tribunal e lhe era concedida caução, era absolvido da acusação. E as vítimas mantinham-se em silêncio para não serem atacadas outra vez pelo mesmo indivíduo.”

Não ajudava nada que, depois, alguns dos criminosos se fossem vangloriar da sua liberdade, o que fazia que outras vítimas se assustassem e optassem pelo silêncio. “Compreendi então que as pessoas do grupo de apoio precisavam de fazer as vítimas ultrapassar o medo que sentiam quando eram alvo de abusos sexuais.”

Prevenir a sida

Em 2004, o NADISGO mudou de estratégia e começou a informar as mulheres sobre questões como a violação ou o atentado ao pudor. Wairuri e as suas colegas começaram a divulgar numa escola o que a lei diz acerca de ofensas sexuais e as respectivas penas, a alertar para a importância de denunciar esses casos. Foram também as barazas (reuniões comunitárias, na língua suaíli) organizadas por chefes, e logo as pessoas começaram a aparecer. As pessoas também não sabiam como era importante procurar ajuda nas 72 horas após a violação. “Se uma vítima é violada ou molestada, pode iniciar o tratamento que ajudará a impedir que contraia o HIV/sida. Mas essa janela de esperança fecha-se no espaço de três dias”, explica.

De igual modo, as pessoas desconheciam o procedimento a seguir para denunciar os autores dos abusos. O ministério da Educação deu uma ajuda, permitindo aos membros do Grupo de Apoio falar com os alunos sobre os crimes sexuais e o que fazer se fossem vítimas de abusos. As pessoas aprenderam a ultrapassar o silêncio e começaram logo a procurar a ajuda da polícia. O NADISGO também se dedicou à tarefa de ajudar as vítimas a denunciar os abusos à polícia e levá-las ao hospital para exames e tratamentos. “Também seguimos os casos quando são levados a tribunal, e por vezes ajudamos as vítimas a irem a tribunal, pois a maioria desconhece os procedimentos legais”, diz.

Wairuri diz que, só no ano passado, 180 atentados ao pudor, 90 violações e 16 casos de sodomia foram denunciados nos escritórios da NADISGO. Está contente por ter ajudado a quebrar a política do silêncio. As pessoas estão agora informadas e, em algumas áreas, as comunidades já estão a ajudar as vítimas a procurar apoio. “Se uma família se mantém em silêncio num caso de incesto, há que procurar vizinhos que intervenham e denunciem o caso à polícia. Mesmo nas escolas, os alunos estão conscientes das ofensas sexuais e denunciam-nas, quer sejam elas as vítimas ou os seus amigos”, afirma ela.

Condições inumanas

As pessoas falam agora abertamente sobre ofensas sexuais e isto ajudou a diluir o estigma que inicialmente lhes estava associado. “As meninas aprenderam a denunciar pais ou irmãos”, diz uma mulher de 38 anos, mãe de duas filhas.

Mas esta luta não tem estado isenta de oposição. Wairuri recorda um incidente que ocorreu no ano passado, quando um polícia local e representantes provinciais da administração se aproximaram de um grupo e lhe pediram para terem cuidado nas suas campanhas, porque estavam a afugentar os investidores. Naivasha é o principal centro de floricultura no Quénia e o político não estava contente coma publicidade negativa que a cidade começava a ter. “Disse-lhes que não pararíamos. A luta contra a violação e os abusos é mais importante do que os negócios”, diz ela.

Wairuri acredita que esta guerra pode ser ganha no Quénia se a cultura do silêncio for vencida. “Se as pessoas deixarem de ficar caladas quando são violadas ou vítimas de qualquer outra forma de abuso sexual, podemos ganhar”, assegura.

Wairuri é uma mulher rechonchuda com um sorriso fácil, o oposto do estereótipo da feminista furiosa. Acredita na bondade natural dos seres humanos, e que tais crimes são alimentados pelas condições de vida inumanas das pessoas que trabalham nas estufas de floricultura. “Esta é uma caminhada de mil milhas e tem de começar com um passo. Com a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e com uma consciência tanto da sua dignidade como da dos seus filhos. Num futuro próximo, o crime sexual desaparecerá por completo e as mulheres e as raparigas viverão sem medo.”

A nova escravatura II – Tailândia: uma rapariga vale um televisor

Setembro às 10:44 pm | Publicado em ambição, cativeiro, corrupção, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, violência | 3 comentários

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)

Anterior: Porque ela parece uma criança

Uma rapariga vale um televisor

O boom económico dos últimos vinte anos (que falhou em 1997) teve um impacte dramático nas aldeias do Norte. Enquanto o centro do país, em volta de Banguecoque, se industrializou rapidamente, o norte foi deixado para trás. Os preços da alimentação, da terra, dos instrumentos, tudo subiu à medida que a economia crescia, mas a remuneração pelo cultivo do arroz e outras actividades agrícolas estagnaram, mantendo-se baixos pelas políticas do governo que garantiam alimentação barata para os operários de Banguecoque. É visível por toda a parte no Norte uma onda da bens de consumo — frigoríficos, televisores, automóveis e camiões, fogões, aparelhos de ar condicionado —, todos extremamente tentadores. A procura desses bens é grande, porque as famílias querem juntar-se às fileiras dos prósperos. Acontece que o custo de participar nesse boom consumista pode alcançar-se através de uma velha fonte, uma que já se tornou muito mais lucrativa: a venda dos filhos.
No passado, as filhas eram vendidas para responder a uma séria crise financeira da família. Sob a ameaça de perderem os seus campos de arroz hipotecados e para fazer face ao desamparo, uma família podia vender uma filha para redimir a sua dívida, mas a maior parte das filhas valiam mais ou menos tanto em casa como trabalhadoras, como renderiam quando vendidas. A modernização e o crescimento económico alteraram tudo isso. Hoje os pais sentem uma grande pressão para comprar bens de consumo que eram desconhecidos ainda há vinte anos; a venda de uma filha pode facilmente financiar a compra de um novo televisor. Um estudo recente nas províncias do Norte descobriu que, das famílias que venderam as suas filhas, dois terços podiam não o ter feito, mas «preferiram comprar televisores a cores e equipamento vídeo». E da perspectiva dos pais que desejam vender os filhos, nunca houve melhor mercado.
A procura de prostitutas pelos bordéis cresce rapidamente. O mesmo boom económico que alimenta a procura do consumo guarnece os bolsos dos agricultores e operários da planície central. Os migrantes pobres dos campos de arroz trabalham agora na construção ou em novas fábricas, ganhando muito mais do que ganhavam na terra. Talvez pela primeira vez nas suas vidas, esses lavradores podem fazer aquilo que os homens tai mais abastados sempre fizeram: ir a um bordel. O poder de compra desse crescente número de utilizadores dos bordéis reforça a procura de raparigas do Norte e sustenta um crescente negócio de proxenetismo e tráfico de raparigas.
A história de Siri era típica. Uma intermediária, ela própria mulher de uma aldeia do Norte, abordava as famílias na aldeia de Siri com garantias de trabalho bem pago para as suas filhas. Os pais de Siri provavelmente compreenderam que o trabalho seria como prostituta — pois sabiam que outras raparigas da aldeia tinham ido para bordéis no sul. Após algumas negociações receberam 50 000 baht (2000 dólares) por Siri, soma muito importante para esta família de cultivadores de arroz. Esta troca iniciou o processo de servidão por dívida usado para escravizar as raparigas. O acordo contratual entre a intermediária e os pais exige que esse dinheiro seja reembolsado pelo trabalho da filha antes que ela fique livre para partir ou lhe seja permitido enviar dinheiro para casa. Por vezes o dinheiro é considerado como um empréstimo aos pais, sendo a rapariga simultaneamente a garantia e o meio de reembolso. Em alguns casos, o juro exorbitante cobrado pelo empréstimo significa que há poucas hipóteses de que a escravidão sexual de uma rapariga consiga alguma vez pagar a dívida.
A dívida de 50 000 baht de Siri aumentou rapidamente. Levada para o sul pela intermediária, Siri foi vendida por 100 000 baht ao bordel onde agora trabalha. Depois da violação e do espancamento, Siri foi informada de que a dívida que tinha de pagar, agora ao bordel, era de 200 000 baht. Além disso, Siri ficou a saber de outros pagamentos que tinha de fazer, incluindo a renda do quarto a 30 000 baht por mês, bem como os gastos em comida e bebidas, taxas para medicamentos e multas se não trabalhasse o suficiente ou desagradasse a um cliente.
A dívida total é virtualmente impossível de pagar, mesmo à elevada taxa de 400 baht de Siri. Cerca de 100 baht de cada cliente deviam ser creditados a Siri para reduzir a sua dívida e pagar a renda e outras despesas; 200 vão para o proxeneta e os restantes 100 para o bordel. Por estes cálculos, dever praticar sexo com 300 homens por mês só para pagar a renda, e aquilo que sobra depois das outras despesas mal dá para reduzir a sua dívida inicial. Para as raparigas que só podem cobrar entre 100 e 200 baht por cliente, a dívida cresce ainda mais depressa. Esta servidão por dívida mantém as raparigas sob o completo controlo durante tanto tempo quanto o bordel e o proxeneta acham que vale a pena tê-las. A violência reforça o controlo, e qualquer resistência vale um espancamento e um aumento da dívida. Com o tempo, se a rapariga se torna uma boa e colaborante prostituta, o proxeneta pode dizer-lhe que pagou a sua dívida e autorizá-la a enviar pequenas somas para casa. Esta «remissão» da dívida não tem em geral nada a ver uma real contagem das receitas, mas é declarada à discrição do proxeneta, como forma de aumentar os lucros a obter, tornando a rapariga mais dócil. Juntamente com as raras visitas a casa, o dinheiro enviado à família serve para mantê-la no seu trabalho.
Segundo a minha própria estimativa moderada, há talvez umas 35 000 raparigas como Siri escravizadas na Tailândia. E este número é apenas uma pequena proporção de todas as prostitutas. O número real de prostitutas, embora desconhecido, é certamente muito mais elevado. O governo afirma que há 81 384 prostitutas na Tailândia — mas este número oficial é calculado a partir do número de bordéis (embora ainda ilegais), salões de massagens e estabelecimentos sexuais registados. Nenhum dos bordéis, bares ou salões de massagens que visitámos na Tailândia estava registado, e ninguém que trabalhe com prostitutas acredita nos números do governo. No outro extremo do espectro estão as estimativas apresentadas pelas organizações de activistas como o Centro para Protecção dos Direitos das Crianças. Esses grupos afirmam que existem no país mais de dois milhões de prostitutas. Suspeito de que este número é demasiado elevado numa população de 60 milhões. O meu próprio cálculo, baseado em informação recolhida pelos activistas da SIDA em diferentes cidades, é que existem entre meio milhão e um milhão de prostitutas.
Para a maioria dos homens tailandeses, o sexo comercial é uma forma legítima de entretenimento e de alívio sexual. Não é apenas aceitável: é uma clara afirmação de estatuto e de poder económico. As mulheres na Tailândia são coisas, instrumentos num jogo masculino de estatuto e de prestígio. Não é pois de surpreender que algumas mulheres sejam tratadas como gado — raptadas, vítimas de abusos, mantidas como animais, compradas e vendidas, e largadas quando deixam de ser úteis. Quando este tratamento habitual se combina com a inexorável busca do lucro da nova economia, o resultado é horrível para as mulheres. É preciso encontrar mais uns milhares para alimentar as necessidades de estatuto dos homens, mais uns milhares devem ser presas na escravatura sexual para alimentar os lucros dos investidores. E que estão a fazer a polícia, o governo, e as autoridades locais quanto à escravatura? Cada caso de escravatura sexual envolve muitos crimes — fraude, rapto, assalto, violação, por vezes assassínio. Esses crimes não são raros nem ocasionais; são sistemáticos e repetidos nos bordéis centenas de vezes por mês. Mas aqueles que detêm o poder para acabar com esse horror ajudam-no, pelo contrário, a crescer cada vez mais no muito lucrativo mundo do escravocrata moderno.

