Escravos do século XXI

Setembro às 10:40 am | Publicado em ambição, cativeiro, corrupção, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, fome, miséria, sofrimento, violência | 19 comentários
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National Geographic – Set. 2003

Texto: Andrew Cockburn
Imagem: Jodi Cobb

O título não é uma metáfora. Falamos mesmo de escravos. Não de seres humanos que vivem como escravos, trabalhando por um salário miserável. Não são também os escravos de há 200 anos. Falamos dos 27 milhões de pessoas que, em todo o mundo, incluindo Portugal, são compradas e vendidas, exploradas e brutalizadas para dar lucro. São os escravos do século XXI.

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No Norte da Índia, num quarto mal iluminado e sem ventilação, uma dúzia de crianças debruçadas sobre aquecimentos a gás fabrica pulseiras para vender a 40 cêntimos a dúzia. De idades compreendidas entre os 9 e os 14 anos, estas crianças trabalham dez horas por dia, todos os dias – vendidas pelos pais ao dono da oficina em troca de dinheiro. Em média, as crianças indianas são escravizadas por cerca de 30 euros.

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As dívidas condenam famílias ao CATIVEIRO durante várias gerações. No Sudoeste da Índia, mães e filhas transportam para o forno tijolos feitos à mão, enquanto pais e filhos atiçam o fogo. Os empregadores compram os trabalhadores, emprestando dinheiro para despesas que eles não conseguem pagar. Apesar de trabalharem muitos anos para pagar a dívida, os juros exorbitantes e a contabilidade desonesta perpetuam o fardo, que passa de pais para filhos. Cerca dos dois terços dos trabalhadores cativos de todo o mundo – 15 a 20 milhões – são escravos por dívidas na Índia, no Paquistão, no Bangladesh e no Nepal.

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O corpo de uma mulher pode ser VENDIDO vezes sem conta. Os donos de bordéis israelitas, podem comprar jovens da Ucrânia ou da Moldávia por cerca de 3.500 euros. Mesmo um pequeno negócio com dez prostitutas pode render milhões se euros por ano. Fazendo-se passar por recrutadores de mão-de-obra, os traficantes vão buscar vítimas às cidades pobres da Europa do Leste, atraindo-as com promessas de bons empregos. Quando as mulheres chegam, são entregues a compradores que, por norma, as espancam, violam ou aterrorizam para garantir obediência.

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PROMESSA QUEBRADA

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Os pais do rapaz enviaram-no como aprendiz de mecânico para a capital do Benin. Trabalha o dia todo (em cima), sem descanso nem salário. Não pode sair à rua sem autorização e a desobediência é punida com pancada. Segundo Kevin Bales, director da associação Free The Slaves, a escravatura actual é caracterizada por domínio e exploração económica. O controlo sobre os escravos não se exerce com um regime legal de propriedade, mas através do que Bales chama a “autoridade decisiva da violência”. A escravatura é difícil de detectar: entre os cerca de 60 mil chineses que vivem em Itália, imigrantes legais e ilegais trabalham lado a lado com escravos. As buscas em locais como esta fábrica de peles perto de Florença (em baixo) são dificultadas pela barreira da língua e pelo uso de documentos falsos.

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Em Bombaim, na série de bordéis que ladeiam a rua de Falkland, as raparigas mais jovens e bonitas são exibidas em jaulas ao nível da rua para atrair clientes. Muitas mulheres são despejadas por traficantes nestas colmeias, mas muitas são definitivamente vendidas pelos pais ou pelos maridos. Cerca de 50 mil mulheres – metade das quais despachadas a partir do Nepal através da Índia – trabalham como prostitutas na cidade. A violência, as doenças, a subnutrição e a falta de cuidados médicos reduzem a sua esperança de vida para menos de 40 anos.

