A guerra contra as crianças V

Setembro às 9:35 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, miséria, sofrimento, violência | Deixe um comentário
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 Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

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Refugiados e “deslocados”


Outra consequência inevitável da guerra é a imensidão das deslocações de população e dos agrupamentos de refugiados, nos quais as crianças acabam por ser as primeiras vítimas da escassez de provisões e dos êxodos precipitados impostos pelas peripécias político-militares, como pudemos observar a partir de 1994 na região Oriental da República Democrática do Congo.
Hoje em dia existem por todo o mundo vinte e oito milhões de “refugiados” – aqueles que atravessaram uma fronteira – e de “deslocados”, que são aqueles que permaneceram no seu país. Distinção teórica que pouca diferença faz na vida dos interessados. Do ponto de vista do Direito, só os refugiados podem reivindicar uma protecção jurídica especial, porque se viram forçados a abandonar o seu país, enquanto que os “deslocados” são, na realidade, refugiados no seu próprio país. Na prática, esta distinção não faz muito sentido – os “deslocados” do Sudão, que fugiram de uma guerra devastadora no sul do país, estão numa situação a todos os títulos comparável à dos seus compatriotas refugiados nos países vizinhos. Quanto à protecção jurídica de que os refugiados deveriam beneficiar, esta de nada valeu aos ruandeses massacrados desde o início de 1997 na região noroeste da República Democrática do Congo. Massacrados pelas armas e pela fome.
Quer se trate de “refugiados” quer de “deslocados”, mais de três quartos e, por vezes, mesmo nove décimos de entre eles, são compostos por mulheres e crianças. Imensas concentrações desumanas onde a vida gravita em torno da distribuição de víveres, e onde as crianças deambulam sem objectivo, de um acampamento para outro; campos enormes onde reinam a insegurança, a promiscuidade e a violência; onde circulam armas, onde os mais jovens se deixam levar pelos agentes recrutadores, onde os adolescentes são agredidos. Centenas de milhares de crianças nascem e sobrevivem nesses campos sem escolarização – em todo o mundo, apenas têm acesso à escola menos de 15% das crianças destes campos. Por outro lado, muitas destas crianças são privadas da sua nacionalidade, logo, de um sentimento de identidade nacional que provavelmente permanecerá ausente durante toda a vida. A idade permanecerá em muitos casos uma incógnita nas suas vidas e, para aqueles que se perderam dos pais, o próprio nome também. Podemos citar como exemplo o caso dos trezentos e cinquenta mil refugiados cambojanos imobilizados na fronteira khmero-tailandesa, com a Tailândia e o Camboja a “atirarem a batata quente” de um lado para o outro, a primeira negando-lhes a nacionalidade tailandesa e o segundo recusando-lhes a nacionalidade khmer, porque eles tinham fugido do país na altura sob a mão de ferro dos Khmers Vermelhos. Como sobreviver no mundo actual sem identidade, sem nacionalidade e sem saber a idade nem o próprio nome?
Para além disso, as condições de vida nos campos são cada vez mais precárias. Nos últimos quinze anos, o número de refugiados e deslocados tem vindo a dilatar-se desmesuradamente em consequência dos conflitos mais recentes – as guerras na América Central, no Afeganistão, em Moçambique, no Ruanda, etc., mas os recursos que a comunidade internacional põe à sua disposição não sofreram praticamente qualquer alteração. Muito pelo contrário, as rações alimentares foram diminuindo ao longo dos anos e a malnutrição existente nos campos tem aumentado. Aumenta ainda mais quando estes campos servem de base a soldados perdidos que não mostram qualquer escrúpulo em se servirem primeiro dos produtos alimentares, para eventualmente os revenderem e comprarem armas. Verifica-se, assim, que a malnutrição nunca foi tão grave nem tão frequente nesses campos como o é agora. Segundo a Unicef, a incidência da emaciação, ou emagrecimento muito acentuado, atinge nas crianças a tremenda percentagem de 40% em Angola, na Libéria e no Sudão.
Ninguém duvida que viver nesses campos deve ser semelhante a viver um autêntico pesadelo, mas este é um pesadelo que pode vir a durar quinze ou mais anos, como vimos no caso dos três milhões de refugiados afegãos fixados no Irão e no Paquistão, dos eritreus instalados no Sudão, dos moçambicanos no Malávi, dos cambojanos na Tailândia, etc. Em casos como estes, em que se tornarão as crianças? Adolescentes para quem o regresso ao país natal aparece como uma ideia abstracta, um país que eles nem sequer conhecem, ao mesmo tempo que vêem impedida a sua integração no país de “acolhimento”. Presas fáceis dos agentes de recrutamento e dos proxenetas que infestam os campos de refugiados.