Segue: Corpos descartáveis

A guerra contra as crianças VI

Setembro às 9:42 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, miséria, sofrimento, violência | 1 Comentário
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Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

Anterior: Refugiados e deslocados

A criança treinada para matar


O auge deste circo de horrores é precisamente atingido pelo recrutamento de crianças-soldado. Quantos “soldados” de seis, oito e doze anos existirão por esse mundo fora? A última estimativa credível remonta ao ano de 1988. Nessa altura, atingia já o número pungente de duzentos milhares de crianças. Mas isto foi antes dos conflitos do Ruanda, do Burundi, da Libéria, da Serra Leoa, antes da explosão do conflito na Jugoslávia, antes ou mesmo durante a guerra entre o Irão e o Iraque, mas em todo o caso, antes de serem tornadas públicas as atrocidades que tiveram lugar neste último conflito.
Esta estimativa encontra-se assim claramente desactualizada, e neste momento é impossível proceder a um novo estudo. Mas todos os que se deslocaram recentemente aos campos de batalha, principalmente em África, são testemunhas da notória juventude de alguns “combatentes”. Tivemos oportunidade de ver com os nossos próprios olhos grupos de “soldados”, no Ruanda, em que os mais velhos nem sequer doze anos tinham. No Camboja, as facções que ainda hoje continuam a assassinar-se pelo poder mantiveram certos hábitos do tempo de Pol Pot e continuam a recrutar soldados pré-adolescentes.
A história recente põe à nossa disposição um leque enorme de exemplos desta tendência, sendo que o mais abjecto de todos será o de obrigar crianças com apenas dez anos a matar e a torturar, às vezes os próprios pais, fazendo-lhes literalmente uma lavagem ao cérebro. Foi o que aconteceu ou ainda acontece em Moçambique, no Uganda, na Libéria e na Serra Leoa. No Afeganistão, na Nicarágua e em El Salvador, foram raptadas dezenas de milhares de crianças para irem engrossar as fileiras dos guerrilheiros e para as obrigar a cometer atrocidades a que os próprios soldados adultos às vezes se recusavam.
Por vezes, para chegar a este ponto, a violência ou a coacção não são suficientes. É necessário um doutrinamento, uma fanatização cuidadosamente organizados. Esta foi a política adoptada pelo Irão durante a guerra com o Iraque. Por deliberação dos dirigentes, não se podiam perder muitos homens válidos nos campos de minas. Para desminar, as crianças serviam muito bem. Então, explicava-se-lhes no meio de reuniões “religiosas” que elas iriam servir o seu país, e mais tarde, alcançar directamente o paraíso. Para tal, foram instruídos actores encarregados de lhes mostrarem o caminho e que, a dado momento, davam o sinal de partida. E foi assim que vimos milhares de crianças precipitando-se sobre campos de minas, levando ao pescoço chaves de plástico, as chaves do paraíso, e gritando antes da mina explodir a seus pés: “Allah Akbar!” Pensa-se que cerca de cinquenta mil crianças iranianas terão morrido assim em nome de Deus. Menos sorte tiveram as sobreviventes, enclausuradas durante anos nas prisões iraquianas, mortificadas por terem sobrevivido, aterrorizadas com a ideia de voltar ao seu país, envergonhadas por ainda estarem vivas.
Mas em certas ocasiões, o recurso à religião não basta. É nesse caso que intervém uma técnica que consiste em fazer com que a criança cometa repetidamente atrocidades, de preferência sobre a sua própria família. Este método foi abundantemente utilizado em Moçambique pela Renamo, guerrilha nessa altura financiada pela África do Sul, e mais recentemente pelas facções em conflito na Libéria e na Serra Leoa. Os “meninos-lobos”, como eram apelidados em Moçambique, eram obrigados a matar, a matar os parentes, de maneira a destruírem quaisquer laços afectivos que os ligassem à sua família, ficando assim completamente dependentes da guerrilha que os tinha raptado. Obrigadas a assassinar os pais, os camponeses e as pessoas mais próximas, as crianças tornar-se-iam dóceis; qualquer tentativa de voltar atrás seria impedida. A dado momento, a Renamo dispunha de pelo menos dez mil dessas crianças-soldado, as mais jovens das quais mal tinham completado os seis anos de idade. Em Angola, de acordo com um inquérito levado a cabo em 1995 , 36% do total de crianças do país tinham “acompanhado” ou ajudado os soldados.
Mas há situações que requerem algo mais, além da religião, do doutrinamento e da coacção. E é aqui que surge a droga. “Davam-nos marijuana e comprimidos” – conta-nos uma criança liberiana “desmobilizada” – “Quando se toma essas coisas, não se sente mais nada, não se pensa em mais nada que não seja matar.”
Porque razão alguns exércitos e algumas guerrilhas se interessam tanto pelas crianças- soldado que, a priori, se poderiam considerar inexperientes e pouco eficazes? Antes de mais há que ter em conta a escassez de soldados adultos – há alturas em que os exércitos precisam de mais mãos para trabalhar e, por isso vão-se buscar crianças para integrarem contingentes suplementares, como no caso da decisão tomada pelo exército nazi em 1944, de incorporar soldados de dezasseis anos.
Mas isto não é tudo. Segundo o raciocínio dos recrutadores, uma criança é infinitamente mais maleável, mais facilmente manipulável e condicionável do que um adulto; é menos propensa à revolta e mais sensível aos métodos de terror infligidos.
Não exige soldo nem qualquer gratificação especial, a não ser a sensação de pertencer a um grupo de recrutas, a um grupo onde seja reconhecida. Neste raciocínio entra também a ideia de que uma criança pode não se aperceber do que lhe estão realmente a pedir; de que a fronteira entre o bem e o mal ainda é indistinta para ela. Tendo em conta tudo isto, porque não aproveitar um recurso tão valioso, que abunda em excesso nos campos de refugiados, nos orfanatos, nas cidades e nas escolas?
Raptam-se então os rapazes, tal como pudemos assistir muito recentemente em vários cenários de conflitos armados, mas também se raptam meninas, situação que está a decorrer neste preciso momento a Norte do Uganda. O destino dessas meninas é o “casamento” com um soldado, a sujeição a relações sexuais, e a fazer tudo o que é necessário a um exército em movimento: cozinhar, limpar, etc. Várias centenas destas meninas ugandesas, raptadas pelo “Exército de Resistência do Senhor”, foram libertadas recentemente e estão actualmente em fase de tratamento. Mas existirá alguma forma de as resgatar verdadeiramente da guerra? Qual será a ajuda que lhes poderemos oferecer quando aquilo por que elas passaram está muito além da nossa imaginação? Também elas foram obrigadas a cometer atrocidades, a beber sangue humano, a sujeitarem-se a todos os delírios dos soldados. Quando isto acontece a uma criança de oito, nove anos de idade, o que fazer para que ela se reconcilie de novo com a vida?
Para algumas destas crianças, o condicionamento e a solidão são de tal maneira extremos que o exército se torna, paradoxalmente, no seu único refúgio, no único lugar com que se conseguem identificar, uma espécie de substituto da família que perderam. Em Maio de 1993, o governo da Serra Leoa ordenou a desmobilização de todos os soldados com menos de quinze anos. A “desmobilização” foi, no entanto, mais problemática do que se previa inicialmente. É absolutamente indispensável um trabalho de equipa que as consiga dissociar da nova “família” que pensavam ter encontrado, sem que se sintam órfãs uma segunda vez.
O progresso tecnológico do armamento militar também faz com que o recrutamento de crianças-soldado se vá tornando cada vez mais fácil, dada a proliferação de armas leves ou de pequeno calibre. Antigamente, as armas eram demasiadamente grandes ou pesadas para elas. Hoje em dia a história é outra. Uma espingarda de assalto de origem soviética AK 47 ou uma M 16 norte-americana são ao mesmo tempo leves, fáceis de montar e desmontar e bastante acessíveis. O “preço corrente” de uma AK 47, por exemplo, é neste momento inferior a dez dólares em África e existem M 16 disponíveis em todo o lado.
Com efeito, os responsáveis por este alistamento maciço de crianças na guerra andam de mãos dadas com aqueles que compram as armas e as colocam à disposição de todos, e aqueles que as vendem. Todos lucram com isso. Lucros militares por um lado, lucros comerciais por outro. O negócio das minas continua de vento em popa, não obstante os esforços meritórios de todos aqueles que lutam para que elas sejam completamente banidas. No entanto, o mercado dos armamentos tradicionais vai proliferando a uma escala bem maior. De resto, os números falam por si, ao revelar que os orçamentos militares de todo o mundo, em francos ou em dólares constantes, se multiplicaram por quinze a partir de 1945, tendo atingido em 1993 os valores alucinantes de 790 biliões de dólares (destes, 121 biliões foram gastos pelo Terceiro Mundo). É verdade que esta quantia revela uma ligeira diminuição em relação ao pico histórico atingido em 1987, o que significa que pelo menos neste aspecto, o desmoronamento do Império Soviético teve a sua utilidade. Mas os números continuam a ser impressionantes, sobretudo se os compararmos com os orçamentos destinados em todo o mundo às áreas da educação e da saúde e os que se referem à totalidade dos serviços destinados às crianças, em que as quantias envolvidas são cerca de cem vezes inferiores.
No entanto, não apontemos o dedo acusador aos progressos tecnológicos nem aos interesses económicos. O culpado é ainda, e sempre, o mais profundo desprezo em relação à criança. Recrutar crianças, manipulá-las, obrigá-las a matar ou a torturar, são ideias que à partida não decorrem de estratégias financeiras, embora os traficantes de armas acabem por beneficiar largamente desta situação. Elas são uma opção deliberada de estrategas em ponto pequeno que arrancam as crianças das escolas e forçam a guerra a entrar nas suas vidas e para sempre. Essa escolha é uma escolha racional, deliberada, calculada. O mundo saturado de imagens e de horrores em que vivemos ainda não conseguiu avaliar bem a amplitude dessa abjecção. De que é que estará à espera?