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Nasci escrava

O meu nome é Salma. Nasci na Mauritânia em 1956, escrava. Os meus pais eram escravos e os pais deles foram escravos da mesma família. Assim que comecei a andar, fui obrigada a traba¬lhar durante todo o dia, todos os dias. Mesmo quando estava doente, tinha de trabalhar.
Quando ainda era criança, comecei a tomar conta da primeira mulher do chefe da família e dos seus 15 filhos. Mais tarde, se algum dos meus próprios filhos estava doente ou em perigo, não me atrevia a ajudá-lo, porque tinha de tratar dos filhos da mulher do meu patrão. Batiam-me frequentemente. Um dia, bateram na minha mãe e eu não aguentei: tentei impedi-los. O chefe da família ficou muito zangado comigo. Atou-me as mãos, marcou-me com um ferro em brasa e deu-me um estalo. O anel dele fez-me um corte que deixou uma cicatriz.
Não me deixaram ir à escola, nem aprender mais do que alguns versículos e orações do Alcorão. Mas tive sorte, porque o filho mais velho do patrão andou numa escola longe da aldeia e tinha ideias diferentes das do pai. Em segredo, ensinou-me a falar francês e a ler e escrever um pouco. Acho que toda a gente pensou que ele andava a violar-me, mas ele estava a ensinar-me.
Os outros escravos sentiam medo da liberdade: tinham medo de não saberem para onde ir ou o que fazer. Mas eu sempre acreditei que tinha de ser livre e acho que foi isso que me ajudou a fugir. Há cerca de dez anos, tentei escapar: como não sabia a que distância ficava o Senegal, caminhei durante dois dias no sentido errado. Descobriram-me, levaram-me para trás e castigaram-me. Ataram-me os pulsos e os tornozelos, amarraram-me a uma tamareira num terreno da família e deixaram-me lá durante uma semana. O chefe da família cortou-me os pulsos com uma navalha para que eu sangrasse horrivelmente. Ainda tenho as cicatrizes.
Por fim, conheci um homem no mercado que me disse que o Senegal ficava do outro lado do rio. Decidi tentar outra vez. Corri até ao rio onde o dono de um pequeno barco de madeira aceitou levar-me até ao Senegal. Aí, fui até um refúgio administrado por um antigo escravo da Mauritânia. Fiquei no Senegal durante alguns anos, ganhando dinheiro a fazer trabalhos domésticos. Mas nunca me senti segura. Estava sempre com medo que o chefe da família pagasse a alguém para me ir procurar e me levasse de volta à sua casa.
Quando cheguei aos EUA, trabalhei a fazer tranças no cabelo. Da primeira vez que me pagaram por um trabalho, chorei. Nunca tinha visto ninguém ser pago pelo seu trabalho. Foi uma surpresa muito agradável. Uma das coisas mais difíceis foi abandonar os meus filhos, mas sabia que primeiro tinha de fugir. Desde que aqui cheguei, há três anos, tenho trabalhado para libertá-los. Paguei a pessoas que os encontraram e os levaram para o Senegal e agora estou a pagar para que os meus filhos vão à escola.
Levanto-me cedo todas as manhãs, compro um cartão telefónico e falo com eles. Dizem-me que preferem morrer na rua do que voltar à Mauritânia. A minha filha mais velha já está comigo nos EUA. Desejo muito que os meus outros filhos venham ter connosco. Na Mauritânia, nunca tive o direito de tomar decisões em relação aos meus filhos. Aqui é tão diferente.
Na Mauritânia, não me atrevia a ir ter com o governo porque eles não ligavam. As leis não interessam, porque eles não as aplicam. Talvez esteja escrito que não existe escravatura, mas isso não é verdade. Mesmo diante do presidente da Mauritânia, agora posso afirmar em voz alta que existe escravatura na Mauritânia porque já sou tão livre como ele. Quando cheguei aos EUA, tive medo que me mandassem embora. Foi então que conheci o meu advogado, um médico, que me ajudou, e Kevin Bales, da organização Free the Slaves. Conheci também o Programa Bellevue para os Sobreviventes da Tortura. O juiz que julgou o meu pedido de asilo era honesto e cumpriu a sua função. Exigiu provas, mas depois ouviu e prestou atenção.
Um dia, gostaria de ser cidadã dos Estados Unidos e quero que os meus filhos também sejam. Aqui tenho liberdade de expressão. Na Mauritânia, não havia liberdade de expressão. No Senegal, tinha medo de falar abertamente porque era muito próximo da Mauritânia. Então tive de ter cuidado. Tive de ir para muito, muito, muito longe. Aqui, agora, posso falar abertamente.

