A guerra contra as crianças II

Setembro às 9:14 pm | Publicado em crueldade, denúncia, exploração, violência | 1 Comentário
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Claire Brisset
Um mundo que devora as suas crianças
Porto, CAMPO DAS LETRAS, 2005
Excertos adaptados

Anterior: A guerra contra as crianças

A “criança-alvo”


Que significa esta evolução? Que as crianças não são protegidas em parte alguma como o deveriam ser, enquanto membros mais frágeis de uma sociedade. A expressão “Mulheres e crianças primeiro!”, utilizada na ocorrência de naufrágios, já não é levada a sério. No entanto, ela fazia todo o sentido, um sentido muito preciso – em caso de fatalidade, não se trata apenas de proteger os mais fracos, trata-se também de garantir o futuro.
Actualmente, muito pelo contrário, os conflitos fazem das mulheres e mais ainda das crianças, os seus alvos privilegiados. Assassinar crianças, feri-las ou violentá-las é aplicar um duro golpe no grupo humano que se pretende exterminar ou subjugar. Foi assim que se pôde ouvir a Radio Mille Collines inundar o Ruanda com este slogan em 1994 – “Para eliminar os ratos maiores, temos de matar os mais pequenos.” Ou seja, as crianças tutsis. E foi assim que mulheres grávidas foram esventradas para eliminar futuros tutsis e adolescentes violadas aos milhares para que ficassem marcadas com um ferro impossível de apagar. Uma atitude idêntica esteve sempre bem presente durante todo o conflito jugoslavo. Quando os atiradores furtivos visavam sem erro as crianças, nos passeios das ruas de Sarajevo, estavam a seguir obviamente a mesma lógica. Quando as granadas, cuidadosamente dirigidas, se abatiam sobre uma padaria ou sobre o mercado central da capital bósnia, também aqui, e mais uma vez, se seguia a mesma linha desta nova “estratégia”.
As crianças são cada vez mais assassinadas, feridas e massacradas nestas guerras “modernas” que se multiplicaram desde 1945 e cuja amplitude não pára de crescer perante os nossos olhos. Da América Central ao Camboja, do Líbano à República Democrática do Congo, surgem conflitos em todos os pontos do planeta que se abatem sobre as crianças, incluindo as mais jovens, como se todo o cuidado em protegê-las não só fosse aniquilado, apesar de todos os esforços dos partidários do Direito Humanitário Internacional, mas mesmo literalmente subvertido.
A evolução do armamento enquadra-se perfeitamente nesta óptica. Os aperfeiçoamentos técnicos não tornaram só os bombardeamentos (nucleares, químicos ou convencionais) muito mais eficazes. Tornaram igualmente a indústria das minas perfeitamente adaptada a esta nova concepção da guerra. É indispensável transformar o território do inimigo num campo de minas. Desta forma, será aplicado um rude golpe na moral dos civis e na sua capacidade de sobreviver ao conflito, de uma forma extremamente eficaz.
E é assim que hoje em dia, um certo número de países, que aliás se encontram entre os mais pobres do mundo, foram transformados efectivamente em imensos campos de minas – o Afeganistão, o Camboja e Angola são os países mais minados do mundo; segundo os peritos, o Afeganistão, por si só, tem enterradas no seu solo entre dez e quinze milhões de minas. O Camboja conta com oito milhões, ou seja, uma mina por habitante, e é o país que actualmente possui o maior número de mutilados do mundo. Mas o continente africano não lhe fica nada atrás, com um sem-número de campos de batalha, de Angola a Moçambique e do Ruanda à Somália. No total, em todo o mundo, encontram-se cerca de cento e dez milhões de minas espalhadas no solo de sessenta e quatro países. Não só “no solo”, aliás, porque graças aos progressos científicos, existem também minas aquáticas, adaptadas aos arrozais, por exemplo, e minas para as árvores. Há também a mina “saltitante”, concebida para explodir a um metro do solo, para melhor incapacitar ou assassinar, a mina “borboleta”, com o aspecto de um brinquedo colorido, a mina camuflada dentro de bonecas… a imaginação dos fabricantes não tem limites.
Ora estas minas, que destroem literalmente a vida civil de comunidades inteiras, são particularmente perigosas para as crianças. As crianças constituem, por si só, metade das seiscentas mil vítimas de minas (assassinadas ou mutiladas) nos últimos vinte anos. Os riscos que elas correm são ainda mais graves do que os que ameaçam um adulto. O corpo de uma criança, mais pequeno, não protege tão bem os órgãos vitais como o de um adulto e a sua resistência face à perda de sangue é menor. O ponto de impacto da explosão acontecerá a uma distância menor dos órgãos vitais, da face, dos olhos, e em consequência, muitas ficarão cegas. As crianças também são um alvo fácil porque têm tendência para explorar os: espaços desconhecidos para procurar (levadas pela curiosidade natural infantil) novas brincadeiras e construir brinquedos com os explosivos que encontram. As minas borboleta, tão tentadoras para os petizes, já assassinaram milhares de crianças no Afeganistão.
Por fim, quem é que vai buscar a lenha, a água, guardar o rebanho, atravessar os campos para chegar à escola, senão as próprias crianças? Depois da deflagração da mina e da descoberta da criança inanimada (quando é descoberta) é necessário amputá-la ou, no melhor dos casos, colocar-lhe uma prótese. Mas uma prótese – quando existe – é muito cara no Camboja, no Afeganistão ou em Angola. Dá-se então prioridade aos adultos porque estes são mais rentáveis para a sociedade. Por outro lado, uma criança está a crescer e irá precisar de duas, três, ou quatro próteses. É demasiado caro. Demasiado complicado. Muitas vezes, o que se seguirá será a rejeição da criança amputada e inválida pelo grupo social, sobretudo se a mutilação for vista como uma condenação divina, uma maldição sobrenatural, como acontece no Camboja.

 

Segue: Abatidas, refugiadas no silêncio

1 Comentário »

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  1. gostaria de ver mais sobre as crinças mutiladas em moçambique, já que sou moçambicana


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