A guerra contra as crianças V

Setembro às 9:35 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, miséria, sofrimento, violência | Deixe um comentário
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 Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

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Refugiados e “deslocados”


Outra consequência inevitável da guerra é a imensidão das deslocações de população e dos agrupamentos de refugiados, nos quais as crianças acabam por ser as primeiras vítimas da escassez de provisões e dos êxodos precipitados impostos pelas peripécias político-militares, como pudemos observar a partir de 1994 na região Oriental da República Democrática do Congo.
Hoje em dia existem por todo o mundo vinte e oito milhões de “refugiados” – aqueles que atravessaram uma fronteira – e de “deslocados”, que são aqueles que permaneceram no seu país. Distinção teórica que pouca diferença faz na vida dos interessados. Do ponto de vista do Direito, só os refugiados podem reivindicar uma protecção jurídica especial, porque se viram forçados a abandonar o seu país, enquanto que os “deslocados” são, na realidade, refugiados no seu próprio país. Na prática, esta distinção não faz muito sentido – os “deslocados” do Sudão, que fugiram de uma guerra devastadora no sul do país, estão numa situação a todos os títulos comparável à dos seus compatriotas refugiados nos países vizinhos. Quanto à protecção jurídica de que os refugiados deveriam beneficiar, esta de nada valeu aos ruandeses massacrados desde o início de 1997 na região noroeste da República Democrática do Congo. Massacrados pelas armas e pela fome.
Quer se trate de “refugiados” quer de “deslocados”, mais de três quartos e, por vezes, mesmo nove décimos de entre eles, são compostos por mulheres e crianças. Imensas concentrações desumanas onde a vida gravita em torno da distribuição de víveres, e onde as crianças deambulam sem objectivo, de um acampamento para outro; campos enormes onde reinam a insegurança, a promiscuidade e a violência; onde circulam armas, onde os mais jovens se deixam levar pelos agentes recrutadores, onde os adolescentes são agredidos. Centenas de milhares de crianças nascem e sobrevivem nesses campos sem escolarização – em todo o mundo, apenas têm acesso à escola menos de 15% das crianças destes campos. Por outro lado, muitas destas crianças são privadas da sua nacionalidade, logo, de um sentimento de identidade nacional que provavelmente permanecerá ausente durante toda a vida. A idade permanecerá em muitos casos uma incógnita nas suas vidas e, para aqueles que se perderam dos pais, o próprio nome também. Podemos citar como exemplo o caso dos trezentos e cinquenta mil refugiados cambojanos imobilizados na fronteira khmero-tailandesa, com a Tailândia e o Camboja a “atirarem a batata quente” de um lado para o outro, a primeira negando-lhes a nacionalidade tailandesa e o segundo recusando-lhes a nacionalidade khmer, porque eles tinham fugido do país na altura sob a mão de ferro dos Khmers Vermelhos. Como sobreviver no mundo actual sem identidade, sem nacionalidade e sem saber a idade nem o próprio nome?
Para além disso, as condições de vida nos campos são cada vez mais precárias. Nos últimos quinze anos, o número de refugiados e deslocados tem vindo a dilatar-se desmesuradamente em consequência dos conflitos mais recentes – as guerras na América Central, no Afeganistão, em Moçambique, no Ruanda, etc., mas os recursos que a comunidade internacional põe à sua disposição não sofreram praticamente qualquer alteração. Muito pelo contrário, as rações alimentares foram diminuindo ao longo dos anos e a malnutrição existente nos campos tem aumentado. Aumenta ainda mais quando estes campos servem de base a soldados perdidos que não mostram qualquer escrúpulo em se servirem primeiro dos produtos alimentares, para eventualmente os revenderem e comprarem armas. Verifica-se, assim, que a malnutrição nunca foi tão grave nem tão frequente nesses campos como o é agora. Segundo a Unicef, a incidência da emaciação, ou emagrecimento muito acentuado, atinge nas crianças a tremenda percentagem de 40% em Angola, na Libéria e no Sudão.
Ninguém duvida que viver nesses campos deve ser semelhante a viver um autêntico pesadelo, mas este é um pesadelo que pode vir a durar quinze ou mais anos, como vimos no caso dos três milhões de refugiados afegãos fixados no Irão e no Paquistão, dos eritreus instalados no Sudão, dos moçambicanos no Malávi, dos cambojanos na Tailândia, etc. Em casos como estes, em que se tornarão as crianças? Adolescentes para quem o regresso ao país natal aparece como uma ideia abstracta, um país que eles nem sequer conhecem, ao mesmo tempo que vêem impedida a sua integração no país de “acolhimento”. Presas fáceis dos agentes de recrutamento e dos proxenetas que infestam os campos de refugiados.

 Segue: A criança treinada para matar

A guerra contra as crianças IV

Setembro às 9:20 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, sofrimento, violência | Deixe um comentário
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Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

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O efeito perverso dos embargos

Porém, podem surgir outros obstáculos no caminho deste penoso regresso à normalidade, desta vez sob a forma de obstáculos políticos. Quando um país, já de si vítima de uma guerra ou de conflitos civis violentos tem, como se não bastasse, “atitudes politicamente incorrectas”, pode abater-se sobre ele, mais precisamente sobre a população civil e sobretudo sobre as crianças, uma nova forma de calamidade – as sanções económicas. Assim, para “punir” Saddam Hussein por ter tentado anexar o Kuwait, o Conselho de Segurança das Nações Unidas decidiu proibi-lo de exportar o seu petróleo para o mercado mundial, ou, por outras palavras, decidiu asfixiá-lo financeiramente. Para estrangular o sistema, foi proibido ao Iraque não só exportar a sua única produção, mas também importar aquilo de que necessitava para alimentar, tratar e educar a sua população. A interdição afectava produtos como a farinha, o azeite, os medicamentos e as vacinas, assim como cadernos, borrachas e lápis.
Os resultados não foram imediatamente visíveis, porque o Iraque não era um país pobre e dispunha de algumas reservas. O seu sistema de saúde, de distribuição de alimentos e de educação figurava mesmo entre os mais desenvolvidos do Médio Oriente. Mas os efeitos do embargo acabaram por aparecer com toda a clareza. Embora os benefícios políticos obtidos pela comunidade internacional ainda não estejam completamente demonstrados, o impacto das sanções sobre a população civil não podia ser mais claro. A taxa de mortalidade de crianças com menos de cinco anos duplicou no país desde o fim da guerra do Golfo e é actualmente superior à de países como o Brasil, o Peru ou o Egipto. Calcula-se que tenham já morrido quinhentas mil crianças em consequência do embargo. A malnutrição generalizou-se e os sistemas de abastecimento de medicamentos e de água potável desmoronaram-se. O sistema escolar teve idêntica sorte – as crianças que continuam a ir à escola sentam-se no chão e trabalham com materiais obsoletos que não podem ser substituídos. A taxa de abandono escolar subiu em flecha, sobretudo no que se refere às meninas entre os dez e os doze anos, que são obrigadas a procurar trabalho para completar os rendimentos da família no fim do mês. O abrandamento do embargo, acordado desde o início de 1997, irá permitir ao Iraque regressar à sua situação anterior? Dificilmente o fará, já que os efeitos de uma tal derrocada irão certamente persistir durante muito tempo.
Os efeitos do embargo foram semelhantes no Haiti, podendo, no entanto, ser mais graves tendo em conta o nível de pobreza inicial do país. Aí, as sanções económicas foram aplicadas durante três anos, depois do golpe de estado militar de 1991. Entre essa data e o final de 1993, a taxa de malnutrição que se verificou entre crianças com menos de cinco anos examinadas nas instituições de apoio da ilha subiu de 27% para mais de 50%. O impacto das sanções foi desastroso para o conjunto dos já escassos sistemas de saúde e educação em todo o país.
O último exemplo é o do Burundi, um país à mercê de intensas tensões políticas, de um genocídio encapotado e cujos vizinhos decidiram que precisava de ser “punido”. Punido porquê? Pelo facto de possuir um chefe de Estado auto proclamado, como se toda a região circundante não padecesse também de um défice democrático generalizado. As consequências não se fizeram esperar – as tensões internas ficaram ao rubro, começaram a suceder-se massacres atrás de massacres e as organizações humanitárias estão a deparar-se com imensos obstáculos na sua tarefa de ajudar a população.
Todas estas sanções, cujo impacto na vida dos civis pudemos observar também na Sérvia, parecem repetir-se falhando sistematicamente o alvo – impotentes para atingir o corpo político visado, geralmente um chefe de Estado muito pouco preocupado com o bem-estar da população civil, elas castigam, na realidade, sobretudo aqueles cujo poder político é praticamente inexistente – as crianças. Sistema absurdo este, cujo impacto no futuro dos países “sancionados” está ainda longe de se conseguir determinar, e em que o tirano, virtuosamente denunciado, acaba por não ser atingido. Se por sancionar, se subentende na realidade eliminar o chefe de Estado incriminado, então a solução não passará certamente por aí e deveriam ser levantadas algumas restrições, deixando passar, por exemplo, bens de primeira necessidade indispensáveis para as crianças. Nunca ninguém tentou iniciar uma acção capaz de penalizar realmente os políticos responsáveis pelos infortúnios daqueles que são governados. O que podemos observar, pelo contrário, são os antigos ditadores a gozar as suas reformas tranquilas e principescas, graças ao dinheiro que conseguiram roubar ao seu povo, uns na Côte d’Azur, como Baby Doc do Haiti, e outros em residências rurais no Zimbabué, como o sanguinário coronel Mengistu. Os exemplos vão-se acumulando. Quanto àqueles que ainda estão no poder, é do conhecimento geral que não estão propriamente nas ruas da amargura, seja em Bagdade, em Belgrado ou em qualquer outra parte do mundo.