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Texto de Lyne Warren
Fotografias de Jodi Cobb

Embora custe a acreditar, a escravatura não deixou de existir. Mais incrível ainda é o facto de centenas de milhões de pessoas levarem vidas pouco livres, com um nível de oportunidades pouco superior ao dos escravos. Muitas vezes, os mais pobres sacrificam a sua dignidade, os seus filhos, e até os seus corpos, a um mercado global ávido de LUCRO DESUMANO.

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Este bebé não é um escravo. Porém, como está numa caixa de cartão e cresceu numa barraca de chapa ondulada, a vida deste rapaz da Guatemala começa com escassas probabilidades pela frente. Pode ser roubado ou vendido e depois adoptado ilegalmente, no âmbito de um processo internacional transformado em negócio rendível para alguns advogados guatemaltecos que agem como intermediários. Também pode tornar-se numa das 44% de crianças guatemaltecas que crescem padecendo de subnutrição; ou uma das 80% que vivem em habitações sem lavabos, nem sistemas de recolha de lixo; ou das 40% que chegam à idade adulta sem saber ler ou escrever.
A pobreza que aflige a maioria das famílias da Guatemala é a regra, não a excepção. Três mil milhões de pessoas – quase metade da população mundial – lutam pela sobrevivência com menos de dois euros por dia.
Terríveis provações podem levar os mais pobres a vender os seus bens, os seus corpos ou o dos seus filhos.

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Nos países em desenvolvimento, dezenas de milhares de mulheres transformaram-se em produtos do comércio de sexo. Devido a usos tradicionais das suas comunidades, outras jovens não têm direito a fazer opções elementares, relativamente ao casamento e à gravidez.
Embora os casamentos à força sejam denunciados pela Organização das Nações Unidas como forma de escravatura e quase todos os países tenham estabelecido idades legais mínimas para o casamento, os costumes locais continuam a desafiar a lei. No povoado de Bembe, no Benin, todas as mulheres e crianças comparecem perante o chefe da aldeia (em cima). “São poucas as raparigas da aldeia que chegam aos 18 anos sem se casar”, afirma Hector Gnonlonfin, fundador do Tomorrow Children, um abrigo para crianças exploradas. “Encontrámos uma aluna de 10 anos que já tinha marido.”
Para a família da noiva, o preço a pagar por um noivo mais velho pode representar a diferença entre morrer à fome e sobreviver.

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Para a saúde de uma rapariga, as consequências de um casamento precoce podem ser fatais: segundo a Organização Mundial de Saúde, as raparigas com menos de 15 anos têm cinco vezes mais probabilidades de morrer devido a complicações de gravidez do que mulheres com mais de 20 anos.
Por vezes o sacrifício físico apresenta-se num acto único: estas mulheres de Villivakkam (em cima), na Índia, cuja alcunha é “aldeia dos rins”, trocaram um rim por dinheiro. Com cerca de 20 anos na época em que aceitaram fazê-lo, ansiosas por pagar as sufocantes dívidas familiares, elas foram alvos fáceis para os agentes de transplantes que prometeram cerca de 880 euros por cada órgão. Embora recebessem metade do dinheiro adiantado, não recebera o resto da quantia. A Índia proibiu o comércio de órgãos humanos, mas isso não fez para o tráfico. Para estas mulheres, a dor não cessou: três foram abandonadas pelos maridos, que as consideraram bens danificados. Nas suas palavras, só lhes restam as cicatrizes.

A nova escravatura IV – Paquistão: Quando é que um escravo não é escravo?

Setembro às 7:08 pm | Publicado em ambição, cativeiro, crueldade, denúncia, escravatura, exploração, fome, miséria, sofrimento, violência | Deixe um comentário

Kevin Bales
Gente descartável
Lisboa, Editorial Caminho, 2001
(excertos)

Paquistão
Quando é que um escravo não é escravo?