 Segue: A criança treinada para matar

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A guerra contra as crianças II

Setembro às 9:14 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, violência | 1 Comentário
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Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

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A “criança-alvo”


Que significa esta evolução? Que as crianças não são protegidas em parte alguma como o deveriam ser, enquanto membros mais frágeis de uma sociedade. A expressão “Mulheres e crianças primeiro!”, utilizada na ocorrência de naufrágios, já não é levada a sério. No entanto, ela fazia todo o sentido, um sentido muito preciso – em caso de fatalidade, não se trata apenas de proteger os mais fracos, trata-se também de garantir o futuro.
Actualmente, muito pelo contrário, os conflitos fazem das mulheres e mais ainda das crianças, os seus alvos privilegiados. Assassinar crianças, feri-las ou violentá-las é aplicar um duro golpe no grupo humano que se pretende exterminar ou subjugar. Foi assim que se pôde ouvir a Radio Mille Collines inundar o Ruanda com este slogan em 1994 – “Para eliminar os ratos maiores, temos de matar os mais pequenos.” Ou seja, as crianças tutsis. E foi assim que mulheres grávidas foram esventradas para eliminar futuros tutsis e adolescentes violadas aos milhares para que ficassem marcadas com um ferro impossível de apagar. Uma atitude idêntica esteve sempre bem presente durante todo o conflito jugoslavo. Quando os atiradores furtivos visavam sem erro as crianças, nos passeios das ruas de Sarajevo, estavam a seguir obviamente a mesma lógica. Quando as granadas, cuidadosamente dirigidas, se abatiam sobre uma padaria ou sobre o mercado central da capital bósnia, também aqui, e mais uma vez, se seguia a mesma linha desta nova “estratégia”.
As crianças são cada vez mais assassinadas, feridas e massacradas nestas guerras “modernas” que se multiplicaram desde 1945 e cuja amplitude não pára de crescer perante os nossos olhos. Da América Central ao Camboja, do Líbano à República Democrática do Congo, surgem conflitos em todos os pontos do planeta que se abatem sobre as crianças, incluindo as mais jovens, como se todo o cuidado em protegê-las não só fosse aniquilado, apesar de todos os esforços dos partidários do Direito Humanitário Internacional, mas mesmo literalmente subvertido.
A evolução do armamento enquadra-se perfeitamente nesta óptica. Os aperfeiçoamentos técnicos não tornaram só os bombardeamentos (nucleares, químicos ou convencionais) muito mais eficazes. Tornaram igualmente a indústria das minas perfeitamente adaptada a esta nova concepção da guerra. É indispensável transformar o território do inimigo num campo de minas. Desta forma, será aplicado um rude golpe na moral dos civis e na sua capacidade de sobreviver ao conflito, de uma forma extremamente eficaz.
E é assim que hoje em dia, um certo número de países, que aliás se encontram entre os mais pobres do mundo, foram transformados efectivamente em imensos campos de minas – o Afeganistão, o Camboja e Angola são os países mais minados do mundo; segundo os peritos, o Afeganistão, por si só, tem enterradas no seu solo entre dez e quinze milhões de minas. O Camboja conta com oito milhões, ou seja, uma mina por habitante, e é o país que actualmente possui o maior número de mutilados do mundo. Mas o continente africano não lhe fica nada atrás, com um sem-número de campos de batalha, de Angola a Moçambique e do Ruanda à Somália. No total, em todo o mundo, encontram-se cerca de cento e dez milhões de minas espalhadas no solo de sessenta e quatro países. Não só “no solo”, aliás, porque graças aos progressos científicos, existem também minas aquáticas, adaptadas aos arrozais, por exemplo, e minas para as árvores. Há também a mina “saltitante”, concebida para explodir a um metro do solo, para melhor incapacitar ou assassinar, a mina “borboleta”, com o aspecto de um brinquedo colorido, a mina camuflada dentro de bonecas… a imaginação dos fabricantes não tem limites.
Ora estas minas, que destroem literalmente a vida civil de comunidades inteiras, são particularmente perigosas para as crianças. As crianças constituem, por si só, metade das seiscentas mil vítimas de minas (assassinadas ou mutiladas) nos últimos vinte anos. Os riscos que elas correm são ainda mais graves do que os que ameaçam um adulto. O corpo de uma criança, mais pequeno, não protege tão bem os órgãos vitais como o de um adulto e a sua resistência face à perda de sangue é menor. O ponto de impacto da explosão acontecerá a uma distância menor dos órgãos vitais, da face, dos olhos, e em consequência, muitas ficarão cegas. As crianças também são um alvo fácil porque têm tendência para explorar os: espaços desconhecidos para procurar (levadas pela curiosidade natural infantil) novas brincadeiras e construir brinquedos com os explosivos que encontram. As minas borboleta, tão tentadoras para os petizes, já assassinaram milhares de crianças no Afeganistão.
Por fim, quem é que vai buscar a lenha, a água, guardar o rebanho, atravessar os campos para chegar à escola, senão as próprias crianças? Depois da deflagração da mina e da descoberta da criança inanimada (quando é descoberta) é necessário amputá-la ou, no melhor dos casos, colocar-lhe uma prótese. Mas uma prótese – quando existe – é muito cara no Camboja, no Afeganistão ou em Angola. Dá-se então prioridade aos adultos porque estes são mais rentáveis para a sociedade. Por outro lado, uma criança está a crescer e irá precisar de duas, três, ou quatro próteses. É demasiado caro. Demasiado complicado. Muitas vezes, o que se seguirá será a rejeição da criança amputada e inválida pelo grupo social, sobretudo se a mutilação for vista como uma condenação divina, uma maldição sobrenatural, como acontece no Camboja.

 

Segue: Abatidas, refugiadas no silêncio

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