( N.T. -O conteúdo global desta obra, e nomeadamente este excerto, deve ser lido atendendo ao facto de a sua edição original datar do ano de 1997.)

Segue: Refugiados e “deslocados”

A guerra contra as crianças II

Setembro às 9:14 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, violência | 1 Comentário
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Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

Anterior: A guerra contra as crianças

A “criança-alvo”


Que significa esta evolução? Que as crianças não são protegidas em parte alguma como o deveriam ser, enquanto membros mais frágeis de uma sociedade. A expressão “Mulheres e crianças primeiro!”, utilizada na ocorrência de naufrágios, já não é levada a sério. No entanto, ela fazia todo o sentido, um sentido muito preciso – em caso de fatalidade, não se trata apenas de proteger os mais fracos, trata-se também de garantir o futuro.
Actualmente, muito pelo contrário, os conflitos fazem das mulheres e mais ainda das crianças, os seus alvos privilegiados. Assassinar crianças, feri-las ou violentá-las é aplicar um duro golpe no grupo humano que se pretende exterminar ou subjugar. Foi assim que se pôde ouvir a Radio Mille Collines inundar o Ruanda com este slogan em 1994 – “Para eliminar os ratos maiores, temos de matar os mais pequenos.” Ou seja, as crianças tutsis. E foi assim que mulheres grávidas foram esventradas para eliminar futuros tutsis e adolescentes violadas aos milhares para que ficassem marcadas com um ferro impossível de apagar. Uma atitude idêntica esteve sempre bem presente durante todo o conflito jugoslavo. Quando os atiradores furtivos visavam sem erro as crianças, nos passeios das ruas de Sarajevo, estavam a seguir obviamente a mesma lógica. Quando as granadas, cuidadosamente dirigidas, se abatiam sobre uma padaria ou sobre o mercado central da capital bósnia, também aqui, e mais uma vez, se seguia a mesma linha desta nova “estratégia”.
As crianças são cada vez mais assassinadas, feridas e massacradas nestas guerras “modernas” que se multiplicaram desde 1945 e cuja amplitude não pára de crescer perante os nossos olhos. Da América Central ao Camboja, do Líbano à República Democrática do Congo, surgem conflitos em todos os pontos do planeta que se abatem sobre as crianças, incluindo as mais jovens, como se todo o cuidado em protegê-las não só fosse aniquilado, apesar de todos os esforços dos partidários do Direito Humanitário Internacional, mas mesmo literalmente subvertido.
A evolução do armamento enquadra-se perfeitamente nesta óptica. Os aperfeiçoamentos técnicos não tornaram só os bombardeamentos (nucleares, químicos ou convencionais) muito mais eficazes. Tornaram igualmente a indústria das minas perfeitamente adaptada a esta nova concepção da guerra. É indispensável transformar o território do inimigo num campo de minas. Desta forma, será aplicado um rude golpe na moral dos civis e na sua capacidade de sobreviver ao conflito, de uma forma extremamente eficaz.
E é assim que hoje em dia, um certo número de países, que aliás se encontram entre os mais pobres do mundo, foram transformados efectivamente em imensos campos de minas – o Afeganistão, o Camboja e Angola são os países mais minados do mundo; segundo os peritos, o Afeganistão, por si só, tem enterradas no seu solo entre dez e quinze milhões de minas. O Camboja conta com oito milhões, ou seja, uma mina por habitante, e é o país que actualmente possui o maior número de mutilados do mundo. Mas o continente africano não lhe fica nada atrás, com um sem-número de campos de batalha, de Angola a Moçambique e do Ruanda à Somália. No total, em todo o mundo, encontram-se cerca de cento e dez milhões de minas espalhadas no solo de sessenta e quatro países. Não só “no solo”, aliás, porque graças aos progressos científicos, existem também minas aquáticas, adaptadas aos arrozais, por exemplo, e minas para as árvores. Há também a mina “saltitante”, concebida para explodir a um metro do solo, para melhor incapacitar ou assassinar, a mina “borboleta”, com o aspecto de um brinquedo colorido, a mina camuflada dentro de bonecas… a imaginação dos fabricantes não tem limites.
Ora estas minas, que destroem literalmente a vida civil de comunidades inteiras, são particularmente perigosas para as crianças. As crianças constituem, por si só, metade das seiscentas mil vítimas de minas (assassinadas ou mutiladas) nos últimos vinte anos. Os riscos que elas correm são ainda mais graves do que os que ameaçam um adulto. O corpo de uma criança, mais pequeno, não protege tão bem os órgãos vitais como o de um adulto e a sua resistência face à perda de sangue é menor. O ponto de impacto da explosão acontecerá a uma distância menor dos órgãos vitais, da face, dos olhos, e em consequência, muitas ficarão cegas. As crianças também são um alvo fácil porque têm tendência para explorar os: espaços desconhecidos para procurar (levadas pela curiosidade natural infantil) novas brincadeiras e construir brinquedos com os explosivos que encontram. As minas borboleta, tão tentadoras para os petizes, já assassinaram milhares de crianças no Afeganistão.
Por fim, quem é que vai buscar a lenha, a água, guardar o rebanho, atravessar os campos para chegar à escola, senão as próprias crianças? Depois da deflagração da mina e da descoberta da criança inanimada (quando é descoberta) é necessário amputá-la ou, no melhor dos casos, colocar-lhe uma prótese. Mas uma prótese – quando existe – é muito cara no Camboja, no Afeganistão ou em Angola. Dá-se então prioridade aos adultos porque estes são mais rentáveis para a sociedade. Por outro lado, uma criança está a crescer e irá precisar de duas, três, ou quatro próteses. É demasiado caro. Demasiado complicado. Muitas vezes, o que se seguirá será a rejeição da criança amputada e inválida pelo grupo social, sobretudo se a mutilação for vista como uma condenação divina, uma maldição sobrenatural, como acontece no Camboja.

 

Segue: Abatidas, refugiadas no silêncio

A nova escravatura I – Kevin Bales

Setembro às 7:44 pm | Publicado em ambição, cativeiro, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, violência | 3 comentários

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)

A nova escravatura

No Verão, os campos franceses vivem à altura da sua reputação. Se nos sentamos na rua de uma pequena aldeia a uma centena de quilómetros de Paris, a brisa traz-nos o aroma de maçãs do pomar ao lado. Vim aqui para conhecer Seba, (os foram mudados) uma escrava recentemente liberta. É uma jovem de vinte e dois anos, bonita e animada, mas enquanto me conta a sua história retrai-se em si mesma, fumando furiosamente, tremendo, e depois vêm as lágrimas.

Fui criada pela minha avó no Mali, e quando em ainda menina uma mulher que a minha família conhecia chegou e perguntou-lhe se podia levar-me para Paris para cuidar dos filhos dela. Ela disse à minha avó que me punha na escola e que eu aprenderia francês. Mas quando cheguei a Paris não fui mandada para a escola, tive que trabalhar todos os dias. Fazia todo o trabalho na casa deles; fazia as limpezas, cozinhava as refeições, cuidava das crianças, e lavava e alimentava o bebé. Todos os dias começava antes da 7 horas da manhã e acabava às 11 da noite; nunca tive um dia de folga. A minha patroa não fazia nada; dormia até tarde e depois via televisão ou saía.
Um dia eu disse-lhe que queria ir à escola. Respondeu que não me tinha trazido para França para ir à escola mas para cuidar dos filhos dela. Eu estava cansada e esgotada. Tinha problemas com os dentes; por vezes a cara inchava-me e a dor era horrível. Por vezes tinha dores de estômago, mas quando estava doente tinha que trabalhar na mesma. Às vezes, quando tinha dores, chorava, mas a minha patroa gritava comigo.
Eu dormia no chão num dos quartos das crianças; a minha comida eram os restos deles. Não podia tirar comida do frigorífico como as crianças. Se eu tirasse comida, ela batia-me. Balia-me muitas vezes. Estava sempre a dar-me bofetadas. Batia-me com a vassoura, com os instrumentos de cozinha, ou chicoteava-me com cabos eléctricos. Às vezes eu sangrava; ainda tenho marcas no corpo.
Uma vez, em 1992, atrasei-me a ir buscar as crianças à escola; a minha patroa e o marido ficaram furiosos comigo e bateram-me e depois empurraram-me para a rua. Eu não tinha para onde ir; não compreendia nada, e andei pelas ruas. Ao fim de algum tempo o marido encontrou-me e levou-me outra vez para casa deles. Ali despiram-me toda, ataram-me as mãos atrás das costas, e começaram a chicotear-me com um arame amarrado a um pau de vassoura. Batiam-me os dois ao mesmo tempo. Eu sangrava muito e gritava, mas eles continuavam a bater-me. Depois ela esfregou malaguetas nas minhas feridas e enfiou-mas na vagina. Perdi os sentidos.
Algum tempo depois, uma das crianças desatou-me. Fiquei deitada no chão, onde me deixaram vários dias. As dores eram horríveis mas ninguém tratou as minhas feridas. Quando me consegui levantar tive que trabalhar outra vez, mas depois disso fiquei sempre fechada em casa. Eles continuaram a bater-me.