À luz suave da manhã, num ar ainda denso com o orvalho da noite, as crianças estão a misturar água e terra e a amassá-la em blocos que parecem pães. Tagarelam e riem enquanto trabalham. De momento o trabalho é fácil; o Sol está baixo e o dia ainda fresco. Pouco passa das seis horas da manhã e a família Masih já está a trabalhar há quase duas horas, a fazer tijolos. O trabalho das crianças — dois rapazes, de onze e nove anos, e uma menina, de seis anos — é essencial para a sobrevivência da família. Misturam e preparam o barro que será moldado em tijolos pelos pais. Usando uma enxada para cavar numa barreira na cova onde trabalham, as crianças desfazem depois a terra com as mãos. Felizmente este solo do Punjab não é muito pedregoso nem duro. A menina arrastou uma lata de água do poço, e as crianças misturam a água com a terra, fazendo o barro macio necessário para os tijolos. Quando o barro está misturado, atiram um bloco do tamanho de um pão para a mãe. Esta está agachada junto de uma longa fila de tijolos moldados pelo marido. Ela volta a amassar o bloco e polvilha-o com terra seca. Agora está pronto para o molde e ela empurra-o para o marido, que o agarra e o mete num molde de madeira. Batido dentro do molde, o bocado de barro faz um bloco sólido; o excedente é retirado, e um novo tijolo cru é colocado no chão para secar.
De dez em dez segundos um bocado de barro voa da criança para a mãe, para o pai e para o molde de madeira. A linha de tijolos no chão estende-se à medida que o Sol sobe por cima da cova. De vez em quando, o trabalho abranda, quando começa uma nova fila de tijolos e as crianças têm de esperar por mais água do poço. Ao fim de oitocentos tijolos, a manhã suave tornou-se num dia opressivo, quente e húmido. A temperatura é de 90 graus e o ar na cova é denso. As crianças param de conversar ou de rir; os seus movimentos são cada vez mais indolentes. Começam a ofegar e a suar, e aturdidas pelo calor trabalham como autómatos, cavando e misturando, cavando e misturando. Agora bebem mais da água trazida do poço, e enrolam pedaços de pano à volta da cabeça e dos ombros contra o sol. Quando estão alinhados mil e duzentos tijolos na cova, o sol e a humidade apertam-nos e eles estão a desfalecer de calor e de fome. Mesmo assim trabalham, cavando e misturando, mantendo o fluxo de barro para o pai, enquanto este molda tijolo após tijolo. Finalmente, depois de cerca de mil e quatrocentos tijolos, entre a uma e as duas horas da tarde, param. Agora, no maior calor do dia, o trabalho torna-se impossível, e eles arrastam-se de regresso à única divisão com chão de terra em que vivem, para comer uma refeição rápida e depois dormir. Dormir é a única maneira de suportar o grande calor do dia.
Ao fim de algumas horas o dia refresca um pouco. É tempo para mais duas ou três horas a cavar na barreira da cova, fazer um monte de terra solta e molhá-la para que esteja pronta de manhã. E claro que há também outro trabalho para fazer. A mãe está a preparar a principal refeição da noite, e se não estão a cavar na cova, o pai e os filhos podem estar a acartar, a arrastar ou a empilhar tijolos em volta do forno de tijolo. A família Masih é apenas uma das quinze famílias que fazem tijolos no forno, e por vezes, ao fim da tarde, as crianças das diferentes famílias podem ter tempo para brincar juntas.
As crianças são uma parte importante da força de trabalho num forno de tijolo no Paquistão. Trabalhando com os pais, misturam o barro para os tijolos crus. Outras crianças podem trabalhar com arrastadores, que transportam os tijolos crus das covas para o forno, ou podem ajudar a empilhar os tijolos no forno, um trabalho mais especializado. Se os tijolos não forem bem empilhados, o forno pode ruir, com consequências desastrosas. Mais tarde os tijolos quentes têm de ser tirados do forno e empilhados cá fora; quando são vendidos, devem ser carregados em carroças ou camiões e transportados. Antes que isso aconteça, é preciso transportar o carvão para o alto do forno e deitá-lo com pás para as fornalhas. A temperatura ali é muito superior aos 130 graus e os trabalhadores, incluindo as crianças, usam sandálias com solas de madeira grossas por causa do calor do forno. Por causa do seu calçado pesado, os trabalhadores andam com cuidado, e as crianças têm uma vantagem, porque quando os fogos se acendem no forno em baixo, por vezes o nível superior dos tijolos cede. Quando isso acontece, uma pessoa pode cair por ali adentro. Se os trabalhadores caem completamente no forno não há esperança para eles; a temperatura lá dentro é de mais de 1500 graus, e eles são instantaneamente incinerados. Se metem apenas uma perna ou o pé, pode haver esperança, dependendo da rapidez com que são puxados para cima e para fora. Mas as queimaduras serão graves e estropiantes.
Apesar do risco, as crianças continuam a trabalhar; as famílias precisam da sua ajuda para sobreviver. E muitas famílias, mesmo com os esforços das crianças, não se conseguem amanhar. O valor do seu trabalho significa que, ao visitar muitos fornos de tijolo no estado do Punjab, descobri que apenas uma mão-cheia de crianças iam à escola. Muitas vezes nenhuma criança está a receber escolaridade. Noutros casos, talvez três ou quatro rapazes podiam ir à escola (quando as crianças são mandadas à escola, as raparigas raramente estão incluídas). Em alguns fornos vinha um homem uma vez por semana para iniciar as crianças no Alcorão, mas eram apenas as crianças muçulmanas e excluíam as muitas crianças cristãs que também trabalhavam ali. Para as crianças dos fornos de tijolo, o trabalho é longo e duro, mas o trabalho duro e a diligência não garantem o sucesso.
Se as condições de trabalho não fossem suficientemente más, o sistema de trabalho nos fornos de tijolo apresenta outros perigos e sofrimentos. Virtualmente todas as famílias que fazem tijolos trabalham por uma dívida para com o dono do forno. Essas dívidas apresentam um perigo especial para os filhos. Por vezes, quando o dono de um forno suspeita de que uma família tentará fugir e não pagar a sua dívida, pode tomar um filho como refém para obrigar a família a ficar. Essas crianças são afastadas do forno e mantidas pela força, fechadas na casa do dono ou na casa de um parente. Ali põem-nos a trabalhar num qualquer trabalho que o dono decide e alimentam-nos com o mínimo possível.
Manter crianças como caução já é bastante mau, mas não é o pior aspecto do sistema. A dívida para com o dono do forno não acaba se o pai da família morrer. Em vez disso, passa para a mulher e para os filhos. Um rapaz de treze ou catorze anos pode ser sobrecarregado com uma dívida que carregará por muitos anos, talvez para toda a vida. A dívida herdada amarra-o ao forno e à incessante mistura e moldagem de tijolos crus. Além disso, o custo do funeral do pai será acrescentado à dívida. A herança da dívida é um factor-chave no tipo de escravização a que tenho chamado servidão por dívida, um sistema que mantém muitas famílias paquistanesas numa vida de labuta opressiva.

O negócio da infância

Setembro às 6:58 pm | Publicado em corrupção, denúncia, exploração, fome, miséria, violência | Deixe um comentário
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Manuel Giraldes
in: Além-mar, Janeiro 2006

Na Etiópia, o tráfico interno de crianças ronda as dezenas de milhares. Raptadas, vendidas por familiares ou vizinhos, acabam nas grandes cidades. As meninas vão parar à prostituição ou são exploradas como escravas do lar, os meninos chegam a trabalhar mais de 14 horas por dia, em fabriquetas de têxteis ou tijolos, na construção civil. Há quem os tente ajudar, há até alguns que acabam por ser resgatados. Mas há experiências que deixam sequelas para toda a vida.

Zeiba (9 anos). Está na central de camionagem, mas não vai a lado nenhum. Apenas acabou de chegar. Donde? Pelos olhos dela, tristemente velhos, directamente do inferno. Quase imaginamos rugas em redor, porque, como os mantém sempre baixos, dir-se-iam mergulhados em sulcos de sombra. Fala numa voz sumida, entrecortada, como se as palavras fossem uma espécie de tosse seca. Aos arrancos, lá vai contando: fugiu de uma casa onde se encarregava do trabalho doméstico pelo equivalente a dois euros ao mês; aguentou um ano aquela «vida», depois fugiu. Foi o irmão – tem mais três irmãs – que a trouxe dos campos do Sul até à capital. O pai morreu, alguém tinha de dar uma ajuda. Calhou-lhe a ela. Embora seja difícil imaginá-la a empunhar uma vassoura: pelos padrões europeus, tem um corpo de quatro/cinco anos.