Seba foi finalmente libertada quando um vizinho, depois de ouvir os sons dos insultos e espancamentos, conseguiu falar com ela. Vendo-lhe as cicatrizes e as feridas, o vizinho chamou a polícia e o Comité Francês contra a Escravatura Moderna (CCEM), que abriram um processo e tomaram Seba a seu cuidado. Os exames médicos confirmaram que ela tinha sido torturada.
Hoje Seba está bem tratada, vive com uma família de acolhimento. Está a receber assistência e a aprender a ler e a escrever. A recuperação demorará anos, mas ela é uma jovem notavelmente forte. O que me impressionou foi a distância que Seba ainda tem que percorrer. Enquanto falávamos, compreendi que, embora ela tivesse vinte e dois anos e fosse inteligente, a sua compreensão do mundo era menos desenvolvida que a média das crianças de cinco anos. Por exemplo, até ser libertada tinha pouca noção do tempo — sem conhecimento das semanas, meses ou anos. Para Seba havia apenas a interminável roda do trabalho e do sono. Sabia que havia dias quentes e dias frios, mas nunca aprendeu que as estações seguem um padrão. Se alguma vez soube o dia do seu aniversário tinha-o esquecido, e não sabia a sua idade. Fica desorientada com a ideia de «escolha». A sua família de acolhimento tenta ajudá-la a fazer opções, mas ela ainda não consegue entender isso.
Se o caso de Seba fosse único, seria bastante chocante; mas Seba é uma de entre talvez 3000 escravos domésticos em Paris. Essa escravatura não existe também só em Paris. Em Londres, Nova Iorque, Zurique, Los Angeles, e pelo mundo fora, as crianças são brutalizadas como escravos domésticos. E são apenas um pequeno grupo dos escravos do mundo.
A escravatura não é um horror definitivamente arrumado no passado; ela continua a existir em todo o mundo, mesmo em países desenvolvidos como a França e os Estados Unidos. Por todo o mundo os escravos trabalham e suam e constroem e sofrem. Os escravos no Paquistão podem ter fabricado os sapatos que nós calçamos e o tapete que pisamos. Os escravos das Caraíbas podem ter posto o açúcar na nossa cozinha e os brinquedos nas mãos dos nossos filhos. Na Índia, eles podem ter cosido a camisa que vestimos e polido o anel do nosso dedo. E não lhes pagam nada.
Os escravos tocam também indirectamente as nossas vidas. Eles fizeram os tijolos para a fábrica que produziu o aparelho de TV que nós vemos. No Brasil, os escravos produziram o carvão que temperou o aço que fez as molas do nosso carro e a lâmina do cortador de relva. Os escravos cultivaram o arroz que alimentou as mulheres que teceram o belo pano que você usa nos cortinados. A sua carteira de investimentos e o seu fundo mútuo de pensões possuem títulos de empresas que utilizam trabalho escravo no mundo em vias de desenvolvimento. Os escravos mantêm baixos os seus custos e altos os lucros dos seus investimentos.
A escravatura é um negócio em ascensão e o número de escravos está a crescer. Há pessoas que enriquecem usando escravos. E quando já não precisam dos seus escravos, limitam-se a pôr essas pessoas de parte. Esta é a nova escravatura, que se centra nos grandes lucros e nas vidas baratas. Não se trata de possuir pessoas no sentido tradicional da antiga escravatura, mas de controlá-las completamente. As pessoas tornam-se instrumentos completamente descartáveis para fazer dinheiro.
Mais de dez vezes ao acordar de manhã cedo descobri o corpo de uma jovem flutuando na água ao pé da lancha. Ninguém se preocupava em enterrar as raparigas. Lançavam simplesmente os corpos ao rio para serem comidos pelos peixes.

Este era o destino das jovens escravizadas como prostitutas nas cidades mineiras da Amazónia, explicou Antónia Pinto, que ali trabalhou como cozinheira e alcoviteira. Ao mesmo tempo, o mundo desenvolvido deplora a destruição das florestas tropicais, poucas pessoas compreendem que o trabalho escravo é utilizado para as destruir. Os homens são atraídos para a região com promessas de riqueza em pó de ouro, e raparigas de apenas onze anos recebem ofertas de emprego nos escritórios e restaurantes que servem as minas. Quando chegam às longínquas regiões mineiras, os homens são aprisionados e forçados a trabalhar nas minas; as raparigas são espancadas, violadas, e postas a trabalhar como prostitutas. Os seus «agentes de recrutamento» recebem uma pequena soma por cada uma delas, talvez uns 150 dólares. As «recrutas» tornaram-se escravas — não através da posse legal, mas através da autoridade decisiva da violência. A polícia local actua como reforço para controlar os escravos. Como uma jovem explicava: «Aqui os donos de bordéis mandam a polícia bater-nos… se fugimos, eles perseguem-nos, se nos acham matam-nos, ou se não nos matam batem-nos todo o caminho de volta ao bordel.»
Os bordéis são incrivelmente lucrativos. A rapariga que «custa» 150 dólares pode ser vendida para sexo até dez vezes por noite e render 10 000 dólares por mês. As únicas despesas são os pagamentos à polícia e uma bagatela para comida. Se uma rapariga causa problemas, foge ou adoece, é fácil livrar-se dela e substituí-la. Antónia Pinto descreveu o que aconteceu a uma menina de onze anos que se recusou a fazer sexo com um mineiro: «Depois de decapitá-la com o machete, o mineiro circulou na sua lancha rápida, exibindo-a para os outros mineiros, que aplaudiam e gritavam aprovadoramente.»
Como a história destas raparigas mostra, a escravatura, ao contrário do que a maioria de nós foi levada a crer, não acabou. Certamente, a palavra escravatura continua a ser usada para significar toda a espécie de coisas, e demasiadas vezes tem sido aplicada como uma metáfora fácil. Ter dinheiro apenas para sobreviver, receber salários que mal dão para viver, pode chamar-se um salário de escravo, mas não é escravatura. Os meeiros têm uma vida difícil, mas não são escravos. O trabalho infantil é horrível, mas não é necessariamente escravatura.
Podíamos pensar que a escravatura é uma questão de posse, mas isso depende daquilo que entendemos por posse. No passado, a escravatura implicava que uma pessoa possuía legalmente outra pessoa, mas a escravatura moderna é diferente. Hoje, a escravatura é ilegal em toda a parte, e já não há posse legal de seres humanos. Quando as pessoas compram escravos hoje não pedem um recibo nem títulos de propriedade, mas adquirem o controlo — e usam a violência para manter esse controlo. Os escravocratas («Slaveholder» no original. (N. do E.) têm todos os benefícios da propriedade sem as responsabilidades legais. Na verdade, para os escravocratas, não ter a posse legal é uma melhoria, porque obtêm o controlo total sem qualquer responsabilidade por aquilo que possuem.
A despeito desta diferença entre a velha e a nova escravatura, penso que toda a gente concordaria em que aquilo de que falo é escravatura: o controlo total de uma pessoa por outra com fins de exploração económica. A escravatura moderna esconde-se por trás de diferentes máscaras, usando advogados espertos e cortinas de fumo legais, mas quando se arrancam as mentiras, descobrimos alguém controlado pela violência, e a quem é negada toda a liberdade pessoal, para fazer dinheiro para outra pessoa. Ao viajar pelo mundo para estudar a nova escravatura, olhei para lá das máscaras legais e vi pessoas acorrentadas. É claro, muitas pessoas pensam que já não existe uma coisa como a escravatura, e eu era uma dessas pessoas ainda há poucos anos.

A nova escravatura II – Tailândia: Porque ela parece uma criança

Setembro às 7:31 pm | Publicado em cativeiro, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, sofrimento, violência | 1 Comentário

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)

Tailândia
Porque ela parece uma criança

Quando Siri acorda é perto do meio-dia
No momento em que acorda, ela sabe exactamente quem e o quê passou a ser. Como me explicou, a dor nos genitais fá-la recordar os quinze homens com quem teve sexo na noite anterior. Siri (os nomes foram mudados) tem quinze anos. Vendida pelos pais um ano antes, a sua resistência e o seu desejo de fugir do bordel estão a fraquejar, substituídas pela aceitação e a resignação.
Na cidade provincial de Ubon Ratchitani, no Nordeste da Tailândia, Siri trabalha e vive num bordel. Cerca de dez bordéis e bares, edifícios degradados e sujos, alinham-se ao longo da rua, mesmo ao virar da esquina de uma alameda comercial de estilo ocidental. Há vendedores de comida espalhados entre os bordéis. A mulher que está por trás das tendas de talharim fora do bordel onde Siri trabalha é também espia, carcereira, cão de guarda, alcoviteira, para Siri e para as outras vinte e quatro raparigas e mulheres do bordel.
O bordel está rodeado por um muro com portões de ferro para a rua. Dentro do muro há um pátio poeirento, uma mesa de piquenique em cimento, e a ubíqua casa do espírito, pequeno templo no exterior de todos os edifícios tailandeses. Uma porta baixa leva a uma sala de cimento sem janelas, impregnada do cheiro a tabaco, cerveja choca e suor. É a sala de «selecção» (hong du). A um lado da sala há cabinas e mesas enferrujadas; no outro lado há uma estreita plataforma elevada com um banco a todo o comprimento da sala. Focos de luz apontam para o banco, e à noite as raparigas e as mulheres sentam-se ali sob o clarão, enquanto os homens sentados às mesas bebem e escolhem aquela que querem.
Passando por uma porta, no extremo do banco, o homem segue a rapariga até à janela onde um caixeiro recebe o dinheiro e regista qual a rapariga que ele leva. Dali é conduzido ao quarto da rapariga. Por trás da sala dianteira de cimento, o bordel degenera ainda mais num barracão dividido em minúsculos cubículos onde as raparigas vivem e trabalham. Uma escada improvisada sobe para aquilo que pode ter sido em tempos um celeiro. O nível mais alto está agora guarnecido de portas, afastadas cerca de cinco pés umas das outras, que abrem para quartos de cerca de metro e meio por dois metros e vinte, onde cabe uma cama e pouco mais. Pedaços de madeira e de cartão separam os quartos uns dos outros, e Siri forrou as suas paredes com quadros e cartazes de jovens estrelas pop recortadas de revistas. Por cima da sua cama, como na maior parte dos quartos, está também pendurado o retrato do rei da Tailândia; uma simples lâmpada pende do tecto. Ao lado da cama há uma grande lata com água; há um gancho ao lado para roupas e toalhas. Aos pés da cama, junto à porta, há algumas roupas dobradas sobre uma saliência. As paredes são muito finas e houve-se tudo dos quartos vizinhos: um grito do guarda-livros ecoa por todos eles, estejam as portas abertas ou fechadas.
Depois de se levantar ao meio-dia, Siri lava-se com água fria da única tina de cimento que serve as vinte e cinco mulheres do bordel. Depois, vestindo uma t-shirt e uma saia, vai à tenda de talharim para a sopa quente, que é o pequeno-almoço tailandês.
Por volta das cinco horas, Siri e as outras raparigas são mandadas vestir, pintarem-se e prepararem-se para o trabalho da noite. Por volta das sete os homens começam a entrar, a comprar bebidas e a escolher raparigas, e Siri terá sido escolhida por um ou dois dos dez até dezoito homens que a comprarão nessa noite. Muitos homens escolhem Siri porque ela parece muito mais nova do que os seus quinze anos. Franzina e de rosto arredondado, vestida para acentuar a sua juventude, poderia ler onze ou doze anos. Porque parece uma criança, pode ser vendida como uma «nova» rapariga e a um preço mais alto, cerca de 15 dólares, o que é mais do dobro do cobrado pelas outras.
Siri tem muito medo de apanhar sida. Muito antes de compreender a prostituição, ela já sabia do HIV, pois muitas raparigas da sua aldeia voltavam para casa para morrer de sida depois de terem sido vendidas para bordéis. Todos os dias ela reza a Buda, tentando ganhar o mérito que a preserve da doença. Tenta também insistir com os clientes para que usem preservativos, e em muitos casos consegue-o porque o proxeneta a apoia. Mas quando os polícias se servem dela, ou o próprio proxeneta, fazem como lhes apetece; se ela tenta insistir, é espancada e violada. Receia também a gravidez, e tal como as outras raparigas apanha injecções da droga contraceptiva Depo-Provera. Uma vez por mês faz um teste de HIV, e até agora tem sido negativo. Sabe que se o teste for positivo será expulsa do bordel para morrer à fome.
Embora tenha apenas quinze anos, Siri está resignada a ser prostituta. Depois de ter sido vendida e levada para o bordel, descobriu que o trabalho não era aquilo que ela pensava que fosse. Como muitos tailandeses rurais, Siri teve uma infância protegida e ignorava o que seria trabalhar num bordel. O primeiro cliente magoou-a, e ela na primeira oportunidade fugiu. Na rua, sem dinheiro, foi rapidamente apanhada, arrastada, espancada e violada. Nessa noite foi forçada a receber uma cadeia de clientes até de madrugada. Os espancamentos e o trabalho continuavam noite após noite até que ela quebrou. Agora tem a certeza de que é uma má pessoa, muito má, para ter merecido aquilo que lhe aconteceu. Quando eu lhe disse como era bonita numa fotografia, como uma estrela pop, respondeu «não sou uma estrela; sou apenas uma puta, e mais nada». Faz o melhor que pode. Tem orgulho no seu preço mais elevado, e no grande número de homens que a escolhem. E a adaptação ao campo de concentração, um esforço para dar sentido ao horror. A prostituição é ilegal na Tailândia, mas raparigas como Siri são vendidas para a escravatura sexual aos milhares. Os bordéis que têm estas raparigas são apenas uma pequena parte de uma indústria do sexo muito mais vasta. Como pode este comércio grossista de raparigas continuar? O que é que o mantém em funcionamento? A resposta é mais complexa do que se poderia pensar; o boom económico da Tailândia, a sua cultura machista, e a sua aceitação social da prostituição, tudo contribui para isso. Dinheiro, cultura e sociedade misturam-se de modos poderosos para escravizar raparigas como Siri.