 

Daniel (13 anos). Profissão: tecelão. Horário de trabalho: 14 horas por dia. Está sentado ao lado de Zeiba e dir-se-ia, quando muito, ter mais um ano do que ela. Fala com o tom sério de um soldadinho que foi à guerra e sobreviveu ao que viu, já sem lágrimas nem sequer quem o chorasse: a mãe morreu, o pai voltou a casar, entre os dois legaram-lhe três irmãs e o mais completo abandono. No seu caso, foi um vizinho que se encarregou de o trazer do Sul até à grande cidade, de fechar o negócio. Se negócio se lhe pode chamar! Ordenado: zero; alimentação: um a três pães por dia; bónus: o patrão mandava todos os anos o equivalente a dez euros para a sua família; subsídio: quando bebia, batia-lhe. Durante dois anos, teceu imparavelmente o fino fio do algodão: produzia um manto (gabi) por dia e uma mantilha tradicional (natala) – que, no mercado, se vende pelo correspondente a 80/100 euros por semana. Depois, não aguentou mais. Fugiu. Andou 15 quilómetros até chegar à estação, há dois dias. Quando acaba de ciciar a sua história, levanta-se para nos apertar a mão. E, quase milagrosamente, esboça um leve sorriso. Por incrível que pareça, Zeiba e Daniel tiveram sorte. Quando os encontramos, estão sentados num banco corrido, num cubículo que fica logo à esquerda dos portões que, em Adis-Abeba, acolhem os veneráveis autocarros que tanto percorrem o escasso macadame como as inúmeras «estradas» – de terra batida, de cascalho, de barro e lama – que irrigam de movimento e vida o imenso e montanhoso país. Com ajuda, encontraram o caminho. Embora sem a garantia de que não seja um beco sem saída, de que não venham a ser obrigados a fazer marcha atrás.

Um menino por um euro

Zeiba e Daniel são apenas duas ínfimas peças de uma imensa e lucrativa engrenagem: na Etiópia, o tráfico de crianças e jovens entre os dez e os 18 anos «ronda as dezenas de milhares». Num país onde de repente se descobre que o recenseamento está incorrecto e que, em vez de 75, há 77 milhões de etíopes, é claro que não «existem números exactos». Conhecem-se, sim, com precisão, os casos concretos. Ou pequenos «pormenores»: «Há crianças que chegam a ser vendidas por um euro.»

Quem o diz, com uma voz em que a eficiência ainda não substituiu por completo a mágoa, é Meron Negash, do recém-fundado Fórum on Street Children – Ethiopia (FSCE), uma organização não governamental que tenta remar contra a torrente dos meninos de rua. Sim, porque tanto aqueles que são raptados e traficados como os que são maltratados e explorados, em casa ou nos locais de trabalho, possuem algo em comum: todos fogem e desaguam nas ruas. A única diferença: uns fogem antes de serem apanhados na teia, outros depois.

De que fogem? Que pergunta… Num país onde 81,9 por cento da população vive com cerca de um euro por dia, numa nação milenarmente cristã mas multiétnica onde, em muitas zonas, é corrente um homem ter duas, três, quatro mulheres e um somatório de oito, dez, doze filhos, a maioria foge à pobreza e à fome. Mas também escapam à violência, a um casamento forçado, ao engano em que caem quando alguém lhes propõe trabalho ou uma oportunidade de estudar e se vêem vendidos a bordéis, a hotéis, a patrões. O destino varia geralmente segundo os sexos, a desgraça é a mesma: elas prostituem-se, tornam-se empregadas domésticas; eles vão parar sobretudo a fabriquetas de tecidos onde são «armazenados» e obrigados a trabalhar 14, 15 horas por dia, mas também efectuam trabalhos ainda mais pesados, nas fábricas de tijolo, na construção civil. Há uma «profissão», porém, em que não há descriminação sexual: «Por vezes, as crianças são mutiladas pelos traficantes, para as porem a pedir nas ruas. Tornam-se mendigos à força.»

As meninas que são obrigadas a prostituírem-se, nas ruas, nos bordéis ou nos hotéis, têm maior procura quando se encontram na casa dos 11,13 anos. Diz Meron Negash: «Quanto mais nova melhor. Há a ideia de que assim não há o perigo de contrair sida e outras doenças.» Embora a organização possua um abrigo seguro onde as que conseguem escapar às teias do negócio podem permanecer durante seis meses, a sua reinserção social é extremamente difícil. «O estigma permanece. Ninguém quer empregar crianças exploradas sexualmente.»

Sequelas para toda a vida

Fikir Isedeke, uma advogada que colabora com o Fórum, estabelece o elo com a pequena «esquadra» que funciona no terminal de autocarros do Merkato. É para aí, para um cubículo que não terá mais do que dois por três metros, que as autoridades encaminham as crianças que, como Zeiba e Daniel, são encontradas a deambular pelas ruas. E é ela que coordena os esforços de reintegração social, que passam em primeiro lugar pela tentativa de as fazer regressar às suas famílias.

Bigo (15 anos) pode considerar-se realmente afortunada. Ao fim de três dias de autocarro desde o seu Wolisso natal, também no Sul do país, viu-se como empregada para todo o serviço numa casa onde era perseguida pela outra criada, que a humilhava por causa dos seus modos campesinos. Não aguentou mais de uma semana e fugiu. Depois de apenas um dia na rua, está agora sentada ao lado de Zeiba e Daniel, mas tudo a distingue deles: razoavelmente alta e bem nutrida, a sua vivacidade natural não se deixa abater pela situação. Embora tenha o 9° ano de escolaridade, quando a Polícia a encontrou nem sequer sabia dizer onde vivia a família, que foi exactamente quem a «vendeu» ao intermediário que a trouxe para a capital – pela módica quantia de dois euros. A história repete-se: a mãe morreu, o pai voltou a casar, tem quatro irmãos. Mas desta vez parece destinada a ter um final feliz: foi possível localizar os familiares, que esta tarde virão buscá-la.

A experiência foi tão curta que poucas marcas terá deixado. Mas, infelizmente, no meio de tanta miséria e exploração, o caso de Bigo até poderia passar por um conto de fadas. Uma grande parte das que passam por este tipo de trauma «ficam com sequelas psicológicas para toda a vida». Então, no caso das que foram molestadas, «são muito poucas as que recuperam».

O Fórum, em colaboração com outras organizações, tenta ensinar ofícios aos meninos, arranjar-lhe trabalho quando têm mais de 14 anos. Porque, quando as famílias são demasiado pobres, a tendência é irem parar outra vez à rua. Pensando melhor, Bigo ainda não está a salvo. Até porque, a par do tráfico interno, na Etiópia existe tráfico de raparigas para os países do Médio Oriente. Que, segundo uma responsável pela Organização Internacional para as Migrações, já era grande e tem tendência para aumentar.

Um tráfico condenado

Fikir Isedeke assegura que o tráfico interno é um fenómeno à escala nacional Porque, no fundo, todos colaboram, todos são traficantes: parentes, amigos da família, vizinhos, os motoristas de camião que percorrem incessantemente as «estradas» e as picadas do país Há uma espécie de círculo vicioso: «Algumas são raptadas a caminho da escola e por isso fogem das aldeias para as cidades para não voltarem a ser raptadas.» Ao fugir, vão parar às ruas. Que é precisamente o grande «mercado abastecedor» dos traficantes. Então, o que fazer? «Há que processar os traficantes, para despertar a consciência da opinião pública», afirma a doutora Isedeke. Quando lhe perguntamos se é fácil condená-los, solta um imperceptível suspiro, não se sabe se por cansaço, se por ter de enfrentar uma tão grande ingenuidade: «Só me lembro de um», diz.

Um padre comboniano, que trabalhou durante muitos anos no Sul, conta-nos que, sempre que uma criança desaparece subitamente, a família conforma-se e invariavelmente afirma: «Foram os babuínos.» Ele bem tentava explicar: «Olhem que não… São mas é os camionistas…» Aqui e ali, lá vislumbramos os esquivos babuínos. Os camionistas, esses, estão ao virar de cada esquina. Mas as crianças também. Num país tão populoso e tão «novo», há magotes de crianças em cada berma, há bebés de colo a espreitar, sozinhos, os ferengi (estrangeiros). No alto dos montes, nos vastos planaltos, são as crianças que, perdidas naquela imensidão, pastoreiam as cabras e as ovelhas, guardam as vacas, tocam os pequenos e diligentes burros, que se diria serem mais numerosos do que as estrelas. Todas acenam, todas sorriem, todas correm em direcção à estrada e ao todo-o-terreno para saudar o viajante. Por todo o lado, o bem mais abundante e mais barato parece ser a própria vida. E há sempre quem tenha olho para o negócio.

 

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