Segue: Uma rapariga vale um televisor

A nova escravatura III – Brasil: «Eles chegam com as suas belas palavras…»

Setembro às 7:30 pm | Publicado em cativeiro, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, miséria, sofrimento, violência | Deixe um comentário

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos adaptados)

Anterior: A vida à beira do precipício

«Eles chegam com as suas belas palavras…»

A partir do princípio da década de 1980, quando a vaga de desenvolvimento alastrou para Mato Grosso do Sul, os recrutadores começaram a aparecer nos bairros de lata de Minas Gerais em busca de trabalhadores com alguma experiência de fazer carvão. Esses recrutadores são chamados gatos e desempenham um papel-chave no processo de escravização. Quando eles entram nas favelas com os seus camiões de gado e anunciam que estão a contratar homens ou mesmo famílias inteiras, os residentes desesperados respondem imediatamente. Os gatos vão de porta em porta ou usam altifalantes para chamar as pessoas à ma. Por vezes os políticos locais, e até as igrejas locais, deixam-nos usar os edifícios públicos e ajudam-nos a recrutar trabalhadores. Os gatos explicam que precisam de trabalhadores nos ranchos e nas florestas do Mato Grosso. Como bons vendedores, expõem as muitas vantagens do trabalho regular e das boas condições. Oferecem-se para fornecer transporte para Mato Grosso, boa comida no local, um salário regular, ferramentas e viagens gratuitas a casa para visitar a família. Para uma família faminta, isto parece uma oferta milagrosa de um novo começo. Num campo de carvão do Mato Grosso falei com um homem chamado Ronaldo (nome não verdadeiro), que descreveu o seu recrutamento: Os meus pais viviam numa zona rural muito seca e quando cresci não havia lá trabalho, nenhum trabalho. Por isso decidi ir para a cidade. Fui para São Paulo, mas lá era ainda pior; não havia trabalho e tudo era muito caro, e o lugar era perigoso — havia muito crime! Por isso depois fui para Minas Gerais porque ouvi dizer que lá havia trabalho. Não sei se havia ou não, mas um dia veio um gato e começou a recrutar pessoas para trabalhar aqui no Mato Grosso. O gato disse que nos dariam boa comida todos os dias e que além disso teríamos bom salários. Prometeu que todos os meses o seu camião levaria as pessoas a Minas Gerais para poderem visitar as famílias e levar-lhes os salários. Até deu dinheiro a alguns homens para darem às famílias antes de partirem e comprarem comida para levarem consigo na viagem. Conseguiu encher facilmente o camião de trabalhadores e partimos na viagem para oeste. Durante o caminho, quando parávamos para meter combustível, o gato dizia: «Vão ao café e comam o que quiserem, que eu pago.» Tínhamos passado fome durante muito tempo, por isso pode imaginar como comemos! Quando chegámos a Mato Grosso, continuámos a avançar cada vez mais para o interior do país. Este campo fica a uns setenta quilómetros de tudo; é só cerrado durante mais de setenta quilómetros, até encontrar nem que seja uma fazenda, e só há uma estrada. Quando chegámos ao acampamento pudemos ver que era horrível: as condições não eram boas nem para animais. De pé à volta do acampamento havia homens armados. E então o gato disse: «Cada um de vocês deve-me muito dinheiro: há o preço da viagem, e da comida que vocês comeram, e o dinheiro que lhes dei para as vossas famílias — por isso nem pensem em sair daqui.»

Ronaldo estava num beco sem saída. Como os outros trabalhadores, descobriu que não podia partir do acampamento e não podia dizer nada sobre o trabalho que lhe davam para fazer. Ao fim de dois meses, quando os trabalhadores perguntaram sobre a ida a casa para uma visita, disseram-lhes que ainda estavam demasiado endividados para que os deixassem partir.
Uma mãe de três filhos que mais tarde fugiu do trabalho forçado, explicou: «Quando as coisas estão mal aqui [nas favelas], é como se os gatos adivinhassem que as pessoas estão num tal aperto, e então chegam e enganam os pobres… Vêm com as suas bonitas palavras e prometem o braço, mas quando lá chegamos eles não nos dão nem a pontinha do dedo.» (A mulher citada foi entrevistada por Alison Sutton no Piauí, em Abril de 1992; ver Sutton, Slavery in Brazil, p. 34.)
Quando os trabalhadores iniciam a viagem, os gatos pedem-lhes dois documentos: o bilhete de identidade e a carteira de «trabalho». Estes são essenciais à vida no Brasil. O bilhete de identidade é essencial para qualquer relação com a polícia ou com o governo e prova da cidadania; a carteira de trabalho é a chave para o emprego legal. Ao assinar o verso da carteira de trabalho de uma pessoa, um patrão cria um contrato vinculativo e coloca o emprego sob as leis do trabalho do governo, como as regras do salário mínimo. Sem uma carteira de trabalho, os trabalhadores têm dificuldade em obter os seus direitos. Os gatos dizem que precisam dos documentos para actualizar os seus registos, mas na realidade essa pode ser a última vez que os trabalhadores os vêem. Conservando esses documentos, adquirem um domínio poderoso sobre os trabalhadores. Por muito má que seja a sua situação, os trabalhadores hesitam em partir sem os seus documentos. Entretanto, visto que as carteiras de trabalho não foram assinadas, não há prova de emprego e pouca protecção legal. Como afirmou um investigador brasileiro: «A partir desse momento, o trabalhador está morto como cidadão, e nasce como escravo.» (José de Souza Martins, «Escravidão Hoje no Brasil», Folha de São Paulo, 13 de Maio de 1986, p. 7.)
Para os gatos, o seu método de recrutamento a longa distância tem grandes vantagens. Levados para longe das suas casas, os trabalhadores desconhecem os campos em redor e estão separados dos seus amigos ou da família que os poderiam ajudar. Mesmo que consigam fugir, não têm dinheiro e estão endividados. Não têm como pagar a viagem de regresso ao seu próprio estado. Muitas vezes continuam a trabalhar nas mais horríveis condições, na esperança de obter algum dinheiro que lhes permita chegar a casa. E se fogem dos campos de carvão, as gentes locais muitas vezes sentem-nos como estranhos e receiam-nos. Sem bilhete de identidade, podem ser presos pela polícia como vadios ou suspeitos como criminosos. Sem as carteiras de trabalho não podem trabalhar; mais do que isso, continuam sem ser registados no seu novo local de trabalho e os inspectores de trabalho governamentais e os organizadores dos sindicatos não sabem que eles existem. Nos campos do carvão, os trabalhadores estão isolados, como as jovens brutalizadas e retidas nos bordéis na Tailândia: podemos ver no Brasil outro exemplo do método de escravização de «campo de concentração». O campo de carvão é o seu próprio mundo. O gato e os seus capangas têm um controlo absoluto e podem usar a violência à sua vontade. O que eles querem é trabalhadores que tenham desistido, que façam tudo o que lhes peçam. Ao mesmo tempo, querem que os seus cativos trabalhem duramente, de modo que lhes prometem constantemente o pagamento e mais comida e melhor tratamento. Equilibrando a esperança e o terror, eles encerram os seus novos escravos no trabalho. Como as jovens forçadas à prostituição, os trabalhadores do carvão não são escravizados para toda a vida; na verdade, a sua permanência nos campos é em geral mais curta do que a das mulheres nos bordéis da Tailândia. Os gatos e os seus patrões não querem possuir aqueles trabalhadores, mas apenas espremer deles o máximo trabalho possível. Os trabalhadores com quem falei foram mantidos em servidão por dívida entre três meses e dois anos, mas raramente mais do que isso. Havia várias razões para a brevidade do seu emprego. Um campo de carvão dura apenas dois ou três anos em qualquer local até à exaustão das florestas em redor, e os trabalhadores raramente são transferidos de um campo para outro. E os trabalhadores adoecem e ficam exaustos ao fim de alguns meses de trabalho nos fornos. Em vez de continuar a manter aqueles que já não trabalham em pleno, é mais eficaz, do ponto de vista dos custos, desfazer-se deles e recrutar outros para os substituir. Visto que em geral não têm dinheiro quando são despedidos dos campos, muitos dos trabalhadores nunca conseguem voltar a suas casas em Minas Gerais. As mais das vezes deambulam pelas cidades de Mato Grosso, e muitos são enviados outra vez para os campos de carvão (chamados baterias).
Um campo de carvão é chamado bateria porque tem uma bateria de fornos. A bateria pode ter desde vinte até mais de cem fornos, com entre oito e quarenta trabalhadores. O calor, o fumo, e a desolação da bateria faz com que aquilo pareça um pedaço do inferno trazido para a floresta. Os fornos de carvão são construções redondas de tijolo e barro com cerca de dois metros de altura e três de largo. São construídos em longas filas direitas, com vinte ou trinta fornos separados por cerca de um metro uns dos outros. Uma pequena abertura no forno com cerca de um metro de altura é a única entrada. Através dessa porta enchem o forno completamente de lenha. A lenha tem de ser empilhada desde o chão até ao tecto arredondado do forno, com muito cuidado e muito apertada, para que arda adequadamente e se transforme em carvão. Depois de empilhada a lenha, a porta é selada com tijolos e barro e acende-se o fogo. O carvão faz-se queimando a lenha com um mínimo de oxigénio. Se entra demasiado ar no forno, a lenha é consumida pelo fogo e só ficam cinzas. Se não houver ar suficiente dentro do forno, produzem-se apenas pedaços de madeira meio queimados e inúteis. Para controlar a entrada de ar, abrem-se e fecham-se pequenos buracos de ventilação nos lados do forno, destapando-os ou tapando-os com barro. A queima dura cerca de dois dias e os trabalhadores têm de vigiar constantemente o forno, dia e noite, para verificar se ele está a arder à temperatura devida. Terminada a queima, deixa-se o forno arrefecer; depois retira-se o carvão.
A toda a volta do campo, numa extensão de uma milha, a terra foi desnudada e rasgada. A terra está vermelha e degradada. Os tocos das árvores, as grandes manchas de ervas e de lenha queimada, as valas e buracos e a omnipresente nuvem de fumo transformam-no num campo de batalha. A destruição da floresta é visível por todo o lado. Cobertos de fuligem negra e cinzas e luzidios do suor, os trabalhadores movem-se como fantasmas para dentro e para fora do fumo à volta dos fornos. Todos os trabalhadores que vi eram apenas músculo, osso e cicatrizes; toda a gordura tinha sido queimada pelo calor e pelo esforço. O fumo esmagador e sufocante dá a cor e o sabor a tudo. O fumo do eucalipto, carregado dos óleos ácidos que a árvore produz, é cáustico e arde nos olhos, no nariz e na garganta. Todos os trabalhadores do carvão tossem constantemente, cuspindo e tentando limpar os pulmões sempre cheios de fumo, de cinza, de calor e de pó de carvão. Se viverem o bastante, sofrerão de doenças pulmonares.
A maioria dos fornos vertem e cospem fumo, e o calor é tremendo. Mal entramos na bateria somos dominados pelo calor. Esta parte do Brasil já é quente e húmida; retire-se qualquer protecção que as árvores poderiam oferecer contra o sol e acrescente-se o calor de trinta fomos, e o resultado é um inferno de assar. Para os trabalhadores que têm de entrar nos fornos ainda escaldantes e retirar o carvão o calor é inimaginável. Quando entrei num forno com um homem que retirava o carvão com uma pá, a pressão do calor deixou-me a cabeça à roda em minutos, o suor encharcou-me as roupas, e o chão de carvões escaldantes queimava-me os pés através das grossas botas. O tecto pontiagudo concentrava o calor e passados momentos eu estava aturdido, em pânico e mole. Os trabalhadores estão permanentemente à beira da insolação e da desidratação. Por vezes as suas conversas eram confusas, como se tivessem o cérebro cozido. Os trabalhadores que esvaziam os fornos permanecem quase nus, mas isso expõe a sua pele às queimaduras. Por vezes de pé em cima das pilhas de carvão, eles tropeçam ou o carvão cede e caem no meio dos carvões incandescentes. Todos os trabalhadores do carvão que conheci tinham as mãos, os braços, as pernas cobertos de feias cicatrizes de queimaduras, algumas ainda inchadas e purulentas.
Diante dos fornos há grandes pilhas de lenha cortada com um metro e vinte de comprimento, preparada para encher o forno. Por trás dos fornos há montes de carvão à espera de ser ensacado e transportado para as siderurgias. A fila de fornos é o último passo na destruição das florestas, que desaparecem num círculo cada vez mais largo à volta da bateria. No extremo dos campos arruinados à volta dos fornos, os trabalhadores queimam as plantas rasteiras e derrubam mais árvores, empurrando a orla da floresta cada vez para mais longe. Arrastada para os fornos por tractores, a lenha cortada em breve será transformada em carvão.

A nova escravatura IV – Paquistão: Quando é que um escravo não é escravo?

Setembro às 7:08 pm | Publicado em ambição, cativeiro, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, fome, miséria, sofrimento, violência | Deixe um comentário

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos)

Paquistão
Quando é que um escravo não é escravo?

À luz suave da manhã, num ar ainda denso com o orvalho da noite, as crianças estão a misturar água e terra e a amassá-la em blocos que parecem pães. Tagarelam e riem enquanto trabalham. De momento o trabalho é fácil; o Sol está baixo e o dia ainda fresco. Pouco passa das seis horas da manhã e a família Masih já está a trabalhar há quase duas horas, a fazer tijolos. O trabalho das crianças — dois rapazes, de onze e nove anos, e uma menina, de seis anos — é essencial para a sobrevivência da família. Misturam e preparam o barro que será moldado em tijolos pelos pais. Usando uma enxada para cavar numa barreira na cova onde trabalham, as crianças desfazem depois a terra com as mãos. Felizmente este solo do Punjab não é muito pedregoso nem duro. A menina arrastou uma lata de água do poço, e as crianças misturam a água com a terra, fazendo o barro macio necessário para os tijolos. Quando o barro está misturado, atiram um bloco do tamanho de um pão para a mãe. Esta está agachada junto de uma longa fila de tijolos moldados pelo marido. Ela volta a amassar o bloco e polvilha-o com terra seca. Agora está pronto para o molde e ela empurra-o para o marido, que o agarra e o mete num molde de madeira. Batido dentro do molde, o bocado de barro faz um bloco sólido; o excedente é retirado, e um novo tijolo cru é colocado no chão para secar.
De dez em dez segundos um bocado de barro voa da criança para a mãe, para o pai e para o molde de madeira. A linha de tijolos no chão estende-se à medida que o Sol sobe por cima da cova. De vez em quando, o trabalho abranda, quando começa uma nova fila de tijolos e as crianças têm de esperar por mais água do poço. Ao fim de oitocentos tijolos, a manhã suave tornou-se num dia opressivo, quente e húmido. A temperatura é de 90 graus e o ar na cova é denso. As crianças param de conversar ou de rir; os seus movimentos são cada vez mais indolentes. Começam a ofegar e a suar, e aturdidas pelo calor trabalham como autómatos, cavando e misturando, cavando e misturando. Agora bebem mais da água trazida do poço, e enrolam pedaços de pano à volta da cabeça e dos ombros contra o sol. Quando estão alinhados mil e duzentos tijolos na cova, o sol e a humidade apertam-nos e eles estão a desfalecer de calor e de fome. Mesmo assim trabalham, cavando e misturando, mantendo o fluxo de barro para o pai, enquanto este molda tijolo após tijolo. Finalmente, depois de cerca de mil e quatrocentos tijolos, entre a uma e as duas horas da tarde, param. Agora, no maior calor do dia, o trabalho torna-se impossível, e eles arrastam-se de regresso à única divisão com chão de terra em que vivem, para comer uma refeição rápida e depois dormir. Dormir é a única maneira de suportar o grande calor do dia.
Ao fim de algumas horas o dia refresca um pouco. É tempo para mais duas ou três horas a cavar na barreira da cova, fazer um monte de terra solta e molhá-la para que esteja pronta de manhã. E claro que há também outro trabalho para fazer. A mãe está a preparar a principal refeição da noite, e se não estão a cavar na cova, o pai e os filhos podem estar a acartar, a arrastar ou a empilhar tijolos em volta do forno de tijolo. A família Masih é apenas uma das quinze famílias que fazem tijolos no forno, e por vezes, ao fim da tarde, as crianças das diferentes famílias podem ter tempo para brincar juntas.
As crianças são uma parte importante da força de trabalho num forno de tijolo no Paquistão. Trabalhando com os pais, misturam o barro para os tijolos crus. Outras crianças podem trabalhar com arrastadores, que transportam os tijolos crus das covas para o forno, ou podem ajudar a empilhar os tijolos no forno, um trabalho mais especializado. Se os tijolos não forem bem empilhados, o forno pode ruir, com consequências desastrosas. Mais tarde os tijolos quentes têm de ser tirados do forno e empilhados cá fora; quando são vendidos, devem ser carregados em carroças ou camiões e transportados. Antes que isso aconteça, é preciso transportar o carvão para o alto do forno e deitá-lo com pás para as fornalhas. A temperatura ali é muito superior aos 130 graus e os trabalhadores, incluindo as crianças, usam sandálias com solas de madeira grossas por causa do calor do forno. Por causa do seu calçado pesado, os trabalhadores andam com cuidado, e as crianças têm uma vantagem, porque quando os fogos se acendem no forno em baixo, por vezes o nível superior dos tijolos cede. Quando isso acontece, uma pessoa pode cair por ali adentro. Se os trabalhadores caem completamente no forno não há esperança para eles; a temperatura lá dentro é de mais de 1500 graus, e eles são instantaneamente incinerados. Se metem apenas uma perna ou o pé, pode haver esperança, dependendo da rapidez com que são puxados para cima e para fora. Mas as queimaduras serão graves e estropiantes.
Apesar do risco, as crianças continuam a trabalhar; as famílias precisam da sua ajuda para sobreviver. E muitas famílias, mesmo com os esforços das crianças, não se conseguem amanhar. O valor do seu trabalho significa que, ao visitar muitos fornos de tijolo no estado do Punjab, descobri que apenas uma mão-cheia de crianças iam à escola. Muitas vezes nenhuma criança está a receber escolaridade. Noutros casos, talvez três ou quatro rapazes podiam ir à escola (quando as crianças são mandadas à escola, as raparigas raramente estão incluídas). Em alguns fornos vinha um homem uma vez por semana para iniciar as crianças no Alcorão, mas eram apenas as crianças muçulmanas e excluíam as muitas crianças cristãs que também trabalhavam ali. Para as crianças dos fornos de tijolo, o trabalho é longo e duro, mas o trabalho duro e a diligência não garantem o sucesso.
Se as condições de trabalho não fossem suficientemente más, o sistema de trabalho nos fornos de tijolo apresenta outros perigos e sofrimentos. Virtualmente todas as famílias que fazem tijolos trabalham por uma dívida para com o dono do forno. Essas dívidas apresentam um perigo especial para os filhos. Por vezes, quando o dono de um forno suspeita de que uma família tentará fugir e não pagar a sua dívida, pode tomar um filho como refém para obrigar a família a ficar. Essas crianças são afastadas do forno e mantidas pela força, fechadas na casa do dono ou na casa de um parente. Ali põem-nos a trabalhar num qualquer trabalho que o dono decide e alimentam-nos com o mínimo possível.
Manter crianças como caução já é bastante mau, mas não é o pior aspecto do sistema. A dívida para com o dono do forno não acaba se o pai da família morrer. Em vez disso, passa para a mulher e para os filhos. Um rapaz de treze ou catorze anos pode ser sobrecarregado com uma dívida que carregará por muitos anos, talvez para toda a vida. A dívida herdada amarra-o ao forno e à incessante mistura e moldagem de tijolos crus. Além disso, o custo do funeral do pai será acrescentado à dívida. A herança da dívida é um factor-chave no tipo de escravização a que tenho chamado servidão por dívida, um sistema que mantém muitas famílias paquistanesas numa vida de labuta opressiva.

Rosas com espinhos – Caroline Njenga

Setembro às 6:51 pm | Publicado em ambição, cativeiro, corrupção, crueldade, denúncia, exploração, miséria, sofrimento | Deixe um comentário

Caroline Njenga
in:Além-mar, Janeiro 2006

O Quénia produz diariamente 800 mil pés de flores para exportação: são rosas. Naivasha, no oeste do país, tem as condições ideais para a floricultura. Mas os trabalhadores não estão a tirar partido do lucrativo negócio. Muito pelo contrário. E o meio ambiente também não. A indústria exportadora de flores do Quénia está a desabrochar em força. É a terceira maior fonte de divisas estrangeiras, depois do turismo e do chá. A floricultura regista um crescimento rápido através da transformação de grandes quintas em estufas.

O Quénia é um dos maiores fornecedores de flores cortadas ao mercado europeu e a indústria emprega mais de 50 mil operários. Contudo, enquanto as empresas continuam a crescer e a registar grandes ganhos anuais, os trabalhadores estão cada vez mais pobres. A pobreza não é o único problema que enfrentam. Há casos de assédio, intimidação, longas horas de trabalho extraordinário sem a correspondente remuneração e despedimentos ilegais.

Para compreender melhor a situação dos trabalhadores, fui a Naivasha, onde se concentram os maiores produtores e flores. A área de Karagita é o seu coração, e dá nome à pequena cidade onde vive a maioria dos trabalhadores. Um lugar pacato, excepto para uns quantos que andam a apregoar os seus serviços. Um deles diz-me que quase todos os habitantes de Karagita trabalham nas estufas. Parece que não têm alternativa.

Abortos e bebés mortos

Não me permitiram entrar nas plantações. Para falar-lhes, tive de esperar que os operários acabassem os seus turnos. Os autocarros das empresas floricultoras voltam à tardinha com os trabalhadores que fizeram o turno da manhã. Muitos dos que se apeiam são mulheres jovens.

Wanjiru – os nomes foram mudados para proteger a identidade dos entrevistados – diz-me que selecciona e embrulha flores. Por vezes, ela e outras colegas têm de trabalhar muito para além do horário do seu turno. Mesmo quando deixam o emprego depois da meia-noite, têm de se apresentar novamente ao trabalho às seis da manhã. Hoje saiu cedo porque as encomendas não eram muitas.

No mês passado, houve dois casos de violação denunciados por mulheres que ficaram a trabalhar até tarde nas plantações. Wanjiru diz que os autocarros da companhia costumavam deixá-las junto de casa, mas os supervisores aboliram a benesse e agora os operários são deixados na paragem, mesmo às horas mais tardias. «Nós somos violadas, mas na manhã seguinte esperam que estejamos a trabalhar», diz. Wanjiru continua a desfiar a sua história. Quem embrulha flores permanece de pé durante longas horas. E não há intervalos, excepto para almoço. «Estamos habituadas a estar de pé», afirma. Mas diz que, por causa disso, muitas mulheres têm problemas de saúde.

Abortos espontâneos são comuns. Um grande número de bebés morre logo depois do parto. Outras mulheres queixam-se de que não conseguem engravidar por causa da exposição a substâncias químicas. Parece que as empresas de floricultura não levam a sério as questões relacionadas com a saúde. Apesar de terem clínicas privadas, os empregados queixam-se de que os tratamentos são muito caros e inadequados.

Joseph Onyango, que foi condutor de camiões na Homegrown e entretanto se despediu, conta que sofreu um acidente de trabalho em Setembro de 2004. «Estava a ajudar a rebocar um dos tractores e encontrava-me a amarrar uma corda. Infelizmente, o outro condutor meteu a mudança errada e fui entalado. Socorreram-me imediatamente, mas o sangue corria por toda a perna. Pensei que ia morrer. Levaram-me para a clínica da empresa, prestaram-me os primeiros socorros e coseram a ferida. Pensei que, como o acidente foi grave, seria transferido para um hospital para fazer mais exames. Mas levaram-me para casa e disseram que a ambulância me recolheria na manhã seguinte porque o doutor não estava na clínica. Não conseguia sequer caminhar, e tive de ser levantado como um bebé; o meu braço também estava ferido. No dia seguinte esperei que alguém me viesse buscar, mas o director não enviou ninguém. Fui obrigado a chamá-los. Irritaram-me bastante, porque sabiam muito bem a condição em que me encontrava. Telefonei e disseram-me que a ambulância tinha problemas mecânicos. Mas eu vi-a a passar à frente da minha porta. É assim que tratam os trabalhadores. Dão mais valor às flores do que às pessoas.»

Um euro por dia

Os assalariados recebem entre 85 e 100 shillings quenianos – cerca de um euro – por dia. Algumas companhias só pagam os seis dias de trabalho, omitindo a folga. Outras não pagam as hora extraordinárias. A maioria dos trabalhadores recebe um subsídio de alojamento, mas algumas das companhias oferecem casa aos trabalhadores. Visitei um desses locais para me inteirar das suas condições. As construções têm uma só divisão e estão muito juntas. Um dos empregados disse-me que tem duas crianças que partilham o quarto com ele e com a esposa. Contou-me que não podem receber hóspedes por mais de uma semana, senão têm problemas. Mas afirma que a situação está a melhorar: «No passado, partilhámos o quarto com outra família. Era realmente mau, não havia privacidade.»

Os trabalhadores da indústria das flores enfrentam inúmeras dificuldades. Debatem-se sobretudo com a falta de um sindicato que defenda os seus direitos, embora exista um Comité de Assistência que deveria ajudá-los. De acordo com os empregados, os maiores entraves partem da administração das companhias: são os directores que impõem quem deve dirigir o Comité. Numa das floricultoras, um condutor contou-me que nas últimas eleições escolheram o seu delegado, mas a administração queria impor outro dirigente. «O nosso representante não durou uma semana. Enviaram-lhe uma carta de despedimento. Não podemos manifestar os nossos protestos a esta gente; eles apoiam as administrações e têm medo de perder o próprio emprego se falarem.» Há muitas intimidações nas companhias. As pessoas têm medo de começar um sindicato, porque temem ser despedidas.

Hipopótamos envenenados

Os trabalhadores não são as únicas vítimas da indústria da floricultura. O lago Naivasha e o delicado ecossistema que o circunda também não foram poupados. Frequentemente, os produtos químicos utilizados acabam no lago. É comum os pescadores encontrarem peixes mortos à tona da água. Conhecem-se casos preocupantes: dois hipopótamos e algum gado dos pastores Massai também morreram depois de beberem água do Naivasha.

Os empregados das estufas admitem que algumas companhias deixam escorrer os resíduos para o lago. E não é só o lago que é afectado pelos produtos químicos. Alguns trabalhadores encontram-se em situação de alto risco, sobretudo os que pulverizam as plantas e colhem as flores.William, que trabalha na Homegrown, diz que, apesar de usarem equipamento de protecção, fazem testes frequentes para ver se estão bem de saúde e podem continuar a tratar as plantas. «Tiram-nos o sangue para exames, mas não dizem o que estão a despistar. Alguns colegas foram transferidos de lugar depois dos testes, mas não sabem porquê.»

William continua: «Quando pulverizamos as flores, sabemos que ninguém deve entrar na estufa durante um número mínimo de horas. Mas, se as flores são precisas, os cortadores vêm apanhá-las depois de uma hora. Às vezes o spray nem sequer chegou a secar e ainda se sente o cheiro. As mulheres, ou colhem as flores ou perdem o emprego. São capazes de não saber quanto tempo depois de os pesticidas terem sido usados é que podem entrar, mas nós sabemos. Se o supervisor diz que o podem fazer depois de uma hora, nós não podemos protestar. Temos medo de perder o nosso trabalho.»

À espera de Londres

Durante o ano passado, Naivasha foi um dos lugares mais perigosos do Quénia. Alguns condutores dos turnos da noite foram assaltados e os seus pertences roubados. As companhias para que trabalham não os compensaram.

Em Outubro, um grupo de trabalhadores da Flamingo Farm, proprietária da companhia Homegrown, escreveu uma carta ao director-geral da empresa, em Londres, a denunciar o sentimento de frustração dominante, a intimidação e o assédio por parte dos administradores locais. A denúncia causou muita tensão – que afectou também as outras empresas – e espera-se que venha a gerar mudanças.

O perfume doce das flores melhora a vida de alguns mas piora a de outros. Oferecer uma rosa pode sair barato. Mas, no Quénia, o gesto sai caro à saúde pública e ao meio ambiente.

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